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publicado em 10 de dezembro de 2018 às 11:37:
Após repressão policial, Ocupação 29 de Março é destruída por incêndio em Curitiba

Mais de 200 moradias foram destruídas pelo fogo, que teve início no mesmo local onde um PM foi morto; moradores culpam polícia por incêndio, que, por sua vez, atribui ao crime organizado

Mais de 200 moradias da Ocupação 29 de Março, localizada em Curitiba (PR), foram destruídas por um incêndio entre o fim da noite de sexta-feira (7/12) e a madrugada deste sábado (8/12). A local fica próximo da Vila Corbélia e compõe um complexo de moradias populares formado por 4 ocupações: Nova Primavera, criada em 2012, 29 de março – que foi atingida – e Tiradentes, que surgiram em 2015, e a mais recente, Dona Cida, iniciada em 2016. A estimativa é de que mais de 1500 famílias vivam no complexo.

Os moradores alegam que o incêndio aconteceu em represália ao assassinato de um PM ocorrido no início da madrugada de sexta-feira. O soldado Erick Nório, 28 anos, foi morto a tiros de metralhadora na entrada na ocupação, quando, de acordo com nota da Polícia Militar do Paraná, foi atender uma ocorrência de “perturbação de sossego”. “O militar estadual foi, covardemente, alvejado com dois tiros, faleceu em seguida, deixando esposa e um filho de quatro anos. A corporação se entristece por mais um irmão de farda que, cumprindo o seu dever, nos deixou”, diz nota.

Em coletiva de imprensa na tarde deste sábado, o comandante do 23º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Nivaldo Marcelos da Silva afirma que há “dois ou três óbitos para serem verificados, para entendermos qual a relação dos óbitos com o fato em si [o assassinato de Erick]. O incêndio de grandes proporções estamos atribuindo a uma retaliação do tráfico ou do crime organizado contra a ação policial que estava sendo feita lá”, destacou Nivaldo.

De acordo com Paulo Bearzoti Filho, integrante do MPM (Movimento Popular por Moradia), que prestou auxílio aos moradores, policiais passaram a sexta-feira toda na região em busca do assassino do colega, entrando em casas sem mandado e realizando abordagens abusivas.

“Eles passaram a realizar blitz e entrar nos barracos [após o assassinato do PM]. Houve cerco na comunidade. Quem estava em casa, tudo bem. Mas quem não estava teve cadeado e portas arrombadas. Ao longo do dia, a gente tem relatos de que isso foi crescendo, talvez porque eles não encontravam o culpado e foram perdendo a paciência e há relatos inclusive de ameaças, do tipo: ‘Olha, de dia tudo bem, mas a hora que chegar a noite vocês vão ver’”, contou. Paulo foi acionado pelos companheiros quando o incêndio começou. Houve pressão para que moradores entregassem o suspeito de atirar e matar Erick, mas, àquela altura, o atirador já havia fugido.

“Foi uma tristeza, uma crueldade. E os relatos convergem para a possibilidade de a polícia militar ter provocado o incêndio. Certamente, eles terão outra versão. Mas é complicado, porque ou foi, vamos pensar numa hipótese, um acidente, ou eles tocaram fogo mesmo. Porque foi exatamente no mesmo local [onde o soldado foi morto]. Eu acho muita coincidência”, disse Paulo Bearzoti Filho. “Os moradores estão com muito medo da próxima noite”.

Para Paulo, o incêndio vem deixa exposta a falácia da cidade modelo de Curitiba. “É o mito urbanístico do Brasil de que aqui não tem pobreza. O que tem aqui é a maior segregação sócio-espacial do Brasil. Porque aqui você não ve a pobreza, ela está escondida”, aponta o militante.

Moradores confirmaram ao IDP (Instituto Democracia Popular) os mesmo relatos colhidos por Paulo. “Eu não estava em casa, preferi passar o dia fora de casa. Minha porta estava trancada com cadeado. Eu cheguei o portão estava aberto e o cadeado estourado. Nem autorização eles estão pedindo, estão estourando os cadeados e entrando. Não sei como vai ficar essa situação, tá complicado”, relatou um morador. “Está ficando tenso aqui. Os policiais estão querendo reprimir a gente. Represália contra nós. Não estão perdoando ninguém, estão dando tiro direto à toa pra cima, estão invadindo barraco, arrombando. Estão dando tiro, não deixam ninguém sair para a rua”, contou outro morador.

