Pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) mostra que trabalhadores organizados em associações de classe são melhor remunerados do que os sem representatividade. Disparidade salarial entre eles chega a 58%
Mariana Ramos
Da equipe do Correio
A organização dos trabalhadores não serve só para conseguir benefícios e melhorar as condições de trabalho. O salário é diretamente afetado pela briga entre patrões e sindicatos. Uma pesquisa do professor de Economia da Universidade de Brasília Jorge Arbache mostra que as categorias com sindicatos expressivos e atuantes ganham 58% a mais que do os que não têm representatividade. O grau de escolaridade também é maior entre os que fazem parte de sindicatos. A pesquisa confirma o que os economistas especializados na área de trabalho já sabiam: se não houver mobilização, os empresários não concederão nada além do que está na lei. E aumento salarial não está previsto em nenhum código brasileiro.
Para Jorge Arbache, o Brasil propicia as disparidades salariais por ter uma economia com muitas imperfeições. ‘‘Por isso os sindicatos são importantes’’, afirma. ‘‘A força de barganha dos sindicatos é fundamental para explicar as diferenças salariais entre as categorias’’, acredita Arbache. Mas ele lembra que não é só por causa da organização que os profissionais recebem salários maiores. ‘‘A força dos sindicatos depende muito da estrutura de outras instituições da economia, por isso varia muito de um país para outro’’, analisa.
O Brasil favorece o fortalecimento dos sindicatos em alguns setores. Para o sociólogo José Pastore, da Universidade de São Paulo, um dos fatores que leva os trabalhadores brasileiros organizados a conseguir melhores salários é que eles estão agrupados em setores dinâmicos e poderosos como o automobilístico, o petroquímico, agroexportador e outros. ‘‘Não é apenas a força dos sindicatos. Mas esses setores, que historicamente sempre se organizaram, têm como oferecer salários melhores’’, afirma.
Quem atua em áreas que movimentam menos dinheiro como pequenas confecções e colheita de produtos agrícolas tem dificuldade de se organizar. Segundo a pesquisa de Arbache, as categorias que pertencem a sindicatos são as mais bem instruídas. A média de anos de estudo entre os que são filiados a entidades é de 8,6 anos contra 6,6 anos entre os não organizados. ‘‘Isso comprova o que nós já suspeitávamos: quem se organiza tem condições melhores de trabalho’’, analisa Pastore.
Terceirização
Outro fenômeno que dificulta a organização em classes é a terceirização, que ganhou força no país na última década. ‘‘A maioria dos terceirizados acaba recebendo menos que os profissionais contratados diretamente pelas empresas. Além disso, a companhia onde prestam serviços não tem obrigações trabalhistas e isso dificulta as conquistas’’, explica a economista da Fundação Getúlio Vargas, Virene Matesco.
A economista da FGV afirma que os trabalhadores brasileiros estão distribuídos em três classes. A maior que é a dos informais, que não têm direito algum garantido. Eles raramente se organizam em
sindicatos e, se isso acontece, são entidades pouco expressivas.
A segunda é a dos trabalhadores com carteira assinada que não têm sindicatos ou a representatividade deles é nula. ‘‘Eles acabam sem amparo algum. Se achar ruim, o patrão demite e contrata outro com salário mais baixo’’, explica Virene.
A terceira é a dos trabalhadores registrados organizados e com grande capacidade de mobilização da massa. ‘‘Mas são categorias que têm muitas pessoas e que estão dispostas a se arriscar para conseguir o que querem’’, diz. ‘‘No mundo do trabalho, as coisas têm que ser conquistadas no grito.’’
O abismo entre o público e o privado
Professor substituto da Universidade de Brasília: R$ 379,42. Juiz substituto do Tribunal de Justiça do Distrito Federal: R$ 10.905,81. Os dois salários são para quem tem diploma de nível superior e passar nos concursos que ocorrerão este ano. Ainda assim, a diferença salarial entre as duas funções é de quase 30 vezes. O problema da remuneração entre as carreiras acontece tanto no setor público quanto no privado, mas as razões são muito diferentes.
