Cortes de verba, projetos extintos, fechamento de centros culturais da Caixa Econômica Federal em diversos cantos do Brasil, inclusive no Rio de Janeiro e agora em Curitiba. É inegável: a gestão Pedro Guimarães tem sido nociva para o banco 100% público e para a garantia dos direitos dos empregados, a pretexto de reduzir despesas com aluguéis e outras rubricas. Esse retrocesso administrativo, tal como ocorreu com a desocupação da histórica unidade carioca Almirante Barroso – popularmente denominada “Barrosão”, volta a repetir-se na capital do Paraná, com o fim das atividades no Edifício-Sede II, onde funcionava o complexo Caixa Cultural, referência na execução de programas artísticos, oficinas de formação, atividades educativas e culturais para crianças, adolescentes, jovens e adultos.

O anúncio da desocupação do prédio da Conselheiro Laurindo, no centro de Curitiba, causou impacto negativo entre os empregados da Caixa, mas também no âmbito da opinião pública da cidade. No local, além de unidades de áreas-meio distribuídas em 10 andares, funcionava ainda um pequeno teatro e uma galeria de artes, partes do complexo Caixa Cultural Curitiba, situado no chamado Corredor Cultural da cidade e próximo a dois dos principais pontos históricos e culturais: o prédio da Universidade Federal do Paraná e o Teatro Guaíra. A região, que abriga diversos hotéis, restaurantes, cafés e o mais antigo parque da capital paranaense – o Passeio Público, sempre foi palco de eventos de música, dança, teatro e cinema.

Desde que surgiu há mais ou menos três décadas, o Edifício-Sede II sempre fez parte da história social, econômica e cultural do Paraná. Foi sede do ex-BNH (Banco Nacional de Habitação), incorporado pela Caixa em 1986, e servia de espaço na difusão e no acesso à cultura em prol da população, vez que ofertava uma programação livre, diversa e gratuita abrangendo as mais variadas manifestações artísticas-culturais.

Para a aposentada Maria de Fátima Costamilan, coordenadora da ONG Moradia e Cidadania no Paraná, a Caixa Cultural Curitiba seguia a função social do banco público no fomento à cultura, à arte, à educação e à geração de trabalho e renda, buscando oferecer cursos, oficinas, exposições de artes visuais e fotografia, espetáculos de dança, teatro, shows e roteiros de visitas guiadas e monitoradas com estudantes de escolas públicas, além de possibilitar um precioso espaço de diálogo e intercâmbio cultural. Costamilan, antes de aposentar-se em 2018, atuou na Caixa Cultural Curitiba entre os anos de 1993 e 1998.

“É um grande retrocesso fechar todo esse complexo de propagação cultural. Estive no Sede II em 29 de dezembro de 2020 e o que encontrei foi desolador: um ambiente esvaziado e sem nenhum indício de uma Caixa Cultural. Apesar da mídia ter anunciado uma programação de retorno pós-pandemia, entre o fim de dezembro de 2020 e o início de janeiro de 2021, não há nada no local além de vigilantes que guardam a porta de entrada da galeria com luzes apagadas. No hall estão expostas máquinas antigas que serviram de equipamentos de trabalho nos primórdios do banco e um cofre de valor histórico, ambas fazendo parte do acervo da Sala de Memória, já desativada”, resume a empregada aposentada. A visita, depois de alertada por uma colega, foi para recolher os livros da Biblioteca Solidária, montada em 2019 para os prestadores de serviços, como resultado de uma campanha de doações colhidas entre os empregados lotados nas unidades do Sede II, algumas já extintas como a Superintendência Curitiba Leste.

A coordenadora da ONG Moradia e Cidadania do Paraná pergunta-se a respeito do destino que terá o painel “O Construtor” do muralista Poty Lazzarotto (1924-1998), um dos maiores artistas plásticos do Brasil. Essa obra, localizada no hall do Edifício-Sede II, foi inaugurada em 1978 e registra uma representação do trabalhador da construção civil e seus instrumentos de trabalho. Ela lamenta que a opção da administração da Caixa seja pelo desmonte de uma estrutura que só traz benefícios para a população e caracteriza esse procedimento de gestão como “política desumana e desrespeitosa para com os trabalhadores do banco e sociedade civil”.

