Instituições financeiras cobram da população altas taxas de juros e tarifas de serviço mas investem em campanhas publicitárias para fortalecer uso de aplicativos que dispensam atendimento presencial.

O banco Santander é uma das cinco instituições financeiras que atuam no Brasil com os maiores lucros, que crescem ainda mais na crise e nesse período pós-golpe de 2016, em que aumenta também o desemprego e a miséria no país. Somente as instituições privadas Santander, Itaú e Bradesco, lucraram juntas R$ 14,3 bilhões no 1º trimestre de 2018.

Ocorre que o Santander é um banco espanhol que possui sedes espalhadas pelo mundo, como é o caso do Brasil, e esse fator permite comparações de sua margem de lucro nas diversas regiões. Somente nos três primeiros meses de 2018, por exemplo, o Santander Brasil foi o responsável por 27% do lucro mundial do banco, se mantendo como a mais lucrativa, conforme já ocorreu no fechamento do balanço de 2017.

Um dos fatores mensuráveis sobre esse desempenho é o fato do banco cobrar 20 vezes mais dos clientes brasileiros nas taxas de empréstimos bancários. Na opinião de Everaldo Gornaski Ribeiro, bancário em Guarapuava e representante dos trabalhadores do banco da regional Pactu, na Comissão de Organização dos Empregados (COE) Santander Paraná, é porque o próprio sistema financeiro brasileiro também permite essa prática, através, principalmente, do spread alto, que tem como consequência essa prática abusiva do banco com juros, tarifas e taxas.

“O Santander mantém essa prática desde que chegou ao Brasil, sem responsabilidade com a sociedade e com o desenvolvimento econômico do país”, explica o dirigente sindical. “Com a justificativa do Banco Central regular o sistema financeiro para que as instituições financeiras não voltem a ‘falir’, permite a prática abusiva das instituições financeiras, criando um certo monopólio dos bancos. Não há uma política de Governo e do Banco Central que obrigue uma contrapartida da responsabilidade social dos bancos estrangeiros e principalmente do Banco Santander, que redireciona seus lucros, que poderiam ser investidos no Brasil, para a matriz espanhola”.

De acordo com o mais recente levantamento divulgado pelo Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (Dieese), referente aos três primeiros meses de 2018, o lucro líquido do Santander nesse período foi de R$ 2,8 bilhões, crescimento de 25,4% em relação ao mesmo período de 2017. O impulsionamento das operações de crédito, que tiveram aumento de 21% para pessoas físicas no período de 12 meses, foi movido por empréstimos consignados (39%) e cartão de crédito (20%), principalmente, gerando arrecadação de R$  113,7 bilhões para o banco no período. Da mesma forma, o banco teve arrecadação de R$ 4,1 bilhões com prestação de serviços e cobrança de tarifas bancárias, representando alta de 11,5% em um ano.

“É necessário que sociedade brasileira também se manifeste contrária aos abusos do banco espanhol,  para que o Santander reduza suas taxas, tarifas e juros, tendo o banco a sua responsabilidade social com o a economia do Brasil, seus clientes e funcionários”, convoca Everaldo, indicando que uma das formas de se manifestar é denunciar irregularidades.

Nesse primeiro trimestre de 2018, o Santander aparece como o segundo conglomerado financeiro no ranking de reclamações do Banco Central, com índice de 25%, considerando o número de reclamações registradas pela ouvidoria do BC no período, no comparativo com o número de clientes da instituição. As reclamações consideradas procedentes, que podem ser consultadas aqui, incluem irregularidades nas operações de cartão de crédito, no internet banking, informações e ofertas inadequadas de produtos e serviços, débitos não autorizados e cobrança irregular de tarifas, justamente os serviços bancários que engordam o lucro da sede brasileira do Santander.

São esses os serviços também que não dependem necessariamente de atendimento presencial, os que o banco dedica sua publicidade para atrair novos clientes ou ainda a população que já é correntista, com cartazes que estimulam o acesso aos serviços bancários via aplicativo de celular, por exemplo.

Ainda que tenha como viés de atuação o internet banking, o Santander Brasil, pela outra via, também precariza as condições de trabalho dos funcionários, em diversas tentativas de implementar os termos da reforma trabalhista com a convenção coletiva dos bancários ainda em vigência. “A continuidade do desrespeito do banco Santander se concretiza com a desvalorização de seus funcionários, sobrecarga de trabalho e demissões. A diferenciação entre as matrizes do banco no mundo continua também no tratamento dado aos funcionários brasileiros. A matriz do Banco na Espanha reconhece o Comitê Europeu de trabalhadores do Banco Santander, mas não faz o mesmo com a rede de trabalhadores nas Américas e nem concebe a formação de uma rede mundial dos trabalhadores, que reivindica a assinatura de um Acordo Marco Global, onde se estabeleceriam padrões de igualdade de tratamento a todos os trabalhadores da empresa no mundo”, explica o dirigente.

Pior banco para trabalhar

Em pesquisa produzida pela movimento sindical no Paraná, os bancários identificaram o Santander como o banco em que mais se pratica assédio moral, em que 32,4% dos trabalhadores confirmaram já terem sido vítimas, é também o local de trabalho em que mais bancários confirmaram o uso de remédio controlado (26,6%), e o banco em que é mais alto o índice de ameaça de punição ou demissão pelo não cumprimento de metas elevadas (37,77%), no comparativo com os bancos Itaú, Bradesco, Caixa e BB. Acesse aqui os dados da pesquisa.

Saiba mais: Direção do Santander impõe ainda mais cobrança e punição

Spreads bancários

Os spreads bancários são a diferença entre o que os bancos pagam ao captarem recursos e o o valor que cobram por um negócio, os juros da concessão de empréstimo para a população. Na última terça-feira, 05 de junho, uma audiência pública realizada no Senado debateu o tema, mas sob a ótica da regulação pelo Banco Central e na Comissão de Assuntos Econômicos, com atuação a favor da criação de um cadastro positivo, colocando nas costas do consumidor final a responsabilização pela alta dos spreads, reduzindo o problema à inadimplência e sem considerar práticas abusivas do mercado.

O movimento sindical bancário é contra o projeto de lei que torna obrigatória a participação de todos os consumidores no cadastro positivo (PLP 441/17, do Senado). Com a obrigatoriedade proposta pelo projeto, os gestores de bancos de dados terão acesso a todas as informações sobre empréstimos quitados e obrigações de pagamento que estão em dia. E é essa a defesa no contexto da audiência pública realizada, que não teve a participação de trabalhadores. Com a alteração, todos os consumidores brasileiros que possuem CPF passam a fazer parte automaticamente do cadastro, um banco de dados operado pelo SPC Brasil, com informações sobre o histórico de pagamentos realizados pelos consumidores.

Saiba mais: Santander cobra 1.791% mais

 

Por Paula Zarth Padilha
FETEC-CUT-PR

1 Comentário

  1. Marisa Stedile Reply

    Excelente matéria, reflete sobre a ausência total de regulamentação do sistema financeiro, sem contar que o Santander abocanhou a “jóia da coroa” dos bancos estaduais que era o BANESPA.

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