O economista da UnB Jorge Saba Arbache explica que, no setor público, como não há concorrência, os salários são determinados pelo poder de barganha da categoria, a importância para o governo e pelo número de servidores em atuação. ‘‘Quanto maior o número de profissionais, mais impacto terá um reajuste para os cofres públicos’’, afirma. ‘‘Por exemplo, quando os médicos do Estado ganham aumento de 10%, isso sai muito mais caro do que dar o mesmo aumento para auditores fiscais, que são menos numerosos’’.
Para a gerente da empresa paulista Bumeran, de recursos humanos, Cristina Spera, quem procura emprego no setor público não está interessado apenas no salário.‘‘A maioria não está em busca de crescimento profissional. A ascensão no setor público é muito lenta ou inexistente. Essas pessoas geralmente buscam estabilidade.’’, analisa.
Paixão
A professora substituta do Departamento de Letras e Tradução da UnB Alessandra Matias Querido, 27 anos, é uma exceção. Apaixonada pela profissão, ela ganha cerca de R$ 600 para trabalhar 20 horas por semana. ‘‘Isso porque faço parte dos professores que têm contrato antigo. Os novos vão ganhar metade do que ganho’’, reclama.
Mesmo com o salário baixo, Alessandra não pensa em deixar a universidade.‘‘Sempre fui deslumbrada com a UnB. As pesquisas acontecem na academia que é onde surgem novas correntes de pensamento’’, diz. Nas instituições particulares, os salários são maiores. Um professor com mestrado que trabalhe o mesmo número de horas que Alessandra ganha cerca de R$ 2 mil.
No setor privado, as disparidades salariais também dependem do porte das empresas. Uma companhia maior e com melhor reputação geralmente paga mais e oferece mais benefícios. ‘‘Mas quanto maior a concorrência, mais achatados os salários tendem a ficar’’, explica o economista Arbache. Segundo ele, quanto mais imperfeita for a economia do país, maior a diferença salarial entre os profissionais. (M.R.)
Fonte Correio Braziliense
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Por Mhais• 12 de maio de 2003• 17:17• Sem categoria
A FORÇA DO SINDICATO
Pesquisa da Universidade de Brasília (UnB) mostra que trabalhadores organizados em associações de classe são melhor remunerados do que os sem representatividade. Disparidade salarial entre eles chega a 58%
Mariana Ramos
Da equipe do Correio
A organização dos trabalhadores não serve só para conseguir benefícios e melhorar as condições de trabalho. O salário é diretamente afetado pela briga entre patrões e sindicatos. Uma pesquisa do professor de Economia da Universidade de Brasília Jorge Arbache mostra que as categorias com sindicatos expressivos e atuantes ganham 58% a mais que do os que não têm representatividade. O grau de escolaridade também é maior entre os que fazem parte de sindicatos. A pesquisa confirma o que os economistas especializados na área de trabalho já sabiam: se não houver mobilização, os empresários não concederão nada além do que está na lei. E aumento salarial não está previsto em nenhum código brasileiro.
Para Jorge Arbache, o Brasil propicia as disparidades salariais por ter uma economia com muitas imperfeições. ‘‘Por isso os sindicatos são importantes’’, afirma. ‘‘A força de barganha dos sindicatos é fundamental para explicar as diferenças salariais entre as categorias’’, acredita Arbache. Mas ele lembra que não é só por causa da organização que os profissionais recebem salários maiores. ‘‘A força dos sindicatos depende muito da estrutura de outras instituições da economia, por isso varia muito de um país para outro’’, analisa.
O Brasil favorece o fortalecimento dos sindicatos em alguns setores. Para o sociólogo José Pastore, da Universidade de São Paulo, um dos fatores que leva os trabalhadores brasileiros organizados a conseguir melhores salários é que eles estão agrupados em setores dinâmicos e poderosos como o automobilístico, o petroquímico, agroexportador e outros. ‘‘Não é apenas a força dos sindicatos. Mas esses setores, que historicamente sempre se organizaram, têm como oferecer salários melhores’’, afirma.