É curioso como a desocupação do Edifício-Sede II, traduzida no fechamento da Caixa Cultural Curitiba, simboliza a maneira como partes importantes da Caixa pública e social vêm sendo destruídas pela gestão Pedro Guimarães. O provável é que o prédio da Conselheiro Laurindo seja entregue para a iniciativa privada, passando a parte administrativa que funcionava no local para o Edifício-Sede I, mas não a cultural, que ficará completamente abandonada. O pessoal das áreas-meio que trabalhava no prédio, agora desativado, será realocado para outros setores ou unidades. “É sintomática a política de terra arrasada”, denuncia Antônio Luiz Fermino, presidente do Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região, além de empregado da Caixa. Segundo ele, como no Sede I não tem espaço para a montagem de uma estrutura com teatro e galeria de artes, existindo apenas um auditório propício para reuniões, a Caixa Cultural Curitiba será definitivamente fechada, representando o desmonte pelo ataque a algumas simbologias sociais do banco.

Abandono da cultura

Em Curitiba, cidade que é referência em urbanização e qualidade de vida, o complexo Caixa Cultural exercia um papel relevante na democratização do acesso à cultura e na efetivação dos direitos culturais. Portanto, a paralisação desse importante equipamento cultural vai de encontro ao disposto no artigo 215 da Constituição Federal, que atribui ao Estado o dever de garantir a todos os cidadãos o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional, apoiando e incentivando a valorização e a difusão das manifestações culturais brasileiras.

Na luta em defesa da Caixa 100% pública e contra a retirada de direitos dos empregados, a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae) manifesta-se contrária a qualquer medida que ponha em risco a efetivação dos direitos culturais, reafirmando a importância dos espaços culturais mantidos pelo banco em diversas regiões do país e prezando pela continuidade das atividades desses conjuntos culturais, cabendo ao Estado fortalecê-los, mantê-los e garantir que sigam cumprindo o papel social e cultural em favor da população brasileira. A Fenae avalia que a cultura, mais do que uma manifestação de pessoas talentosas, é um importante vetor de desenvolvimento econômico e social.

“Nenhum direito a menos e pela manutenção da Caixa 100% pública, social e forte são reivindicações históricas e essenciais para o movimento nacional dos empregados da Caixa”, declara Sergio Takemoto, presidente da Fenae. Ele esclarece que, tal como o Barrosão no Rio de Janeiro e outros equipamentos culturais espalhados por São Paulo, Brasília, Recife, Salvador e Fortaleza, a Caixa Cultural Curitiba inspira e possui a capacidade de ajudar o processo de resistência contra o desmonte do banco e por melhores condições de trabalho.

Cidade de Curitiba perde

Praticamente desativados tão logo a pandemia estourou, o Teatro da Caixa e demais espaços da Caixa Cultural Curitiba serão fechados. A sede do banco da rua Conselheiro Laurindo será vendida, com transferência de toda a administração para outro local. Com isso, a cidade irá perder um de seus espaços culturais mais tradicionais. Na capital do Paraná, a Caixa Cultural atuava como um grande financiador da arte.

A Caixa Cultural foi criada para promover a cultura brasileira. Está em sete capitais: Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Recife, Salvador e Fortaleza, com programação diversificada e plural, gratuita ou a preços acessíveis. A importância desses espaços está registrada em números: apenas em 2018, os complexos Caixa Cultural receberam mais de 1,4 milhões de visitantes.

Caixa não se posiciona

Oficialmente, mesmo com contato telefônico e na busca para ouvir o outro lado, a assessoria da Caixa em Brasília não confirma a informação sobre o fechamento da unidade Caixa Cultural Curitiba. Não há registro de posicionamento da direção do banco em relação a esse tema. Portanto, apesar do contato estabelecido por telefone, até agora a Caixa não se manifestou.

Fonte: Fenae

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