Por Francisco Alexandre e Jacy Afonso

Desde a Idade Antiga, quando o domínio do comércio se dava por meio de Cidades-Estados como Veneza, Gênova e Florença, a consolidação das grandes companhias se dá pelo crescimento orgânico, conquistando, a cada ano, mais e mais mercados, ou por meio de aquisições. O domínio de países como Portugal e Espanha, no século XV também não foi diferente. Eles dominaram o mundo por mais dois séculos e para isso criaram estrutura para dominar os mares no campo militar e as sociedades no campo comercial, a exemplo da Companhia das Índias Ocidentais controlada por Portugal.

A disputa pelo comércio seguiu-se. Passando pequeno tempo sob controle holandês, depois pelos ingleses, que o dominaram até o início do século XX, chegando ao poderio econômico norte-americano a partir dos anos 1920 – posição consolidada no final dos anos 1940, no fim da Segunda Guerra. Passado o período do caos e da depressão pós-guerra, a Europa e o Japão iniciam novo período de disputas pelos mercados mundo afora.

O Japão, que até 1945 jamais perdera uma guerra, renasce das cinzas e o que parecia impossível torna-se realidade: no final dos anos 1970, aparece como segunda maior economia do mundo, mesmo tendo o tamanho territorial apenas um pouco maior que o Estado de Pernambuco. Na Europa continental não foi diferente. Países como Alemanha, França e Itália, que saíram arrasados da guerra, reconstroem-se. O mesmo aconteceu com a Inglaterra na parte insular.

Foram esses países que, acrescidos do Canadá, formaram o grupo seleto dos sete grandes e disputaram entre si cada metro do domínio no mundo dos negócios até meados dos anos 1990, quando começa a aparecer mais um ator com vontade de rediscutir a partilha do comércio global, a China.

O Brasil, que pouco teve a ver com guerras, experimentou o apogeu de crescimento entre os anos de 1930 e 1970, com crescimento a taxas superiores às do resto do mundo (comparadas à China de hoje), mas tendo como base a exportação de produtos primários, as chamadas “commodities”. Após esse período, experimentamos as chamadas décadas perdidas, pois enquanto o mundo dava novo salto nas relações de troca, da tecnologia e ampliação da democracia, nosso país estava mergulhado numa ditadura, sofríamos com hiperinflação, descontrole de contas públicas e falta de estratégia dos governos que pouco fizeram para mudar o curso da crise.

Somente ao final dos anos 1990, o Brasil começa a sair do longo período de inflações elevadas, o que permitiu a empresas importantes o início da consolidação e disputa por nichos de mercado, destacando-se entre elas a Vale do Rio Doce, Embraer e Petrobrás.

O final dos anos 1990 é marcado pelo grande número de privatizações, iniciadas com a venda da própria Vale e da Embraer; depois foi o setor de telecomunicações e ferrovias. Os bancos estaduais não tiveram alternativas e, aos governos endividados, restaram a decisão de liquidar praticamente todos os seus bancos.

Mas qual a relação entre as cidades-estados, consolidação das economias de grandes centros ao longo de séculos, comportamento da economia brasileira e privatizações no Brasil? A resposta é clara: o fato de que em todos os momentos, listados acima, aparece um elemento central: a busca pela consolidação de posição daqueles que disputaram o mercado.

Nas privatizações do Brasil, a disputa se deu entre capitalistas locais e de outras partes do mundo, o que fica claro ao observarmos como foram distribuídas as fatias das empresas vendidas: a Vale ficou com consórcio nacional; a telefonia foi dividida entre concorrentes do Brasil, Itália, Portugal, Espanha e Canadá. Os bancos foram disputados a ferro e fogo entre empresários locais, que ficaram com uma parte, enquanto a outra foi para os ingleses, holandeses, espanhóis e portugueses.

Nesse período, houve consolidação no mercado, o que é decorrência da forma de agir das grandes empresas, onde quem não consolida suas posições está condenado a desaparecer ou buscar outros mercados. Nesses casos estão a TIW (telefonia canadense), Excel (banco espanhol), e CGD (banco português), entre outros que deixaram o Brasil depois de breve experiência no mercado brasileiro.

O histórico nos remete a uma questão de fundo: o comportamento dos bancos estatais frente à consolidação de seus concorrentes no mercado nacional. E olhando o mercado nacional veremos que, dos bancos estaduais, sobraram apenas a Nossa Caixa em São Paulo, o Banrisul no Rio Grande do Sul, o BRB em Brasília e o Banestes no Espírito Santo. Além dos federalizados Besc (de Santa Catarina), Banco do Estado do Pará e Banco do Estado do Piauí. Os demais foram todos arrematados pelos bancos privados que atuam no mercado nacional. Enquanto isso, o Banco do Brasil e a Caixa, bancos federais e maiores do país, mantiveram-se como se nada acontecesse no mercado, sem estratégia de ação frente à reestruturação do Sistema Financeiro Nacional.

