Tradicionalmente conhecida como sinônimo de caderneta de poupança, a Caixa Econômica Federal (CEF) está agora apostando no crescimento de seus fundos de investimento. Segundo o vice-presidente da área de administração de recursos de terceiros, Wilson Risolia, o banco estuda uma campanha de fundos para clientes de renda mais baixa. Com R$ 45 bilhões sob gestão, a asset, quarta maior do mercado, atrás de BB DTVM, Bradesco e Itaú, pretende crescer lançando carteiras, como fundos de fundos e multimercados. Ativos imobiliários, como fundos e CRIs, segundo Risolia, passam a ser uma excelente opção com a queda da taxa de juros. Com a redução da Selic, cada vez mais, os fundos terão de trocar o bom e velho título público por papéis privados, o que significará abandonar a referência de curto prazo do CDI.

Se depender do ritmo atual, a administradora da Caixa tem tudo para incomodar os concorrentes. Segundo dados do site Fortuna, nos dois primeiros meses do ano, seus fundos captaram R$ 3,1 bilhões, atrás apenas do ritmo de aplicações na BB DTVM e no Citibank. A seguir, os principais trechos da entrevista que Risolia concedeu ao Valor.

Valor: Como ficarão os investimentos com a queda dos juros?
Wilson Risolia: Já trabalhamos há algum tempo com a hipótese de redução das taxas. Isso será um caminho sem volta. Os títulos públicos (as NTN-Bs, corrigidas pelo IPCA mais juros) saíram com taxa de 8,5% ao ano nos leilões das últimas semanas. Ao meu ver, essa é a curva de juros de longo prazo que o Brasil tem hoje. A alta Selic, de 17,25% ao ano, é apenas uma referência de juros de curto prazo, que baliza o crédito. Mas para o longo prazo, que é o que movimenta os projetos para o país, a taxa de 8,5% desse papel, que há alguns meses saia a 10,5%, é um excelente sinal.

Valor: Quais os reflexos dos juros mais baixos para o segmento de fundos?
Risolia: Isso é um desafio. Seja sob a ótica do gestor, que terá de rever sua forma de trabalhar, seja sob a ótica de quem investe que, no médio prazo, terá de mudar a sua referência. Esse é um trabalho que já vem sendo feito pela Andima, por exemplo, com os IMAs (Índices de Mercado Andima, que calculam o juro médio dos vários tipos e prazos de títulos no mercado secundário). Já há várias fundações nos procurando, interessadas em montar fundos com o IMA como referência e não o CDI. O mercado está mudando.

Valor: Como está o interesse do investidor por fundos?
Risolia: A demanda cresce muito. Aqui na Caixa estamos captando R$ 100 milhões por dia, mais que o dobro de anos anteriores. Em janeiro deste ano, captamos R$ 1,8 bilhão, para R$ 430 milhões no mesmo mês de 2005. No mês passado, captamos R$ 1,4 bilhão, para R$ 510 milhões em fevereiro de 2005. A grande entrada está em fundos de renda fixa

Valor: Qual o motivo dessa captação tão grande?
Risolia: São vários fatores. A indústria de fundos vem crescendo como um todo. Depois da última crise da marcação a mercado, em 2002, o setor só ganhou, com novas regras. Isso estimula o poupador. E, mesmo os juros caindo, ainda será uma bela taxa real.

Valor: Há motivos particulares da Caixa para essa captação?
Risolia: Há. Eu treino a rede de agência todos os dias para vender fundos de investimentos. Também preparamos os clientes, fazendo palestras. Soma-se a isso, a melhora do setor, em termos de regulação e benefício tributário, com o imposto de renda decrescente. Os fundos já tinham uma curva de permanência longa, acima de 24 meses. Com o benefício tributário, isso atrai mais recursos ainda. A captação é resultado da vontade de quem investe, mais as medidas do governo e o esforço do banco em oferecer fundos de uma forma diferente do que se fazia antes.

Valor: Como os bancos vendiam fundos antes?
Risolia: Antes de 2002, vendiam como se fosse uma poupança, algo sem risco algum, o que é um equívoco. Hoje não é mais assim, é uma venda mais qualitativa.

Valor: Existe também um esforço maior de venda da Caixa que também justifique essa captação?
Risolia: É óbvio que temos focos de atuação. Os bancos ainda estão vendendo muito CDB para obter caixa para abastecer a carteira de crédito, que vem crescendo muito. Mas até que ponto haverá demanda por CDBs? Isso tem limite. O crédito abastecido pelos recursos do CDB, no entanto, é um crédito para o varejo, que paga juros maiores. Acredito que haverá uma migração do crédito de curto prazo, da pessoa física, para o de longo prazo, como o das empresas hoje.

