Há receio entre economistas e empresários de que a recuperação econômica a partir do último trimestre desse ano e a valorização do real afetem o superávit comercial de 2004. Assim o saldo que deve superar US$ 18 bilhões esse ano seria revertido com facilidade. No entanto, estudo da Tendências Consultoria Integrada, elaborado por Edward Amadeo e Julio Callegari, destaca que é sustentável acreditar que o país registre em 2004 um superávit comercial de US$ 16 bilhões, com expansão do PIB em 2,5%.
Com isso, o ajuste externo permitiria suportar o primeiro ano de recuperação da economia doméstica. Isso daria alívio ao governo, que poderia contar com um ano a mais para gerar as condições de crescimento sem inflação e um menor déficit externo.
No trabalho, os economistas destacam quatro fatores que sustentariam um superávit de US$ 16 bilhões em 2004. Primeiro, as economias dos países da América Latina, tradicionais compradores de bens manufaturados do Brasil, devem se recuperar.
A demanda externa por manufaturados sofreria alta de 15% em 2004, sendo que esse ano ela deve ficar próxima de 10%. E aí viria uma boa notícia: esses produtos são fabricados por setores que convivem hoje com grande ociosidade em suas unidades (como o automobilístico, cujo uso de capacidade instalada atualmente está em 60%). Portanto, seria possível elevar embarques sem que sejam feitos investimentos em ampliação produtiva.
No primeiro semestre, os embarques de manufaturados para a região registaram crescimento de 20%, chegando aos US$ 4,7 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento. Uma das razões é a melhora da economia argentina, que vem comprando mais máquinas.
O segundo motivo da sustentabilidade de um superávit de US$ 16 bilhões em 2004 seria o vigor das exportações agrícolas, que podem gerar um superávit de US$ 24 bilhões esse ano. Além do crescimento da safra, que deve ser 30 superior à de 2002, a produção de soja vai manter seu ritmo. De 2000 a 2003, o complexo soja incrementou US$ 5 bilhões às exportações.
Além disso, mesmo com um aquecimento econômico maior no próximo ano, um fator deve segurar as importações: a absorção doméstica (agregado de consumo, gastos do governo e investimento) está em queda há oito trimestres consecutivos. “Em 2003, ela deve ficar 1% abaixo do verificado em 2000, o que mostra o grau de retração frente ao ajuste externo”, analisa o estudo.
Em 2004, o nível de absorção interna deve ter um crescimento próximo a 2%. Com isso, mesmo que as importações cresçam 12%, o nível das compras externas em 2004 não deve ser muito superior aos US$ 56 bilhões atingidos em 2000, quando a economia brasileira cresceu 4%.
Finalmente, os autores, cruzando vários indicadores e dados, afirmam que se pode chegar à conclusão de que, embora o real esteja desvalorizado em relação ao segundo semestre de 2002, o patamar atual de câmbio real (próximo a R$ 2,95 por dólar) está perto do verificado nos momentos de maior flutuação, como em 1999. Utilizando o IPCA como deflator, o IGP e a inflação nos EUA, conclui que a taxa de câmbio estaria 50% desvalorizada em relação ao patamar verificado antes do Plano Real.
Esse cenário daria certo alívio ao governo, que ganharia um ano para tentar dar as condições de sustentabilidade tanto no campo interno quanto no externo. Para esse ano, o governo estima que as exportações saltem de US$ 60 bilhões, valor do ano passado, para US$ 68 bilhões.
