Por Neide Aparecida Fonseca*
Calcadas em bases ideológicas, materiais e culturais, a construção histórica e social acerca dos papeis que homens e mulheres devem exercer tanto nos espaços públicos quanto privados, tem contribuído para ocorrências de inúmeros “acidentes na cozinha”.
Esses “acidentes na cozinha” têm status internacional, uma vez que acontece em todas as partes do mundo, além de não escolher classe econômica, grupo social, raça, idade, religião ou cultura. Desse ponto de vista, se não fosse trágico, poderíamos afirmar que tais “acidentes” possuem um caráter bastante democrático.
É justamente esse “caráter democrático dos acidentes nas várias cozinhas do mundo”, que vem propiciando a visibilidade do que chamamos violência de gênero, demonstrando que as estratégias devem ser pensadas de forma global, unificada, respeitando-se as características de cada país.
Neste sentido entender o conceito de gênero, enquanto elemento constitutivo das relações sociais e de poder, nos auxilia a definir violência de gênero como um comportamento que envolve poder de um sobre o outro, causando danos físicos, psicológicos ou sexuais, àquelas que fazem parte de uma relação.
Embora em uma relação, a violência doméstica pode ocorrer das mulheres sobre os homens, dos homens sobre as mulheres, e entre pessoas do mesmo sexo, conforme Relatório Mundial sobre Violência e Saúde, não restam dúvidas, segundo 48 pesquisas realizadas com populações do mundo inteiro, de que a maior carga da violência de gênero tem sido a dos homens sobre as mulheres, sendo esses homens maridos, companheiros ou outro qualquer pertencente ao núcleo familiar.
A violência de gênero é responsável por um número significativo de mortes por assassinato entre as mulheres. Estudos feitos na África do Sul, Austrália, Canadá, Estados Unidos e Israel, mostram que das mulheres vítimas de assassinato, de 40% à 70% (dependendo do país), foram mortas por seus maridos ou namorados, depois de sofrerem um ou todos os três tipos de abusos constantemente:( abusos físico, psicológico e sexual).
No Brasil, no ano de 2002, a maior rede de televisão: Rede Globo, por várias vezes e em diversos programas, tentou passar a idéia de que crescia o número de homens sofrendo de comportamento abusivo por parte das mulheres, trazendo alguns exemplos, inclusive internacionais.
As pesquisas desmentem isso, quando demonstram que as mulheres, na maior parte das vezes, estão reagindo da maneira que podem, geralmente dos três tipos de abuso acumulados.
O Relatório Mundial sobre Violência e Saúde, da Organização Mundial da Saúde, feito em 2002, coloca a questão da violência como um problema de saúde pública, e sendo assim, deve mobilizar os Estados na busca de soluções.
Por outro lado, as diversas organizações devem somar esforços para que esses Estados criem ou façam alterações e/ou aperfeiçoamento na legislação contra violência sexual e violência por parceiros íntimos; programas de prevenção; programas de atendimento específico para as mulher em estado de violência; aderir e/ou cumprir tratados internacionais sobre violência contra a mulher.
O movimento sindical pode ir além dos movimentos sociais. Pode organizar as trabalhadoras e os trabalhadores em torno deste tema. Afinal nos espaços de trabalho temos mulheres que sofrem violência doméstica, e homens que são os causadores desta mesma violência.
Para tanto devemos direcionar nossa estratégia para dois pontos fundamentais:
a) trabalhar no sentido de mudar conceitos, cultura e valores (mulheres e homens).
Esse ponto merece breve comentário. Embora possamos pensar que somente em sociedades/culturas mais tradicionais surrar a mulher como um direito do homem tenha apoio de ambos os sexos, isso não é verdadeiro. Um breve exemplo do Relatório supra citado, traz que no Brasil, na cidade de Salvador (1999), 11% das mulheres entendiam que se houver suspeita de adultério, os homens tem o direito de usar de violência física contra as mulheres. Em Santiago – Chile, 14% das mulheres apoiam essa idéia.
b) organizar as mulheres, no sentido de fortalece-las para denunciar; contribuindo na recuperação da auto-estima.
Alguns dados da violência justificam a idéia de organizar as trabalhadoras:
Dependendo do país, conforme o Relatório, de 10% à 69% das mulheres já sofreram agressão física por um parceiro íntimo em alguma ocasião de suas vidas.
Como exemplo, citamos a tabela abaixo que indica alguns Países, faixa etária e porcentagem de mulheres fisicamente agredidas fisicamente por um parceiro íntimo:
País Faixa Etária Porcentagem ( %)
Chile/Santiago 15-49 23%
Paraguai 15-49 10%
Uruguai 22-55 10%
Peru 17-55 31%
Turquia 14-75 58%
A violência de gênero tem se mostrado como um padrão contínuo de comportamento abusivo, seja através de tapas, socos, surras, intimidação constante, desvalorização, humilhação, relações sexuais forçadas, isolamento dos familiares e amigos, comportamentos controladores ou de um “acidente na cozinha”.
É justamente com essa frase “um acidente na cozinha” que dá título ao nosso artigo, que os homens da Índia, justificam as muitas mortes das mulheres, ocorridas dentro de suas casas. A estratégia é encharcar as mulheres com querosene e atear fogo, justificando para a polícia que a mulher sofreu queimaduras em um acidente na cozinha.
Aos homens e mulheres do movimento sindical fazemos a pergunta: até quando não ouviremos, veremos, ou falaremos sobre como ocorrem os “acidentes na cozinha”?
*Neide Aparecida Fonseca
Presidenta do INSPIR
Secretaria de Políticas Sociais da CNB/CUT
e suplente da SNMT-CUT na CM-CCSCS.
