O economista Aloísio Teixeira, eleitor declarado do PT, assumiu no início do mês a reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) criticando a política econômica do governo Lula. “Entender que há uma transição, eu acho importante, meu problema não é esse. E sim quando você começa a montar equipes para área econômica que imaginam que isso que acho que é uma transição seja o definitivo”, alfineta Teixeira, um dos signatário da chamada Agenda Interditada, um abaixo-assinado de economista insatisfeitos com a condução da política econômica.
Teixeira está, porém, otimista, e conta com novos recursos para recuperação da UFRJ. Ele admite que queria muito ser reitor. Em 1998, disputou eleição e foi o mais votado. Mas acabou preterido na escolha pelo então ministro da Educação, Paulo Renato. O menos votado da lista tríplice foi escolhido: “Eu conhecia o ministro há muitos anos. Dois ou três dias antes da decisão, ele me chamou a Porto Alegre. Passamos o dia inteiro juntos. Falamos cinco minutos sobre universidade. Dois dias depois, não me nomeou. É inteiramente incompreensível essa história. Foi uma decisão muito difícil para a universidade porque o reitor nomeado não tinha legitimidade. Saímos desse período no ano passado com a eleição do professor (Carlos ) Lessa, que foi assim uma votação consagradora”, relata. Ele diz que a escolha de Lessa foi feita na estratégia de se buscar um nome irrecusável pelo governo FHC. “Com a saída do Lessa para o BNDES e com outro governo, decidi me candidatar de novo”, relata. A seguir os principais trechos da entrevista ao Valor, concedida na sede da reitoria, na Urca:
Valor: O professor Lessa, ao assumir a UFRJ, pintou um quadro muito difícil na universidade, mas disse que teria apoio financeiro do governo FHC. Isso aconteceu?
Aloísio Teixeira: Em parte. Ele acertou com (o então) ministro Paulo Renato um plano emergencial preparado pela universidade. O montante demandado era R$ 14 milhões. Desse total foram aprovados R$ 10 milhões e liberados R$ 4 milhões. Tenho expectativa de (receber) os R$ 6 milhões restantes. Mas há possibilidade de serem liberados mais R$ 3 milhões desse plano emergencial. Além disso, conversando com o ministro Cristovam (Buarque, da Educação), ele revelou interesse que se faça outro plano emergencial. Tenho grande otimismo face a essa situação. Provavelmente a universidade terá nos próximos meses um volume de recursos para investimentos que não tem há muito tempo.
Valor: O sr vai buscar recursos na iniciativa privada?
Teixeira: A função da universidade não é captar dinheiro. A função da universidade é produzir o ensino, a pesquisa de qualidade. Mesmo nos EUA, o financiamento público das universidades privadas chega a mais de 80%. Não pode haver desenvolvimento do sistema universitário sem que o poder público se envolva pesadamente. O que o Estado tem de definir é se isso é prioridade ou não. Eu acho que é. Acho que a gente não terá um projeto nacional, não terá desenvolvimento científico e tecnológico, não terá um sistema de ensino fundamental de qualidade se a universidade não for boa.
Valor: Mas há planos de uso dos terrenos da universidade…
Teixeira: A UFRJ tem um patrimônio imobiliário imenso. A Ilha do Fundão é maior do que (os bairros) Ipanema e Leblon juntos. E é uma área sub-utilizada com problemas de segurança, mas estrategicamente localizada. Agora que esporte é um grande negócio, um grupo privado fez um estudo e chegou à conclusão que é a melhor localização para um novo estádio de futebol. Já houve manifestação de interesse privado para construir um hotel de apoio ao aeroporto Tom Jobim (ex-Galeão) e um centro de convenções.
Valor: E essa discussão sobre universidade pública? Há uma proposta de cobrar Imposto de Renda extra sobre o salário de ex-alunos?
Teixeira: Acho que essa idéia tem problemas. Uma pessoa que se forma e vai trabalhar 35 anos. Se for pagar um adicional de 3% no IR, ao final terá pago mais pela universidade pública gratuita do que se tivesse feito uma universidade privada. Não faz muito sentido. Em segundo lugar, é de difícil controle. Você teria que abrir um campo no formulário do IR, a pessoa declarar que fez universidade pública e aí você cobraria o adicional. Haveria uma sonegação imensa.
Valor: Qual sua posição com relação a cotas para negros?
Teixeira: Não sou especialista, mas sou contra. Não resolve o problema. Eu seria mais favorável a alguma coisa como cotas sociais. A universidade pública é de elite, que oferece um número reduzido de vagas a cada ano. Estabelecer uma cota confirma uma cultura da competição. O negro que vai fazer vestibular para disputar a vaga da cota vai disputar com outro negro.
Valor: O que seriam as cotas sociais?