Quem atua em áreas que movimentam menos dinheiro como pequenas confecções e colheita de produtos agrícolas tem dificuldade de se organizar. Segundo a pesquisa de Arbache, as categorias que pertencem a sindicatos são as mais bem instruídas. A média de anos de estudo entre os que são filiados a entidades é de 8,6 anos contra 6,6 anos entre os não organizados. ‘‘Isso comprova o que nós já suspeitávamos: quem se organiza tem condições melhores de trabalho’’, analisa Pastore.
Terceirização
Outro fenômeno que dificulta a organização em classes é a terceirização, que ganhou força no país na última década. ‘‘A maioria dos terceirizados acaba recebendo menos que os profissionais contratados diretamente pelas empresas. Além disso, a companhia onde prestam serviços não tem obrigações trabalhistas e isso dificulta as conquistas’’, explica a economista da Fundação Getúlio Vargas, Virene Matesco.
A economista da FGV afirma que os trabalhadores brasileiros estão distribuídos em três classes. A maior que é a dos informais, que não têm direito algum garantido. Eles raramente se organizam em
sindicatos e, se isso acontece, são entidades pouco expressivas.
A segunda é a dos trabalhadores com carteira assinada que não têm sindicatos ou a representatividade deles é nula. ‘‘Eles acabam sem amparo algum. Se achar ruim, o patrão demite e contrata outro com salário mais baixo’’, explica Virene.
A terceira é a dos trabalhadores registrados organizados e com grande capacidade de mobilização da massa. ‘‘Mas são categorias que têm muitas pessoas e que estão dispostas a se arriscar para conseguir o que querem’’, diz. ‘‘No mundo do trabalho, as coisas têm que ser conquistadas no grito.’’
O abismo entre o público e o privado
Professor substituto da Universidade de Brasília: R$ 379,42. Juiz substituto do Tribunal de Justiça do Distrito Federal: R$ 10.905,81. Os dois salários são para quem tem diploma de nível superior e passar nos concursos que ocorrerão este ano. Ainda assim, a diferença salarial entre as duas funções é de quase 30 vezes. O problema da remuneração entre as carreiras acontece tanto no setor público quanto no privado, mas as razões são muito diferentes.
O economista da UnB Jorge Saba Arbache explica que, no setor público, como não há concorrência, os salários são determinados pelo poder de barganha da categoria, a importância para o governo e pelo número de servidores em atuação. ‘‘Quanto maior o número de profissionais, mais impacto terá um reajuste para os cofres públicos’’, afirma. ‘‘Por exemplo, quando os médicos do Estado ganham aumento de 10%, isso sai muito mais caro do que dar o mesmo aumento para auditores fiscais, que são menos numerosos’’.
Para a gerente da empresa paulista Bumeran, de recursos humanos, Cristina Spera, quem procura emprego no setor público não está interessado apenas no salário.‘‘A maioria não está em busca de crescimento profissional. A ascensão no setor público é muito lenta ou inexistente. Essas pessoas geralmente buscam estabilidade.’’, analisa.
Paixão
A professora substituta do Departamento de Letras e Tradução da UnB Alessandra Matias Querido, 27 anos, é uma exceção. Apaixonada pela profissão, ela ganha cerca de R$ 600 para trabalhar 20 horas por semana. ‘‘Isso porque faço parte dos professores que têm contrato antigo. Os novos vão ganhar metade do que ganho’’, reclama.
Mesmo com o salário baixo, Alessandra não pensa em deixar a universidade.‘‘Sempre fui deslumbrada com a UnB. As pesquisas acontecem na academia que é onde surgem novas correntes de pensamento’’, diz. Nas instituições particulares, os salários são maiores. Um professor com mestrado que trabalhe o mesmo número de horas que Alessandra ganha cerca de R$ 2 mil.
No setor privado, as disparidades salariais também dependem do porte das empresas. Uma companhia maior e com melhor reputação geralmente paga mais e oferece mais benefícios. ‘‘Mas quanto maior a concorrência, mais achatados os salários tendem a ficar’’, explica o economista Arbache. Segundo ele, quanto mais imperfeita for a economia do país, maior a diferença salarial entre os profissionais. (M.R.)
Fonte Correio Braziliense
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