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Por Mhais• 23 de outubro de 2003• 05:26• Sem categoria
“UM ACIDENTE NA COZINHA”
Por Neide Aparecida Fonseca*
Calcadas em bases ideológicas, materiais e culturais, a construção histórica e social acerca dos papeis que homens e mulheres devem exercer tanto nos espaços públicos quanto privados, tem contribuído para ocorrências de inúmeros “acidentes na cozinha”.
Esses “acidentes na cozinha” têm status internacional, uma vez que acontece em todas as partes do mundo, além de não escolher classe econômica, grupo social, raça, idade, religião ou cultura. Desse ponto de vista, se não fosse trágico, poderíamos afirmar que tais “acidentes” possuem um caráter bastante democrático.
É justamente esse “caráter democrático dos acidentes nas várias cozinhas do mundo”, que vem propiciando a visibilidade do que chamamos violência de gênero, demonstrando que as estratégias devem ser pensadas de forma global, unificada, respeitando-se as características de cada país.
Neste sentido entender o conceito de gênero, enquanto elemento constitutivo das relações sociais e de poder, nos auxilia a definir violência de gênero como um comportamento que envolve poder de um sobre o outro, causando danos físicos, psicológicos ou sexuais, àquelas que fazem parte de uma relação.
Embora em uma relação, a violência doméstica pode ocorrer das mulheres sobre os homens, dos homens sobre as mulheres, e entre pessoas do mesmo sexo, conforme Relatório Mundial sobre Violência e Saúde, não restam dúvidas, segundo 48 pesquisas realizadas com populações do mundo inteiro, de que a maior carga da violência de gênero tem sido a dos homens sobre as mulheres, sendo esses homens maridos, companheiros ou outro qualquer pertencente ao núcleo familiar.
A violência de gênero é responsável por um número significativo de mortes por assassinato entre as mulheres. Estudos feitos na África do Sul, Austrália, Canadá, Estados Unidos e Israel, mostram que das mulheres vítimas de assassinato, de 40% à 70% (dependendo do país), foram mortas por seus maridos ou namorados, depois de sofrerem um ou todos os três tipos de abusos constantemente:( abusos físico, psicológico e sexual).
No Brasil, no ano de 2002, a maior rede de televisão: Rede Globo, por várias vezes e em diversos programas, tentou passar a idéia de que crescia o número de homens sofrendo de comportamento abusivo por parte das mulheres, trazendo alguns exemplos, inclusive internacionais.
As pesquisas desmentem isso, quando demonstram que as mulheres, na maior parte das vezes, estão reagindo da maneira que podem, geralmente dos três tipos de abuso acumulados.
O Relatório Mundial sobre Violência e Saúde, da Organização Mundial da Saúde, feito em 2002, coloca a questão da violência como um problema de saúde pública, e sendo assim, deve mobilizar os Estados na busca de soluções.
Por outro lado, as diversas organizações devem somar esforços para que esses Estados criem ou façam alterações e/ou aperfeiçoamento na legislação contra violência sexual e violência por parceiros íntimos; programas de prevenção; programas de atendimento específico para as mulher em estado de violência; aderir e/ou cumprir tratados internacionais sobre violência contra a mulher.
O movimento sindical pode ir além dos movimentos sociais. Pode organizar as trabalhadoras e os trabalhadores em torno deste tema. Afinal nos espaços de trabalho temos mulheres que sofrem violência doméstica, e homens que são os causadores desta mesma violência.
Para tanto devemos direcionar nossa estratégia para dois pontos fundamentais:
a) trabalhar no sentido de mudar conceitos, cultura e valores (mulheres e homens).
Esse ponto merece breve comentário. Embora possamos pensar que somente em sociedades/culturas mais tradicionais surrar a mulher como um direito do homem tenha apoio de ambos os sexos, isso não é verdadeiro. Um breve exemplo do Relatório supra citado, traz que no Brasil, na cidade de Salvador (1999), 11% das mulheres entendiam que se houver suspeita de adultério, os homens tem o direito de usar de violência física contra as mulheres. Em Santiago – Chile, 14% das mulheres apoiam essa idéia.
b) organizar as mulheres, no sentido de fortalece-las para denunciar; contribuindo na recuperação da auto-estima.
Alguns dados da violência justificam a idéia de organizar as trabalhadoras:
Dependendo do país, conforme o Relatório, de 10% à 69% das mulheres já sofreram agressão física por um parceiro íntimo em alguma ocasião de suas vidas.
Como exemplo, citamos a tabela abaixo que indica alguns Países, faixa etária e porcentagem de mulheres fisicamente agredidas fisicamente por um parceiro íntimo:
País Faixa Etária Porcentagem ( %)
Chile/Santiago 15-49 23%
Paraguai 15-49 10%
Uruguai 22-55 10%
Peru 17-55 31%
Turquia 14-75 58%
A violência de gênero tem se mostrado como um padrão contínuo de comportamento abusivo, seja através de tapas, socos, surras, intimidação constante, desvalorização, humilhação, relações sexuais forçadas, isolamento dos familiares e amigos, comportamentos controladores ou de um “acidente na cozinha”.
É justamente com essa frase “um acidente na cozinha” que dá título ao nosso artigo, que os homens da Índia, justificam as muitas mortes das mulheres, ocorridas dentro de suas casas. A estratégia é encharcar as mulheres com querosene e atear fogo, justificando para a polícia que a mulher sofreu queimaduras em um acidente na cozinha.
Aos homens e mulheres do movimento sindical fazemos a pergunta: até quando não ouviremos, veremos, ou falaremos sobre como ocorrem os “acidentes na cozinha”?
*Neide Aparecida Fonseca
Presidenta do INSPIR
Secretaria de Políticas Sociais da CNB/CUT
e suplente da SNMT-CUT na CM-CCSCS.
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