Fruto da ausência de estratégia, o Banco do Brasil e a Caixa assistiram ao crescimento de concorrentes como Bradesco, Itaú e ABN-Amro – fruto da política agressiva de aquisições de bancos estaduais e pequenos concorrentes privados.

Recentemente, acompanhamos a discussão sobre a possibilidade de o BB adquirir o controle do Besc, Banco do Estado de Santa Catarina. O que deveria ser apenas uma operação de mercado, com tratamento discreto e divulgação tão somente ao final das tratativas negociais – é assim que se dão as aquisições no mercado -, tornou-se um debate público, envolvendo até o Presidente da República. Debate que interessa tão somente àqueles que querem a todo custo dominar sozinhos o mercado nacional, no caso os três maiores grupos privados.

No mundo atual, é fácil observar como se dão a concorrência e a manutenção das grandes empresas. Para ficar somente no mundo financeiro, trazemos exemplos como Barclays, maior banco inglês, que recentemente anunciou a intenção de comprar o ABN-Amro; do Itaú, que adquiriu as operações do BankBoston no Brasil, e do Bradesco, que se expande para outros países na América do Sul.

Enquanto isso, os bancos públicos federais no Brasil nada fazem para manter suas posições ou disputar o mercado nacional. Tampouco abriram espaços fora do país. Passaram os anos de reestruturação do Sistema Financeiro Nacional, como se dele não fizessem parte, ignorando que a movimentação dos grandes conglomerados não deveria ser objeto de avaliação por parte de quem disputa passo a passo os nichos de mercado.

O Banco do Brasil, principal empresa de crédito do governo, viu anos a fio a diminuição de sua importância no Sistema – fruto de políticas deliberadas de governo de cada momento. Em 1986, houve a primeira mudança substancial no papel e forma de o banco atuar. Naquele momento, a contrapartida para que o banco atuasse em pé de igualdade com os demais não foi concedida, ficando o banco até final dos anos 1980 impedido de atuar como conglomerado.

A Poupança Rural, criada em 1986, para financiar o setor agrícola trouxe o problema da equalização de taxas do Plano Verão, que impôs perdas significativas ao BB. Podendo ter sido isso o principal gerador da crise do banco de 1995, quando a empresa acumulou prejuízos de mais de R$ 11 bilhões entre aquele ano e 1997. Avaliava-se que a responsabilidade do governo pela equalização de taxas era de mais de R$ 13 bilhões. Em 1997, o governo capitalizou o banco em R$ 8 bilhões, para resolver a crise da empresa, que representou apenas parte do pagamento do que remontava sua dívida.

O Banco foi autorizado a operar como conglomerado apenas em parte, pois as empresas que criou para atuar em outros segmentos de mercado somente se deram por meio de sociedade com outros empresários, em negócios nos quais o banco tem 49% das ações e eles os outros 51%. O banco, por sua vez, entra com todas suas agências, pessoal, infra-estrutura e conhecimento dos mercados. É assim com a Brasilcap, BBveículos e BBseguros.

Para negócios como financiamentos imobiliários e financeira até hoje não há autorização para o banco entrar. O caso das subsidiárias e a ausência de autorização para atuar em todos os segmentos do mercado demonstram a falta de estratégia de seguidos governos e diretorias do BB em relação ao futuro da empresa.

Os bancos públicos têm papel fundamental, se bem pensados, pois podem ser agentes de governo, moderadores de taxa de juros e alavancas de desenvolvimento em todo o país. Além de se manterem com a força que sempre tiveram, o que só será possível se entenderem que na disputa global atual apenas com crescimento que vá além do crescimento orgânico será possível continuar como líder do mercado. O caminho para continuar sendo o líder do sistema financeiro passa pela possibilidade de se crescer a partir de incorporações e fusões, temas que ainda parecem tabu entre os executivos dessas instituições.

Essa seria uma agenda importante para a diretoria atual do Banco do Brasil pensar, em vez de voltar sua energia para processo de reestruturação interna que leva o banco novamente para um caminho que, em vez de fazê-lo crescer, pode colocar a todos numa política onde o que se buscava era a redução de tudo a todo custo. Processos de redução de pessoal ou troca simples de postos de trabalho, como foi feito recentemente, não contribuem para a formação de uma base de sustentação às políticas de crescimento do Banco.

O Banco do Brasil deveria buscar, nesse momento em que os mercados encontram-se todos aquecidos, as janelas de novos nichos de mercado, de novos negócios e de como manter a empresa como o maior conglomerado financeiro do país.


Francisco Alexandre é diretor de Administração da Previ e Jacy Afonso é diretor da CUT e ex-presidente do Sindicato dos Bancários de Brasília

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