Roberto Rockmann, De São Paulo
Fonte: Valor Econômico
Notícias recentes
- Preterido por Bolsonaro, Tarcísio se cala sobre candidatura de Flávio à presidência
- Ministra das Mulheres pede endurecimento das leis em meio à alta dos feminicídios
- Neste domingo, Curitiba foi às ruas contra o feminicídio e a violência
- Prazo para solicitar a devolução da contribuição termina dia 10 de dezembro
- Flávio Dino marca julgamento dos réus pelo assassinato de Marielle Franco
Comentários
Por Mhais• 29 de julho de 2003• 09:27• Sem categoria
SUPERÁVIT DE US$ 16 BI É SUSTENTÁVEL, SE PIB CRESCER 2,5%, APONTA ESTUDO
Há receio entre economistas e empresários de que a recuperação econômica a partir do último trimestre desse ano e a valorização do real afetem o superávit comercial de 2004. Assim o saldo que deve superar US$ 18 bilhões esse ano seria revertido com facilidade. No entanto, estudo da Tendências Consultoria Integrada, elaborado por Edward Amadeo e Julio Callegari, destaca que é sustentável acreditar que o país registre em 2004 um superávit comercial de US$ 16 bilhões, com expansão do PIB em 2,5%.
Com isso, o ajuste externo permitiria suportar o primeiro ano de recuperação da economia doméstica. Isso daria alívio ao governo, que poderia contar com um ano a mais para gerar as condições de crescimento sem inflação e um menor déficit externo.
No trabalho, os economistas destacam quatro fatores que sustentariam um superávit de US$ 16 bilhões em 2004. Primeiro, as economias dos países da América Latina, tradicionais compradores de bens manufaturados do Brasil, devem se recuperar.
A demanda externa por manufaturados sofreria alta de 15% em 2004, sendo que esse ano ela deve ficar próxima de 10%. E aí viria uma boa notícia: esses produtos são fabricados por setores que convivem hoje com grande ociosidade em suas unidades (como o automobilístico, cujo uso de capacidade instalada atualmente está em 60%). Portanto, seria possível elevar embarques sem que sejam feitos investimentos em ampliação produtiva.
No primeiro semestre, os embarques de manufaturados para a região registaram crescimento de 20%, chegando aos US$ 4,7 bilhões, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento. Uma das razões é a melhora da economia argentina, que vem comprando mais máquinas.
O segundo motivo da sustentabilidade de um superávit de US$ 16 bilhões em 2004 seria o vigor das exportações agrícolas, que podem gerar um superávit de US$ 24 bilhões esse ano. Além do crescimento da safra, que deve ser 30 superior à de 2002, a produção de soja vai manter seu ritmo. De 2000 a 2003, o complexo soja incrementou US$ 5 bilhões às exportações.
Além disso, mesmo com um aquecimento econômico maior no próximo ano, um fator deve segurar as importações: a absorção doméstica (agregado de consumo, gastos do governo e investimento) está em queda há oito trimestres consecutivos. “Em 2003, ela deve ficar 1% abaixo do verificado em 2000, o que mostra o grau de retração frente ao ajuste externo”, analisa o estudo.
Em 2004, o nível de absorção interna deve ter um crescimento próximo a 2%. Com isso, mesmo que as importações cresçam 12%, o nível das compras externas em 2004 não deve ser muito superior aos US$ 56 bilhões atingidos em 2000, quando a economia brasileira cresceu 4%.
Finalmente, os autores, cruzando vários indicadores e dados, afirmam que se pode chegar à conclusão de que, embora o real esteja desvalorizado em relação ao segundo semestre de 2002, o patamar atual de câmbio real (próximo a R$ 2,95 por dólar) está perto do verificado nos momentos de maior flutuação, como em 1999. Utilizando o IPCA como deflator, o IGP e a inflação nos EUA, conclui que a taxa de câmbio estaria 50% desvalorizada em relação ao patamar verificado antes do Plano Real.
Esse cenário daria certo alívio ao governo, que ganharia um ano para tentar dar as condições de sustentabilidade tanto no campo interno quanto no externo. Para esse ano, o governo estima que as exportações saltem de US$ 60 bilhões, valor do ano passado, para US$ 68 bilhões.
Roberto Rockmann, De São Paulo
Fonte: Valor Econômico
Deixe um comentário