Correio Braziliense – Felipe Campbell
A maior ameaça ao dinheiro de quem tem conta e faz transações pela internet está na ingenuidade do próprio correntista. Hoje em dia é mais preocupante e freqüente uma pessoa fornecer suas informações sigilosas por inocência ou falta de cuidado do que um hacker invadir os sistemas de um banco e coletar os dados pessoais dos clientes.
Para tentar diminuir os riscos desses crimes cibernéticos, especialistas do setor apostam todas as suas fichas na assinatura (ou certificação) digital. Trata-se de um mecanismo de autenticação aparentemente ‘‘à prova de fraude’’ que permite a um banco identificar com chances mínimas de errar se quem está movimentando a conta ali é realmente o titular da conta.
A identificação digital é um dos temas a serem discutidos hoje no VII Fórum Jurídico de Instituições Financeiras. O evento, promovido pela Associação Brasileira de Bancos Estaduais (Asbace), mostrará o que os bancos têm feito para identificar e punir autores de crimes eletrônicos. Pesquisa da Módulo Security Solutions, empresa que atua no ramo de segurança da informação, revela que 78% das maiores companhias brasileiras públicas e privadas acreditam que as ameaças vindas de hackers e do crime organizado eletrônico aumentarão no ano que vem. O estudo foi feito em diversos segmentos, como setor financeiro, indústria e comércio, tecnologia e informática, prestação de serviços, telecomunicações, comércio e varejo, energia elétrica, educação e saúde.
O diretor executivo do Unibanco, Élio Boccia, diz que, apesar de os bancos aumentarem os investimentos em segurança, a perseguição aos criminosos virtuais se assemelha à corrida de um arco em busca da flecha. ‘‘Por mais que a gente consiga aperfeiçoar os sistemas, o bandido virtual sempre descobre um caminho mais rápido de burlar a segurança’’, explica.
As ameaças crescentes fizeram com que, este ano, 35% das empresas entrevistadas assumissem ter prejuízo com fraudes virtuais. Desse total, 22% perderam até R$ 50 mil, 8% entre R$ 50 mil e R$ 500 mil e 4% de R$ 500 mil a R$ 1 milhão. Mesmo assim, a falta de consciência dos executivos revelou-se o principal obstáculo para implementação da segurança (23%) nas companhias.
E-mails falsos
Os bancos, instituições que mais zelam pela credibilidade junto aos clientes, enfrentam fraudadores que se aproveitam da ingenuidade dos clientes para lhes roubar dinheiro. Um caso bem comum são os e-mails enviados aos usuários pedindo dados pessoais sob alegação de recadastramento. Outra fraude acontece quando a pessoa acessa um site falso de seu banco e digita, ali, as informações de sua conta. ‘‘A gente não tem como controlar isso. O que estamos tentando fazer é implementar a certificação digital, que fará com que o ladrão tenha a transação rejeitada na hora da identificação’’, diz Boccia.
A assinatura digital esbarra em obstáculos para ser implementada. O primeiro são os altos custos. Se forem somados, os correntistas dos cinco principais bancos brasileiros somam mais de 20 milhões. Outro entrave é a falta de padronização do sistema de certificação. Existem vários modelos feitos por empresas diferentes. ‘‘Os bancos discutem uma maneira de uniformizar o uso das assinaturas no país’’, diz Sandra Gouvêa, supervisora jurídica do Banco Santos.
Uma alternativa pode ser a utilização do iCPF, sistema utilizado pela Receita Federal para identificar o contribuinte quando ele está acessando os serviços do programa de Imposto de Renda. ‘‘O desafio que surge é saber com certeza que a outra pessoa é quem ela está dizendo’’, acredita Tácito Pereira Nobre, diretor de novas tecnologias de telemática da Centralização de Serviços Bancários (Serasa).
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