Brasília, 6/8/2003 (Agência Brasil – ABr) – A falta de compromisso social é um dos principais problemas das instituições de ensino superior do país. Necessidade de mais investimento, qualificação dos professores e autonomia financeira também prejudicam a atuação e o crescimento destas instituições. A avaliação é do secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação, Carlos Roberto Antunes. O conhecimento produzido nas universidades brasileiras, segundo ele, precisa estar mais voltado para a realidade social do país. “As cores da universidade devem ser as cores da sociedade”, diz Antunes.
Esse é o principal eixo do projeto Universidade XXI, do ministro da Educação, Cristovam Buarque. O ministro alerta que o atual afastamento social das universidades pode fazer com que essas instituições percam o seu lugar central na produção do conhecimento científico e tecnológico. “O saber universitário está cercado. Fica atrasado, perde sintonia em relação ao conhecimento e às exigências da realidade social, fora dos seus muros”, defende o ministro.
Com o objetivo de definir uma nova concepção da universidade e de seu papel na sociedade, o Ministério da Educação promove o seminário “Universidade: por que e como reformar?”, entre quarta e quinta, 6 e 7 de agosto. A discussão não ficará restrita à comunidade acadêmica. Representantes de movimentos e entidades sociais foram convidados a participar e apresentar suas propostas. Devem estar presentes o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entre outros.
“A nossa universidade mantém uma estrutura que já tem 30 anos. A última reforma universitária aconteceu no início dos anos 70, num momento em que o nível de desenvolvimento científico e tecnológico era outro”, explica o secretário de Ensino Superior.
Para o antropólogo da Universidade de Brasília (UnB), José Jorge de Carvalho, a falta de diversidade no ensino superior empobrece o debate acadêmico. “Uma grande parte do conhecimento produzido neste momento está bastante esclerosada, porque a universidade está muito homogênea social e etnicamente. Isso leva também a uma certa perda da imaginação, ao enrijecimento de posições de poder e a pouco questionamento teórico das redes já estabelecidas”, avalia Carvalho.
No último Exame Nacional de Cursos (Provão), cerca de 43% dos alunos declararam renda familiar acima de R$ 2 mil. Destes, 14,3% possuem renda familiar entre R$ 4 mil e R$ 10 mil. Apenas 13,9% dos que fizeram a prova têm renda familiar abaixo de R$ 600. Apenas 3,1% se declararam negros.
Para reverter esse quadro, Antunes acredita ser necessário aumentar a oferta de cursos noturnos, ampliar o ensino à distância e incentivar as universidades a estabelecer políticas de cotas para negros e pessoas de baixa renda. Os programas de bolsas e de financiamento estudantil também serão reforçados para garantir a continuidade dos estudos desses alunos.
De 1991 a 2001, o número de instituições universitárias no Brasil aumentou em 56%, segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep-MEC). Apesar da ampliação, mais de três milhões de alunos ainda não conseguem entrar numa faculdade.
O problema principal não é a falta de vagas. No ano passado, sobraram em todo o sistema 370 mil vagas. “Os cursos ministrados nas universidades brasileiras, em geral, são inadequados, por termos uma população jovem muito heterogênea e com uma escolaridade anterior precária”, explica a antropóloga Eunice Durham, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino Superior da Universidade de São Paulo (USP).
Ex-secretária de Ensino Superior no governo FHC, Eunice acredita que a oferta de tipos diferentes de cursos superiores pode ser uma alternativa para suprir a crescente demanda de uma grande parcela da população, que precisa se inserir rapidamente no mercado de trabalho. “Nenhum país que busca a democratização do ensino superior faz isso, exclusivamente, com universidades que associem ensino, pesquisa e extensão”, argumenta.
A antropóloga acredita que a política adotada, até hoje, tem errado ao concentrar grande parte das atenções e dos investimentos nas instituições que desenvolvem simultaneamente pesquisa, ensino e extensão. Na sua avaliação, uma das causas dessa prioridade foi a excessiva valorização dada pelo meio acadêmico a esses estabelecimentos.
“Com o alto custo das universidades de pesquisa, você não atende ao conjunto da população. Você começa a ter estabelecimentos gigantescos, extremamente burocratizados, sem nenhuma flexibilidade em termos de mudança e alteração curricular”, critica Eunice.
De acordo com ela, muitos cursos, como administração e informática, não exigem que toda instituição tenha também uma estrutura de pesquisa para oferecer ensino de qualidade. Para ela, o que esses cursos necessitam é de pessoal atualizado e com experiência de mercado.
Mas, para que isso aconteça, as diversas instituições devem criar uma rede de educação superior de forma que as novidades e avanços conseguidos nos centros de pesquisa sejam repassados para aquelas voltadas apenas para o ensino. Segundo Eunice, é o que ocorre nos Estados Unidos, onde o número de universidades que fazem pesquisa é pequeno em relação ao total de instituições de nível superior. “Quase metade dos alunos americanos estão em ‘colleges’ e não em universidades”, enfatiza a professora.
Serviço
O seminário “Universidade: por que e como reformar?” será realizado, nos dias 6 e 7 de agosto, no Clube do Exército, no Setor de Clubes Esportivos Sul, Trecho 2, Conjunto 23. As inscrições podem ser feitas no site do MEC (www.mec.gov.br).