Uma moradora da ocupação Nova Primavera relatou que policiais entraram na casa dela e fizeram acusações. “Eles entraram na minha casa e falaram que eu tinha vendido drogas, que guardava drogas para traficantes. Entraram nas casas, olharam embaixo da cama”, afirmou.

Na manhã deste sábado (8/12), o Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e a Assistência Social do município de Curitiba ainda faziam o rescaldo no local e o clima, além de muita consternação, era de medo. “Esfaquearam um rapaz lá embaixo na Primavera para forçarem a dizer quem era essa pessoa [que teria matado o PM Erick Nório]. Ninguém sabe quem era essa pessoa que matou e estão querendo que a gente fale quem é sem a gente saber quem é. E eles falaram ontem que ia vir mais tarde e que iam fazer isso mesmo, tacar fogo. Eu estava aqui, eu vi. Eu estava com uma vizinha aqui [aponta a casa] porque ela estava com medo e eu ouvi quando os policiais entraram numa casa e disseram: ‘Sai para fora porque vai ser pior’ e botaram fogo no barraco”, afirmou um morador que não quis de identificar. “As famílias têm que pagar por um erro de uma pessoa que a gente nem saber quem é. Agora a gente vai morar na casa do militares então”.

Moradores das ocupações se organizaram neste sábado para realizar mutirões de doações para famílias que perderam tudo no incêndio. Os donativos estão sendo entregues em um barracão na Ocupação Dona Cida.

Segundo a bombeiro Rafaela Diotaleve, em coletiva ainda de madrugada, a área e a quantidade de material inflamável dificultaram o controle das chamas. “Era difícil confinar o local, para que as chamas não avançassem para outras residências. Tivemos que entrar com mangueiras e só com pessoal para controlar o fogo porque não dava para acessar com veículo”, afirmou em coletiva ainda na madrugada. Algumas famílias estão sendo abrigadas na Escola Municipal Hamilton Calderari Leal. O Corpo de Bombeiros estima que os danos tenham atingido quase 300 barracos.

De acordo com a defensora pública Olenka Lins, a situação da região é desoladora. “É de extrema calamidade. Nós precisamos criar uma força-tarefa e tentar minimizar as perdas dessa população aqui. Nós estamos em contato com os órgãos do poder público para tentar viabilizar o aluguel social, eventual realocação dessas pessoas. As condutas criminosas eventualmente cometidas serão encaminhadas para o Ministério Público e o Núcleo de Direitos Humanos da defensoria Pública está atuando também. As denúncias [de abusos policiais] estão sendo encaminhadas e a promotoria deve chegar logo mais para tomar depoimento das pessoas”, explicou Olenka.

O deputado Tadeu Veneri, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Paraná, destaca que as denúncias de supostas torturas e abusos cometidos por policiais precisam ser apuradas. “É lamentável a morte do policial, que tem família, filho. E a gente soube e não entende que essa pessoa [que matou o PM] tentou se entregar duas vezes e não conseguiu. Agora não tem o que fazer, porque essa pessoa evidentemente não esta mais aqui. É trágico que houve a destruição de 200 casas destruídas por um incêndio que há diversas pessoas afirmando que foi a polícia. Por outro lado, a polícia atribui a grupos criminosos que atuam na região. Há famílias que estão sem casa, perderam tudo, roupas, documentos”, afirmou. O terreno onde a Ocupação 29 de março se localiza é público e, segundo Veneri, há expectativa que após o ocorrido o processo de regulamentação para construção de moradias populares aconteça.

Outro lado

Em coletiva de imprensa, a Polícia Militar chamou de mentirosas as acusações de abuso policial. “Toda ação desenvolvida pelas forças de segurança, Polícia Militar e Civil, foram pautadas dentro da legalidade. Não houve nenhuma ação isolada que pudesse ser alvo de questionamento. Estão chegando acusações levianas ao nosso conhecimento. Logicamente todos os mecanismos de corregedoria, de investigação, poderá comprovar ou não o que estamos dizendo aqui”, destacou o tenente-coronel Nivaldo Marcelos da Silva.

O coronel Péricles de Matos, chefe do 1º Comando Regional da PM paranaense, reforçou a fala do colega e afirmou que a própria comunidade ajudou a polícia a identificar o atirador que matou o PM. “A comunidade que não se envolve com atividade criminosa sofreu uma reprimenda do crime organizado que opera lá”, declarou.

por Maria Teresa Cruz e Paula Zarth Padilha
Ponte Jornalismo

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