Teixeira: Seriam cotas para estudantes carentes, negros, brancos, pardos, índios, o que for. Melhor do que isso é acabar com o vestibular. Enquanto houver vestibular teremos uma universidade de elite. Por exemplo, 40% das vagas passam a ser para estudantes das escolas públicas, que serão avaliados ao longo do seu curso.
Valor: O senhor está otimista com o governo Lula?
Teixeira: Estou otimista com o povo brasileiro.
Valor: Na sua posse, o sr. criticou a política econômica…
Teixeira: Acho que houve uma revolução neste país com a eleição do Lula. É uma revolução cultural. Quem está na política há tantos anos como eu vê que o povo não votava no povo. No dia que o povo vota no povo muda o quadro político, independentemente dos erros ou acertos, a política econômica ser boa ou ruim, a base política se modificou. É bom que o governo acerte porque se não acertar corre-se o risco de perder uma coisa que é inteiramente nova em nossa história. Quem se elege neste país? O povo ao votar nas elite manifesta uma desconfiança em si mesmo e nos processo políticos nos quais resultam os governantes. Votar no Lula tem um significado novo.
Valor: A sua trajetória é de esquerda. A esquerda está no poder ou foram necessárias alianças que fizeram o PT perder sua proposta?
Teixeira: O problema não são as alianças. Eu não sou do PT, apesar que desde do segundo turno da eleição de 89 eu tenha votado sistematicamente no PT. Na confusão política brasileira as coisas parecem que são o que não são, mas o PT é o verdadeiro partido da social democracia brasileira. Não o PSDB, que é um partido liberal, democrático, importante, com um papel a desempenhar no cenário político mas não é um partido social democrático. Quem tem uma proposta reformista, um braço sindical, a marca congênita da social democracia no mundo inteiro, é o PT. No governo, acho que o PT vai ser levado cada vez mais a se definir como um partido verdadeiramente social democrático. A social democracia no mundo inteiro nos anos 80, 90 fez políticas próximas às dos neo-liberais . Agora, essa relativa confusão não é um privilégio do PT. Se você tiver um olhar diferente sobre o PT, talvez não tenha tanta má vontade se a política econômica não é exatamente aquela que a gente quer, se os juros estão altos, se estão fazendo a reforma da previdência que o Fernando Henrique gostaria de ter feito. Faz parte da vida política. Eu, que me considero tendo uma trajetória de esquerda, valorizo a presença do PT no governo, acho que foi um avanço imenso da democracia brasileira, mas acho que tem que continuar lutar.
Valor: Mas o sr. não acha que a população tinha outra expectativa com relação à política econômica…
Teixeira: Será? Eu não sei o que é a população. Acho que um setor importante da esquerda, inclusive dentro do PT, tinha essa expectativa e se fundava na posição pública que os economistas do PT assumiram anteriormente. É diferente da questão da presidência. A gente olha o programa do PT, eles estão fazendo o que está no programa. Eles não estão fazendo uma coisa diferente em matéria de política social do que prometeram. A gente não lê os programas. Já política econômica, não. Eu até entendo que esse ano seria difícil. Esse governo não tem sequer orçamento e deveria se defrontar com demandas muito fortes de alguns segmentos sociais, principalmente funcionários públicos e os sem-terra. A expectativa da população como um todo é que a vida melhore…
Valor: Mas está atenta à taxa de juros..
Teixeira: Estamos nós, a classe média… Mas acho que essa política econômica é errada. Entendo que é preciso haver um período de transição. Se eu estivesse no movimento dos servidores públicos, lutaria dizendo que não queremos aumento de salário, mas um plano no qual a partir de 2004 as perdas dos últimos oito anos sejam repostas. Lutaria por melhores condições de trabalho, reformatação das carreiras público e eventualmente, que a aposentadoria se mantenha ou pelo menos não seja objeto da violência que está sendo feita. Entender que há uma transição acho importante, mas meu problema não é esse. O problema é quando você começa a montar equipe econômica que imagina que isso que acho que é uma transição seja o definitivo.
Valor: O sr. acha que esse é o perfil da equipe econômica?
Teixeira: É um pessoal que acha que o ajuste fiscal é permanente, que a taxa de juros tem que ficar alta mesmo. Acredita que se o governo gastar menos vai sobrar mais para o setor privado e que se formos bem comportados vai haver investimento internacional.
Valor: O senhor acha que esse é o perfil da equipe econômica?
Teixeira: É um pessoal que acha que o ajuste fiscal é permanente, que a taxa de juros tem que ficar alta mesmo. Acredita que se o governo gastar menos vai sobrar mais para o setor privado e que se formos bem comportados vai haver investimento internacional. São fábulas, mitos com os quais a gente convive há duas décadas e não levaram a lugar nenhum.
Heloisa Magalhães e Rodrigo Carro, Do Rio
Fonte: Valor Econômico
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