Diante do escândalo envolvendo a editora Abril, há uma lição a tirar: é preciso redobrar o cuidado na avaliação do noticiário político. Daqui para a frente, cada vírgula do que será dito pesará nos pratos da balança eleitoral de 2008 — que abre as portas para 2010.

Bem-vindos, prezados eleitores, à campanha eleitoral de 2008, na qual o que parece não é, e o que é hoje pode deixar de ser amanhã. Como lidar com isso, neste momento em que as eleições do ano que vem começam a entrar na agenda de preocupações do país? Da mesma maneira como se lida com um porco-espinho: com extremo cuidado. Diante da salada de falsas questões, idéias sem nexo e fatos incompreensíveis que é servida diariamente no noticiário político, o que se tem, na maior parte do tempo, é desinformação.

A saída é só dar crédito a alguma coisa depois que ela venha a ser comprovada pela realidade. Caso contrário, corre-se o risco de tomar por essencial o que pode ser apenas transitório e levar a sério fenômenos que, no fim das contas, só acabarão sendo lembrados pelos 15 minutos de fama que tiveram na sempre desonesta cobertura das mídia. No caso do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), a primeira coisa a ser comprovada será sua capacidade, pessoal e política, de não ceder às chantagens que pairam sobre si, o tempo todo, como uma nuvem carregada sempre pronta a despejar tempestade.

Ataque inescrupuloso ao senador

É possível que Calheiros consiga livrar-se dela, ou que seus acusadores acabem deixando o episódio no esquecimento. Tudo é possível, no longo prazo. No presente, o que se pode dizer é que as acusações não atraem muita simpatia; nem estão convendo muita gente. O entendimento predominante parece que vem sendo o seguinte: se ele deve alguma coisa, que pague à Justiça — não à grande imprensa. O que vai ficando evidente é que o ataque inescrupuloso ao senador é o tipo da coisa que tem tudo para dar em nada nessa pescaria em que procuradores de escândalos vêm jogando muito anzol e pegando pouco peixe. Principalmente depois do contragolpe de Calheiros desferido na editora Abril, escancarando suas tramóias.

Para se defender, a empresa se justificou por meio da mal-afamada revista Veja, tentando encobrir a sua trapaça atribuindo a outros as suas práticas. Num festival de acusações desesperadas, a torpe publicação dos Civita diz que por trás de tudo está José Dirceu, que “tem interesses bem mais sólidos para embaraçar a associação entre a Abril e a Telefônica”. “Seu patrocinador atual é o bilionário mexicano Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, que trava uma guerra comercial com o grupo espanhol”, afirma Veja sem explicar suas manobras.

Uso de adjetivos de baixo calão

É possível até que alguém monte mais algum processo contra Dirceu e que em nome da “liberdade de imprensa” os violadores da liberdade de imprensa se juntem a fim de vazar para o público mais detalhes sobre as falsidades e mentiras divulgadas pela Veja. Em se tratando dessa gente, tudo é possível — menos a verdade. Na “reportagem” desta semana, por exemplo, além de uma risível nota em que a revista tenta imprimir seriedade ao negócio o que se vê é um exagerado uso de adjetivos de baixo calão para desqualificar o senador e os apoiadores da CPI.

É evidente que não podemos incorrer no mesmo erro deles, de acusar sem provas. Trata-se, com certeza, de uma das piores pragas que envenenam os atuais usos e costumes do ambiente político brasileiro. Acusações, suspeitas e indícios são divulgados pela “grande imprensa” como se fossem provas de culpabilidade — e a pessoa envolvida se vê condenada antes que consiga abrir a boca para dizer uma única palavra em sua defesa. Mas argumentar que o caso da Abril tem alguma malignidade concebida só para ela, e só por Calheiros, é algo que parece vir embrulhado em espetacular hipocrisia.

Oportunistas de diferentes matizes

Seria ótimo se esta CPI tivesse força política para avançar nas investigações e chegar ao esquema montado pelo ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), Luiz Carlos Mendonça de Barros, por André Lara Resende, então presidente do BNDES, e pelo banqueiro Daniel Dantas, um dos pivôs do esquema de caixa dois apelidado de mensalão, que envolveu cerca de 24 bilhões de reais, para a privatização do sistema Telebrás. Seria mais ótimo ainda se este processo pudesse evoluir a ponto de passar o Brasil a limpo realmente — de alto a baixo, de forma justa, ética, democrática e séria. Mas no jogo político do Brasil de hoje, infelizmente a torpeza é uma moeda corrente.

O problema é que o país já está em campanha eleitoral, a Abril tem o seu programa de governo e, diante da necessidade real de tomar uma atitude, achou que o melhor a fazer era apresentar-se como vítima de um ato vil de Calheiros. É possível que a Abril mobilize mundos e fundos — principalmente fundos — para impedir que a CPI vá adiante nas investigações. Trânsfugas da esquerda — se é que gente como o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) algum dia pôde ser classificada como de esquerda —, oportunistas de diferentes matizes e chacais enraivecidos serão acionados para este fim. Nessa selva, nunca se sabe onde está o inocente útil e onde está o vilão oportunista. Será um jogo pesado.

Muita estabilidade emocional

Um representante da Abril disse que a empresa vai explicar todo o negócio com a Telefônica até o último centavo — mas na prática até agora não esclareceu nem o primeiro. Mesmo que não esclareça nada, o que importa é que na vida real a campanha de 2008 mostrará, daqui para a frente, até que ponto o eleitorado vai acreditar nas mentiras da “grande imprensa”. A questão central permanece aberta. A Abril, como se sabe, está coberta de razão quando deixa entendido que o campo governista quer derrotar as candidaturas conservadoras. A disputa será uma guerra — afinal, 2008 abrirá as portas para 2010, quando termina o mandato do presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Será preciso muita estabilidade emocional para enfrentar o que vem por aí. Se neste primeiro dissabor uma das principais cidadelas da direita já deixou antever sua baixa tolerância às contrariedades, dá para imaginar como o campo conservador reagirá diante da realidade hostil ao seu projeto de governo daqui para frente. Vamos enfrentar um incêndio por dia. Eles ignorarão o povo, com o qual não consegue dialogar, e o próprio bom senso para impor o seu coquetel anti-Lula. A tática é deixar o eleitor sem entender patavina.

Protagonista não está no palco

O certo é que as cortinas começaram a descer. A peça — que pode também ser mais um espetáculo circense —, que toma conta do país, ainda não definiu o gênero teatral ao qual pertence. Pode ser uma comédia. Pode ser uma farsa. Pode ser também uma tragédia. Nas comédias, como se sabe, o protagonista atua como o néscio de quem todos riem. Nas farsas, o protagonista é enganado. E nas tragédias o protagonista caminha consciente e célere em direção à própria ruína.

Qualquer um dos gêneros, no palco, é belo. O detalhe inquietante é que no drama atual o protagonista não está no palco. Ele está na platéia — é o público eleitor. Em outras palavras, somos eu e você, amigo e amiga, que estaremos sob o holofote. Não dá um friozinho na barriga? Então, cabe agora, já, aos cidadãos honestos e conscientes deste país entrar em cena e começar por exigir que a Abril responda a cada uma das questões que seu encontro com a realidade começou a levantar. Para isso, a esquerda e o campo popular precisam fazer bem mais do que vêm fazendo.

Por Osvaldo Bertolino, que é jornalista.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.vermelho.org.br.

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