Sobra de R$ 49 bilhões no caixa das instituições, com o desinteresse de clientes em pagar juros altos, é a principal razão do governo para não liberar mais dinheiro para o mercado
Para Alberto Mathias, os argumentos do governo para não mexer no compulsório são aceitáveis
As pressões do sistema financeiro são grandes. Mas dificilmente o Banco Central reduzirá os depósitos compulsórios depositados na instituição, na reunião da semana que vem do Comitê de Política Monetária (Copom), que selará novo corte na taxa básica de juros (Selic). O assunto voltou a ganhar relevância nos últimos dias, diante da gritaria do setor produtivo de que está faltando crédito na praça e que os juros estão absurdamente altos, por causa dos elevados compulsórios. Estima-se que cerca de R$ 116 bilhões estejam recolhidos aos cofres do BC.
Os argumentos da equipe econômica para manter os compulsórios inalterados são claros. O mais forte deles é que está sobrando dinheiro no caixa dos bancos para ser emprestado, apesar desses recolhimentos. O que falta é tomador de crédito. Pelas regras da Basiléia, que regem o sistema financeiro mundial, os bancos devem ter, no mínimo, um patrimônio equivalente a 11% de sua carteira de crédito. Toda vez que o patrimônio supera esse percentual, significa que há folga para emprestar. Pois bem. Pelas contas do BC, na média, o patrimônio dos bancos que operam no Brasil corresponde a 17,47% dos créditos. Ou seja, há uma sobra de 6,47% nessa equivalência, significando R$ 49 bilhões, já que o patrimônio mínimo exigido é de R$ 84 bilhões e o sistema opera com R$ 133 bilhões.
Segundo o BC, a maior folga está com os bancos nacionais privados. O patrimônio médio dessas instituições corresponde a 17,65% das carteiras de crédito. No caso dos bancos estrangeiros, a relação está em 17,56%. Entre os bancos públicos, alcança 16,02%. Somente o Banco do Brasil e a Caixa têm cerca de R$ 30 bilhões acima dos limites mínimos do acordo da Basiléia para emprestar. Mas, como as demais instituições financeiras, preferem manter o dinheiro aplicado em títulos públicos, cujo rendimento é alto e sem risco.
Lucro fácil
Diante desses números, um integrante da equipe econômica reconhece que não será a liberação dos compulsórios que impulsionará, pelo menos neste momento, as operações de crédito e a economia. A seu ver, o melhor que o Copom tem a fazer na semana que vem é reduzir a taxa básica de juros, que está em 26% ao ano. Com juros menores, o BC poderá avaliar melhor se os bancos realmente estão dispostos a financiar o investimento na produção e no consumo, ou se as instituições continuarão dando preferência aos empréstimos ao governo.
O técnico da equipe econômica argumenta ainda que, com o dinheiro dos compulsórios, o BC financia boa parcela da dívida pública a um custo próximo de zero. Caso esse dinheiro voltasse imediatamente ao sistema, por meio da liberação dos compulsórios, os bancos usariam os recursos para comprar mais títulos do governo. Ou seja, o BC passaria a pagar juros de 25% ou 26% ao ano para os bancos sobre o que hoje custa quase zero. ‘‘É a mais pura verdade. Na atual conjuntura, a diminuição dos compulsórios é o melhor dos mundos para os bancos’’, reforça o economista Eduardo Velho, do Instituto Superior de Estudos e Gestão (Iseg).
Na opinião do professor Carlos Thadeu de Freitas Gomes, do Ibmec Business School, os compulsórios não podem ser usados como instrumento de política fiscal, com o financiamento da dívida pública a baixo custo. ‘‘É preciso vê-los como um custo adicional para os juros pagos pelos tomadores finais, empresas e pessoas físicas’’, afirma. ‘‘Se o BC liberar parte dos compulsórios e, ao mesmo tempo, diminuir a Selic, o spread (ganho) bancário diminuirá, com efeitos benéficos sobre a economia’’, destaca. Segundo o BC, o spread atual é o maior desde junho de 2000.
Para o economista Alberto Borges Mathias, presidente da ABM Consulting e professor da Universidade de São Paulo, os argumentos da equipe econômica para não mexer no compulsório são aceitáveis. ‘‘Agora, não há dúvidas de que, mais à frente, a redução dos compulsórios será importante para que o país amplie o volume de crédito’’, diz. Enquanto, no Brasil, o total de créditos representa apenas 23% do Produto Interno Bruto (PIB), a média mundial é de 90%. Procurada pelo Correio Braziliense, a Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban) não se pronunciou sobre o assunto.
Fonte Correio Braziliense
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