CÍNTIA CARDOSO
ROBERTO DIAS
da Folha de S.Paulo, em Nova York
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem que o governo Lula tem que atuar agora para evitar que o Brasil chegue ao “caos”. “O que o governo pode e deve fazer é, nas situações difíceis como nós vivemos agora, manter o país organizado, evitar que haja um caos, que depois realmente leve anos para recompor o país”, afirmou ele, em entrevista na sede da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York.
Caso consiga superar essa primeira etapa, o governo deveria, então, ainda segundo FHC, “estar preparado para, havendo uma onda positiva, surfar nela”. O ex-presidente esteve na ONU para discursar na abertura de um encontro anual de ONGs. Em entrevista, FHC disse que vê no país mecanismos de interação entre governo e sociedade e que “isso é um fator positivo para evitar que haja uma crise social maior”.
Outro ponto para evitar a crise, afirmou, é o mercado de trabalho. “Depende um tanto da taxa de desemprego. Ela é elevada, mas não chegou aos níveis que países vizinhos nossos têm. Devemos evitar que chegue. Não é fácil, não estou cobrando, sei como é difícil.”
A seguir, porém, quando questionado sobre qual seria a proximidade real do caos, FHC amenizou o tom. “Ainda não vejo sinais de desorganização social que levem ao caos. Não quero isso.”
FHC fez críticas às promessas de eleição. “Nas campanhas promete-se além do que é possível. Os governos, não só o governo Lula, mas o meu também e outros que virão, não têm mais a possibilidade de dizer: “Vou crescer a tanto”, “vou criar tantos milhões de empregos”, porque isso hoje depende da situação internacional, e não só do país. Quando a gente vai para o governo, vê que a realidade é mais dura.”
O ex-presidente comentou as críticas que o governo vem recebendo por supostas nomeações políticas: “Todo sistema político implica que aqueles que ganham vão assumir parte de responsabilidade nas decisões. Agora, na implementação é preciso que haja manutenção das pessoas competentes. Espero que o presidente Lula perceba a importância da manutenção do aparelho do Estado. Não pode deixar agora que o Estado deixe de ter capacidade de ação efetiva.” FHC elogiou a reforma da Previdência, “no que diz respeito ao limite de idade”. Mas disse que as reformas não começaram agora (“Fiz muitas reformas”) e que elas são “condição necessária, mas não suficiente”.
Deixe um comentário