A combinação de transformações tecnológicas e globalização está provocando mudanças fundamentais em relação a quem faz o quê; onde; quando; e como trabalha. Isso traz implicações profundas para a natureza dos trabalhos, para as pessoas que os executam e, em conseqüência, para a natureza das cidades.

De um lado, o trabalho que antes era geograficamente amarrado a um lugar específico tornou-se errante numa extensão historicamente sem precedentes; de outro, tem havido vasta migração de gente através do planeta em busca tanto de emprego quanto de segurança pessoal. Há portanto um duplo desenraizamento – um movimento de trabalho em direção a pessoas; e um movimento de pessoas em busca de trabalho. A combinação dessas mudanças violentas tem modificado as características das cidades tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento.

Nesse processo, também se transformam as identidades e as estruturas sociais. A maioria das explicações clássicas de estratificação social dá especial importância à identidade ocupacional. A base da construção da identidade social tem sido a ocupação – normalmente uma identidade estável adquirida aos poucos seja por herança, seja através de um processo de treinamento que visa fornecer ao estudante ou aprendiz uma habilitação para toda a vida. Uma vez iniciada numa ocupação e a praticando, a pessoa habilitada adquire uma posição reconhecida na divisão social do trabalho, o que lhe dá, por toda a vida, um lugar na sociedade, a qual passa a protegê-la de algumas calamidades tais como doença, desemprego ou falência – riscos contra os quais os “Estados de Bem Estar” da maioria dos países europeus providenciam algum tipo de seguro social.

Essas identidades ocupacionais contribuíram para dar à maioria das cidades uma forma conhecida e familiar a seus habitantes: bairros que abrigam determinadas indústrias; reconhecidas instituições de mercado de trabalho; bairros residenciais; e infra-estruturas físicas e sociais que reforçam esses padrões. Estruturas sociais e convivência se desenvolvem na geografia física da cidade – espaços masculinos e femininos; guetos, onde se concentram imigrantes recentes e áreas onde prepondera a população local; espaços barulhentos onde se reúne a moçada e bairros tranqüilos onde mora a população mais idosa. Esses padrões se formam por gênero e raça e se estruturam por relações de poder entre os diferentes grupos sociais. Isso diz respeito a “quem mora onde”, “quem trabalha onde” ou “quem viaja para onde”, e também de que modo cada área é vista- por exemplo, quais áreas são reconhecidas, e por quem, como “limpas”, “seguras” e “amistosas”.

O movimento sem precedentes de gente e de empregos ao redor do mundo tem coincidido com a quebra de muitas identidades ocupacionais. Habilidades específicas ligadas ao uso de determinadas ferramentas ou maquinaria têm mais e mais dado lugar a habilidades mais genéricas e rapidamente mutantes ligadas ao uso da tecnologia da informação e da comunicação (para o trabalho relativo ao processamento de informação) ou às tecnologias de economia do trabalho manual, por exemplo, na construção, manufatura, embalagem ou limpeza. Ademais, em muitos países, essa desintegração das atividades ocupacionais tem coincidido com o colapso das formas representativas dos trabalhadores, tais como os sindicatos que, no passado, bem ou mal, serviam para dar alguma forma coerente de visibilidade social a essas identidades.

Fomos deixados num cenário de mudanças escorregadias e pouco definidas, nas quais empregos são criados (e desaparecem) em grande velocidade, muitas vezes sem sequer uma designação concreta – simplesmente numa mistura aleatória de “habilidades”, “aptidões”e “competências”.

Sem identidades coerentes e estáveis como alicerces da análise social, como podemos começar a mapear as mudanças que estão acontecendo hoje em nossas cidades? Uma possibilidade seria começar pelo desenraizamento espacial dos trabalhadores. Aqui uma possível tipologia seria categorizar os trabalhadores como fixos, errantes e uma categoria intermediária de trabalhadores que combinam aspectos de fixos e errantes, à qual poderíamos designar como trabalhadores “fragmentados”.

Por URSULA HUWS, que é associada ao Instituto de Estudos sobre o Emprego e professora visitante do Instituto Internacional de Estudos do Trabalho da London Metropolitan University.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.correiocidadania.com.br.

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