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Estratégia: Ex-presidente do BC assume o cargo a partir de janeiro
(São Paulo) O Unibanco anunciou, ontem, a entrada do ex-presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga, no conselho de administração a partir de janeiro. A informação foi dada pelo presidente do conselho, Pedro Moreira Salles, a cerca de 350 especialistas que participaram da reunião do banco com a Associação dos Analistas e Profissionais de Mercado de Capitais (Apimec).
O conselho de administração do Unibanco já havia sido reforçado neste ano com a nomeação do ex-ministro Pedro Malan e o ex-diretor do BC, Pedro Bodin. Fraga vai substituir Tomas Zinner, que deixará o conselho ao atingir a idade limite. Dois outros antigos executivos da casa, Israel Vainboim, também presidente do conselho da Unibanco Holdings, e Gabriel Jorge Ferreira continuam como conselheiros.
Moreira Salles garantiu aos analistas que o Unibanco está preparado para o cenário de economia estável que se desenha para 2004, quando completará 80 anos de fundação. “Desde a segunda metade da década de 90 estamos nos preparando para uma economia em crescimento, construindo um portfólio de negócios voltado para isso.” Moreira Salles está otimista com o futuro: “2004 será um ano muito diferente, com crescimento de 3% a 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB), que pode ser revisado para cima, com impacto positivo no crédito”.
Neste ano até setembro, a carteira de crédito do Unibanco ficou praticamente estagnada, passando de R$ 26,557 bilhões em dezembro para R$ 26,35 bilhões, enquanto os ativos totais encolhiam de R$ 75,375 bilhões para R$ 68,066 bilhões.
Agora, Moreira Salles já fala em crescer a carteira de crédito entre 15% e 20% no próximo ano. Aos analistas, apresentou uma simulação otimista. Com um índice de capitalização (Basiléia) de 17,3% atualmente, o Unibanco pode ampliar o crédito ao ritmo de 25% ao ano pelos próximos cinco anos, sem precisar reforço de capital. Assim, mantendo-se dentro do piso fixado pelo BC de um índice da Basiléia de 11%, o banco chegaria a uma carteira de crédito de R$ 73 bilhões dentro de cinco anos.
Mas o presidente do conselho do Unibanco alertou que o crescimento não será uniforme no primeiro momento. No atacado, as operações com empresas de médio porte devem crescer mais do que com as grandes companhias, cujos spreads já estão em níveis internacionais.
A grande reação, prevê, ocorrerá sobretudo na área de financiamento ao consumo, “onde o Unibanco investiu muito desde 1996, com a compra da Fininvest”. O varejo tradicional, ligado à rede de agências, também vai crescer e a redução dos spreads vai melhorar a qualidade do crédito.
O presidente do banco de varejo, Joaquim Francisco Castro Neto, espera uma maior pressão nas taxas e competição mais acirrada.
Escala para enfrentar a concorrência o Unibanco tem, com 13,3 milhões de clientes, dos quais 5,9 milhões do banco e o restante das operações de financiamento ao consumo que o banco colecionou nos últimos anos. Além da Fininvest, tem o PontoCred, que financia as vendas do Ponto Frio, e a LuizaCred, com o Magazine Luiza. Na semana passada, comprou a Creditec, financeira com 600 mil clientes das classes B, C e D, 64 lojas próprias e 162 pontos de venda. Montou ainda uma rede de distribuição com 11,5 pontos entre 874 agências, lojas de financeiras e Banco 24 Horas. O desafio, segundo Moreira Salles, é que o spread deve cair mais rápido do que o volume de crédito vai crescer. “Os bancos com escala têm condições de fazer a transição de preços, a última que faltava.
O impacto no retorno é difícil de prever. A arte é essa: se acelerar muito, o banco poderá ter problemas; se acelerar pouco, a rentabilidade cairá”. E rentabilidade é um ponto que os analistas desejam ver melhorada no Unibanco, que acumula retorno anualizado sobre o patrimônio médio de 15,2% nos primeiros nove meses do ano, um ponto abaixo do registrado em igual período de 2002.
Ao abrir a exposição para os analistas, Malan manteve o mesmo tom. “O sistema bancário não necessita de taxas altas e de imposto inflacionário. No resto do mundo, os bancos vivem bem com taxas baixas. Já tivemos isso no passado”, disse. O ex-ministro lembrou que, no “último ciclo de crescimento” no Brasil, de 1999 a maio de 2001, quando houve a crise energética, o país cresceu a um ritmo de 4,5%. No mesmo espaço de tempo, o crédito para a pessoa física cresceu 80%. Só em 2000, o crédito cresceu 50%. Moreira Salles não vislumbra nenhum problema externo que possa comprometer a recuperação em 2004. “A questão”, disse, “é o que vai acontecer em 2005 e 2006.” Mas relacionou reformas microeconômicas que podem ser feitas, como a aprovação da Lei de Falências.
Em relação à consolidação do sistema financeiro, o banqueiro acredita que “o grosso já aconteceu”. Já em 1996, previa a saída dos bancos estrangeiros que não conseguissem escala no Brasil. “Muitos descobriram que era difícil e caro abrir um monte de agências e conseguir negócios. A volatilidade brasileira também os afetou, além dos limites de risco dos balanços internacionais.”
Fonte: Maria Christina Carvalho – Valor Econômico
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