Os espaços coletivos de produção têm de 5 a 13 mil metros quadrados e estão espalhados por todo o estado

Inauguração do Centro de Produção de Alimentos Saudáveis Antônio Tavares, em Centenário do Sul. Foto: Elaine Machado / MST-PR

Acampamentos e assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Paraná iniciaram, neste sábado (2), hortas comunitárias orgânicas para dar continuidade às doações de alimentos para famílias da cidade que já sofrem com o impacto da pandemia do coronavírus. Desde o início da pandemia, as comunidades paranaenses do MST doaram cerca de 85 toneladas de alimentos saudáveis a quem mais precisa.

Os espaços coletivos de produção têm de 5 a 13 mil metros quadrados e foram iniciados nos municípios de Castro, Boa Ventura de São Roque, Pinhão, Clevelândia, Maringá, Guarapuava, Quinta do Sol, Centenário do Sul e Planaltina do Paraná. Em Cascavel, a comunidade Resistência Camponesa começou a Agrofloresta Antônio Tavares, com 10 mil metros quadrados.

A data de início das produções foi escolhida como forma de homenagear o agricultor Antônio Tavares, assassinado pela Polícia Militar do Paraná no dia 2 de maio de 2000 no que ficou conhecido como massacre da BR 277. Antônio Tavares Pereira tinha 38 anos e era pai de 5 filhos. A violência policial ainda deixou cerca de 300 feridos naquele episódio.

“Nosso jeito de rememorar esse passado de luto, é fazer luta pela reforma agrária para uma vida melhor não só para os camponeses, mas para uma vida digna e saudável nas cidades, e isso só é possível com a democratização da terra”, garante Ceres Hadich, assentada do norte do Paraná e integrante da nacional do MST. Além de garantir a continuidade das doações, para algumas comunidades a produção diversificada também vai contribuir para o autossustento das próprias famílias agricultoras.

Ledir Weber mora há 3 anos no acampamento Valdair Roque, em Quinta do Sol, e conta que lá já se produz de tudo: hortaliças, legumes, batata, mandioca, feijão, amendoim, arroz. Ela fez parte do mutirão que iniciou a horta neste sábado: “Nós estamos num momento comunitário, para ajudar o próximo. Eu me sinto muito bem em estar ajudando todo mundo. Nesse momento de pandemia, nós estamos fazendo essa horta pra ajudar as comunidades que estão mais fracas”.

O monumento criado pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer em homenagem a Antônio Tavares e todas as vítimas do latifúndio também recebeu um ato simbólico neste sábado. Militante do MST estenderam grandes faixas e bandeiras do MST no local, que fica no quilômetro 108 da BR-277, onde Tavares foi assassinado. O monumento tem 10 metros de altura e foi inaugurada em 2001, um ano após o crime.

Doações de alimentos também ocorreram em duas cidades do estado. Em São Miguel do Iguaçu, o acampamento Sebastião Camargo e o assentamento Antônio Companheiro Tavares entregaram 1 tonelada de alimentos na comunidade urbana Guanabara. Além dos frutos da terra, os agricultores e agricultoras levaram pães caseiros, produzidos na própria comunidade. Em Congonhinhas, os assentamentos Rosa Luxemburgo e Ho Chi Minh e o acampamento Carlos Marighella organizaram uma doação de alimentos para a aldeia Guarani Nhandewa, na Terra Indígena Ywy Porã/Posto Velho, da cidade de Abatiá.

“Foi a primeira alimentação que chegou aqui pra gente depois dessa pandemia. A gente agradecer de coração, com muito carinho e respeito por vocês do MST. Apesar de a gente ser indígena, mas a gente está na mesma luta”, disse José Claudio Camargo, vice-cacique da aldeia, em mensagem enviada ao MST.

Confira mais informações sobre as hortas comunitárias:

Castro
O acampamento Maria Rosa do Contestado já tem certificação de produção 100% agroecológica em toda da comunidade, com cultivo de uma grande diversidade de alimentos sem veneno e muito trabalho em mutirão. Este sábado foi um especial de cultivo da terra, com a criação da Horta Solidária Antônio Tavares. A horta tem 6 mil metros quadrados, e vai contribuir para o avançar no autossustento das famílias e na doações de alimentos neste período de pandemia. A comunidade já doou mais de 5 mil toneladas de alimentos agroecológico neste último mês.

