Em 31 de agosto fui surpreendido com a notícia de uma Assembléia de Estudantes na Faculdade de Direito da USP para destituição da atual diretoria XI de Agosto. A razão para isso deveu-se ao episódio ocorrido no dia 21 de agosto, quando movimentos sociais ocuparam a Faculdade de Direito da USP como parte da Semana de Jornada de Lutas por uma Educação Pública e de Qualidade, organizada por mais de 40 entidades, entre elas UNE e DCE da USP. O resultado disso, já conhecido, foi a intervenção da Tropa de Choque que tirou os manifestantes e os encaminharam para a delegacia, criminalizando o movimento.

O curioso desse processo foi o protagonismo do Diretor da Faculdade Profº João Grandino Rodas que não titubeou em acionar a PM (e não a Justiça) para uma rápida reintegração de posse da Faculdade, alegando ser um movimento estranho à Faculdade e cuja presença impedia a livre circulação dos professores, estudantes e funcionários. Por ter o Centro Acadêmico “XI de Agosto saído à público com uma crítica a essa atuação da Direção da Faculdade, o Profº João Grandino promoveu uma reação de estudantes afinados com a demagogia e o “elitismo” da Faculdade para encamparem a destituição da atual gestão do Centro Acadêmico.

A Faculdade cedeu a esses estudantes o Salão Nobre, manifestando seu forte interesse nesse processo. Conforme estudantes dessa Faculdade me informaram, o uso desse Salão só é permitido por meio de um aluguel no valor de 5 mil reais (estamos falando de uma Faculdade Pública) e, caso reservado com antecedência, os estudantes podem utilizá-lo por meio de um aluguel no valor de mil reais. Nesse caso, como forma de apoio a uma Assembléia “destituinte”, o espaço foi cedido de imediato e sem cobrar qualquer valor desses estudantes. Também, as aulas foram suspensas (não me confirmaram se oficialmente ou não) para garantir a realização da elaborada Assembléia.

Além disso, a Faculdade solicitou à Prefeitura do Campus a presença de cinco guardas universitários para proteção do patrimônio. O que se viu foi esses guardas na porta do salão, controlando a entrada dos estudantes e recebendo ordens de um dos líderes do grupo “Escória”, numa atuação explícita e abusiva de seguranças privados desse grupo.

Há de se lembrar que em 2005, o grupo “Escória”, então gestão do CA “XI de Agosto” publicou um jornal com conteúdos fortemente racistas, machistas e homofóbicos. Embora, na época, fossem severamente criticados, não houve processo de destituição dos mesmos.

No pátio, diversas mesas estavam dispostas com listas para assinaturas com objetivo de legitimar a Assembléia. Detalhe: além de não ter quaisquer controle, as assinaturas eram recolhidas, independentemente dos estudantes participarem ou não da Assembléia, para simplesmente legitimá-la.

Para além do uso de poder na solicitação da Tropa de Choque que expulsaram os movimentos sociais de dentro da Faculdade, o Profº João Garrido protagonizou pelos bastidores, esse movimento de destituição da gestão, por esses terem se posicionado a favor do movimento reprimido, contra a truculência do diretor. Operou e manipulou os instrumentos democráticos do movimento estudantil como resposta feroz ao posicionamento dessa Gestão.

Com isso, a lógica repressiva para o silenciamento da democracia, bastante utilizado nos “Anos de Chumbo”, hoje se mostra de uma forma esteticamente moderna, mascarada por um discurso democrático, mas com a mesma essência truculenta da época da Ditadura. A democracia e o direito à livre manifestação política não amadureceu nas instituições públicas pós-ditadura. O autoritarismo foi quem tomou novos ares: Ares de Democracia. A mesma lógica de poder repressor perpetuada nessa sociedade capitalista – seus métodos – estão atualizadas e inovadas.

Provavelmente, a ordem será estabelecida e a “Escória” voltará novamente à direção desse Centro Acadêmico para dar continuidade à sua política preconceituosa e conservadora. Tudo isso, sob as bençãos da direção da Faculdade e bancada financeiramente pela sociedade que sequer pode passar pela porta. A Universidade Pública se mantém como o espaço dos privilegiados que conseguiram passar pelo violento instrumento do vestibular. A Faculdade de Direito da USP, que nunca foi um território livre, mas território da “elite paulista”, continuará mantendo seu corpo discente branco e burguês, graças ao discurso da “meritocracia”, à intervenção da polícia e aos métodos inovadores de ingerência praticados por sua direção. E o movimento, os pobres, os negros e negras continuarão fora, política e espacialmente, dessa Faculdade, ocupando as ruas, as favelas, a periferia e as delegacias de nosso país.

Vivemos hoje a mentira de uma democracia ou, talvez, a democracia da mentira e, por se posicionarem favoravelmente a uma verdadeira democracia no ambiente universitário, a gestão atual do Centro Acadêmico “XI de Agosto” pode pagar caro por isso.

Esse meu desabafo, por ter presenciado essa tentativa de golpe efetivado pela burocracia universitária, segue como uma forma de apoio à Gestão atual e a sua coragem de não se calar diante da mentira que vivemos atualmente.

Em tempo, ao ver o filme (http://www.youtube.com/watch?v=Qia0cCEgYKo) da ocupação do Movimento e a intervenção da Tropa de Choque, pude observar um dos raros momentos em que essa Faculdade Elitista e Branca teve tantos negros e pobres dentro dela. Talvez seja o horror a essa presença que estimulou o Profº João Garrido Rodas a acionar a polícia.

Por Dário Neto, que é mestrando em Literatura Brasileira pela USP e representante discente no Conselho Universitário (CO) da USP.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.carosamigos.com.br.

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