Cecília Jorge
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Por Mhais• 6 de agosto de 2003• 13:54• Sem categoria
MEC QUER NOVA UNIVERSIDADE BRASILEIRA COM “AS CORES DA SOCIEDADE”
Brasília, 6/8/2003 (Agência Brasil – ABr) – A falta de compromisso social é um dos principais problemas das instituições de ensino superior do país. Necessidade de mais investimento, qualificação dos professores e autonomia financeira também prejudicam a atuação e o crescimento destas instituições. A avaliação é do secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação, Carlos Roberto Antunes. O conhecimento produzido nas universidades brasileiras, segundo ele, precisa estar mais voltado para a realidade social do país. “As cores da universidade devem ser as cores da sociedade”, diz Antunes.
Esse é o principal eixo do projeto Universidade XXI, do ministro da Educação, Cristovam Buarque. O ministro alerta que o atual afastamento social das universidades pode fazer com que essas instituições percam o seu lugar central na produção do conhecimento científico e tecnológico. “O saber universitário está cercado. Fica atrasado, perde sintonia em relação ao conhecimento e às exigências da realidade social, fora dos seus muros”, defende o ministro.
Com o objetivo de definir uma nova concepção da universidade e de seu papel na sociedade, o Ministério da Educação promove o seminário “Universidade: por que e como reformar?”, entre quarta e quinta, 6 e 7 de agosto. A discussão não ficará restrita à comunidade acadêmica. Representantes de movimentos e entidades sociais foram convidados a participar e apresentar suas propostas. Devem estar presentes o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entre outros.
“A nossa universidade mantém uma estrutura que já tem 30 anos. A última reforma universitária aconteceu no início dos anos 70, num momento em que o nível de desenvolvimento científico e tecnológico era outro”, explica o secretário de Ensino Superior.
Para o antropólogo da Universidade de Brasília (UnB), José Jorge de Carvalho, a falta de diversidade no ensino superior empobrece o debate acadêmico. “Uma grande parte do conhecimento produzido neste momento está bastante esclerosada, porque a universidade está muito homogênea social e etnicamente. Isso leva também a uma certa perda da imaginação, ao enrijecimento de posições de poder e a pouco questionamento teórico das redes já estabelecidas”, avalia Carvalho.
No último Exame Nacional de Cursos (Provão), cerca de 43% dos alunos declararam renda familiar acima de R$ 2 mil. Destes, 14,3% possuem renda familiar entre R$ 4 mil e R$ 10 mil. Apenas 13,9% dos que fizeram a prova têm renda familiar abaixo de R$ 600. Apenas 3,1% se declararam negros.
Para reverter esse quadro, Antunes acredita ser necessário aumentar a oferta de cursos noturnos, ampliar o ensino à distância e incentivar as universidades a estabelecer políticas de cotas para negros e pessoas de baixa renda. Os programas de bolsas e de financiamento estudantil também serão reforçados para garantir a continuidade dos estudos desses alunos.
De 1991 a 2001, o número de instituições universitárias no Brasil aumentou em 56%, segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep-MEC). Apesar da ampliação, mais de três milhões de alunos ainda não conseguem entrar numa faculdade.
O problema principal não é a falta de vagas. No ano passado, sobraram em todo o sistema 370 mil vagas. “Os cursos ministrados nas universidades brasileiras, em geral, são inadequados, por termos uma população jovem muito heterogênea e com uma escolaridade anterior precária”, explica a antropóloga Eunice Durham, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino Superior da Universidade de São Paulo (USP).
Ex-secretária de Ensino Superior no governo FHC, Eunice acredita que a oferta de tipos diferentes de cursos superiores pode ser uma alternativa para suprir a crescente demanda de uma grande parcela da população, que precisa se inserir rapidamente no mercado de trabalho. “Nenhum país que busca a democratização do ensino superior faz isso, exclusivamente, com universidades que associem ensino, pesquisa e extensão”, argumenta.
A antropóloga acredita que a política adotada, até hoje, tem errado ao concentrar grande parte das atenções e dos investimentos nas instituições que desenvolvem simultaneamente pesquisa, ensino e extensão. Na sua avaliação, uma das causas dessa prioridade foi a excessiva valorização dada pelo meio acadêmico a esses estabelecimentos.
“Com o alto custo das universidades de pesquisa, você não atende ao conjunto da população. Você começa a ter estabelecimentos gigantescos, extremamente burocratizados, sem nenhuma flexibilidade em termos de mudança e alteração curricular”, critica Eunice.
De acordo com ela, muitos cursos, como administração e informática, não exigem que toda instituição tenha também uma estrutura de pesquisa para oferecer ensino de qualidade. Para ela, o que esses cursos necessitam é de pessoal atualizado e com experiência de mercado.
Mas, para que isso aconteça, as diversas instituições devem criar uma rede de educação superior de forma que as novidades e avanços conseguidos nos centros de pesquisa sejam repassados para aquelas voltadas apenas para o ensino. Segundo Eunice, é o que ocorre nos Estados Unidos, onde o número de universidades que fazem pesquisa é pequeno em relação ao total de instituições de nível superior. “Quase metade dos alunos americanos estão em ‘colleges’ e não em universidades”, enfatiza a professora.
Serviço
O seminário “Universidade: por que e como reformar?” será realizado, nos dias 6 e 7 de agosto, no Clube do Exército, no Setor de Clubes Esportivos Sul, Trecho 2, Conjunto 23. As inscrições podem ser feitas no site do MEC (www.mec.gov.br).
Cecília Jorge
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