Valor: A demanda de pessoa física por crédito está secando, por isso a venda de CDBs se reduz, o que deve aumentar a captação de fundos?
Risolia: É uma relação de causa e efeito. Há demanda por fundos, mas ausência de bons lastros. Uma LFT já não oferece os ganhos de antes. O segmento de fundos caminha para assumir risco de crédito. Com esse rearranjo, há uma indústria que, no médio prazo, não deve mais ser referenciada ao CDI.

Valor: Para quais fundos caminha o setor com a queda do juros?
Risolia: No varejo, as mudanças são gradativas. Mas espero uma diversificação mais rápida do que outros gestores. Porque a queda dos juros pode ser mais rápida. Eu não me espantaria se a Selic caisse para 14% , 15% antes de dezembro.

Valor: O setor ainda está muito concentrado em renda fixa e DI…
Risolia: Isso vai mudar. O investidor de varejo já está buscando Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI). Ainda é uma escala pequena, mas à medida que os juros caírem, o interesse vai crescer. Tanto para os CRIs quanto para os fundos imobiliários, que ganharam incentivo fiscal. A Caixa está estudando a criação de produtos nessa linha. No exterior, esse tipo de ativo vai para o varejo. É um filão que deve crescer, seja pelo fluxo de caixa mensal ou pela isenção fiscal.

Valor: A diversificação de ativos dos fundos não tornará o setor mais arriscado?
Risolia: Não, representa um setor mais qualificado. Risco é sinônimo de qualificação, de um setor que irá aperfeiçoar seus instrumentos de análise de crédito. Há dois anos, os fundos não tinham quase nada de títulos privados, por isso as áreas de crédito das assets eram incipientes. Estão sendo montadas aos poucos, à medida que cresce a exposição das carteiras. Com a queda dos juros, a única forma de o gestor continuar dando retorno será tomando risco.

Valor: Qual é a estratégia para a asset crescer?
Risolia: Há três anos fizemos uma pesquisa para saber se o público conhecia a Caixa como gestora de fundos. E muito gente desconhecia. Várias fundações também não sabiam que a Caixa tem área de gestão. A saída foi divulgar e o melhor marketing foi mostrar uma boa performance das carteiras. Depois, com a área totalmente estruturada, fomos treinar as agências, ou seja, o vendedor.

Valor: E agora, quais são os próximos passos?
Risolia: Vamos buscar crescimento com novos produtos. A indústria tem 30 classes de fundos e a Caixa tem apenas dez. Vamos agora aumentar, com fundos de crédito, fundos de fundos, fundos de ações ativos, multimercados.

Valor: E essa diversificação é para crescer no varejo?
Risolia: Eu não vendo fundo para o público de renda mais baixa. Tenho fundo para esse segmento, mas o meu esforço de venda é da classe média para cima. Para a baixa renda, a Caixa foca em poupança ou outros produtos. Para aplicações a partir de R$ 30 mil é que temos um esforço maior de venda. Estamos discutindo a possibilidade de passarmos a vender fundos de forma mais intensa para o grande público.

Valor: Quando isso deve ocorrer?
Risolia: Ainda estamos estudando isso na diretoria do banco. Se decidirmos atacar a baixa renda, faltará definir de que forma. Esse público é totalmente diferente. Demanda outro tipo de produto, com um atendimento completamente diverso do dado à média e alta rendas. Mas a baixa renda é muito atraente pois é nela que estão as maiores margens de ganho. Esse processo não é trivial e está sendo discutido de forma estratégica. Não podemos esquecer que a Caixa é um banco com uma função social. Imagina o banco vender fundo para alguém que vai até a agência receber o seguro-desemprego ou o Bolsa Família? Isso não é socialmente correto, não é ético. Isso precisa ser muito bem pensado para não errarmos a mão.

Valor: A Caixa está entre os bancos que oferece fundos para o varejo com as menores taxas de administração. É uma estratégia?
Risolia: Não. As nossas aplicações são mais altas. Além disso, como não ataco no varejão, não posso ter fundos com taxas muito altas. E os nossos fundos também são antigos. Não consigo chamar cotistas de um fundo antigo para votar o aumento da taxa. Também tenho apenas um terço dos tipos de fundos que a indústria tem, logo, minha taxa média é mais baixa. À medida que formos lançando novas carteiras, mais sofisticadas, elas virão com taxas mais altas.

Fonte: Valor Econômico

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