Cascavel
A Agrofloresta Antônio Tavares ocupará uma área de 10 mil metros quadrados no acampamento Resistência Camponesa, ao lado do local onde ocorria a Vigília Resistência Camponesa: por Terra, Vida e Dignidade, que denunciou as ameaças de despejo enfrentadas pelas famílias acampadas na região. A ação tem participação dos acampamentos 1º de Agosto e Dorcelina Folador, e do assentamento Valmir Mota. A criação da agrofloresta se soma à campanha nacional do MST para o plantio de 10 milhões de árvores até 2029.

Pinhão
“É uma horta orgânica e comunitária, vamos trabalhar todos juntos!”, resume a acampada Jandira, que vive no acampamento há 5 anos na comunidade Nova Aliança. Lá também foi inaugurada neste sábado a Horta Comunitária Antônio Tavares, com 5 mil metros.

Clevelândia
As famílias moradoras do Acampamento Mãe dos Pobres realizaram um mutirão de plantio das mudas de hortaliças para implantar a Horta Comunitária Antônio Tavares. Grande parte destes produtos serão destinados à continuidade da campanha de solidariedade do MST junto a áreas urbanas da região, durante os efeitos da crise econômica e da pandemia do novo coronavírus. As atividades terão prosseguimento e serão expandidas também para o Acampamento Terra Livre.

Guarapuava
Com trabalho em mutirão, o acampamento Encontro das Águas iniciou a horta Antônio Tavares neste sábado. A plantação será num espaço de 5 mil metros. A comunidade é formada por 90 famílias e existe há 3 anos, na luta e na produção de alimentos. Perci faz parte da coordenação do acampamento, e conta qual é a produção da comunidade: “Nós produzimos, além da horta, feijão, milho, arroz, abóbora, pra tirar o sustento. Tudo orgânico, sem nada de agrotóxicos pra produzir um alimento mais saudável pra mesa de quem consome”.

Quinta do Sol
O acampamento Valdair Roque iniciou nesta manhã a horta comunitária Antônio Tavares, com 5 mil metros quadrados. O plantio vai para garantir a doações de alimentos à população carente da cidade e também para o consumo da própria comunidade. Cerca de 40 famílias vivem na área, ocupada em 2015.

Centenário do Sul
Em Centenário do Sul, norte do Paraná, as famílias moradoras do acampamento Fidel Castro realizam um mutirão de plantio das mudas e inauguração do Centro de Produção de Alimentos Saudáveis Antônio Tavares. O espaço tem sido preparado há algumas semanas, com o objetivo de garantir a produção coletiva para venda e doação de alimentos agroecológicos. “A importância desse projeto é que com muito trabalho e muito carinho é desenvolver a agroecologia. Tanto para suprir a nossa necessidade, dos companheiros e companheiras do MST, quanto para quem reside na cidade. A gente sabe com essa crise, vai depender muito de nós, do campo, pra produzir alimentos saudáveis”, garante Maicon Vett, morador do acampamento há 6 anos.

Boa Ventura de São Roque
O acampamento Claudete Vive também criou a Horta Comunitária Antônio Tavares. Com 65 famílias e dois anos de existência, comunidade já conseguiu fazer uma doação de 1,5 tonelada de alimentos a famílias urbanas que já passam por dificuldades por conta da pandemia. “Hoje eu me sinto uma pessoa fortalecida, que encontrou uma oportunidade, hoje eu me sinto uma pessoa realizada, mesmo acampado”, disse o camponês Rivail Domingues. O depoimento do agricultor é a prova de que a luta do companheiro Antônio Tavares valeu a pena, e que o sonho da terra repartida e da vida digna segue alimentando o coração do povo Sem Terra.

Planaltina do Paraná
“A nossa ordem é ninguém passar fome, e o nosso progresso é fartura na mesa de cada brasileiro e saúde pra população em geral”. É o que garantiu a companheira Vilma Rossi, do assentamento Milton Santos. Lá, todas as famílias também avançaram na produção coletiva de alimentos saudáveis para doação neste período da pandemia. As atividades ocorreram pela manhã, com uma oficina de produção de adubo orgânico e com capina, poda e manejo agroflorestal da área já cultivada pela comunidade.

Maringá
A Escola Milton Santos de Agroecologia realizou atividade de batizado do espaço de produção com o nome Horta Antônio Tavares. Na atividade aconteceu uma mística, onde foi relembrado o cruel massacre promovido pelo governo do Jaime Lerner, no ano de 2000, contra as famílias Sem Terra na rodovia BR-277, relatado por pessoas que vivenciaram aquele dia.

Fonte: MST

Escreva um comentário

Rua XV de novembro, 270, sala 510, Centro, Curitiba-PR, CEP 80020-310, Fone (41)-33229885, Fax (41)-33245636, fetec@fetecpr.org.br