xO Globo – Valderez Caetano
Na tentativa de descentralizar a distribuição de crédito no país, muito concentrado em instituições financeiras das regiões Sudeste e Sul, o governo estuda autorizar a criação de bancos regionais que só poderão aplicar e captar recursos em suas áreas de atuação.
Segundo o diretor de Normas do Banco Central, Sérgio Darcy, para estimular a presença das instituições regionalmente a idéia é reduzir a exigência de patrimônio líquido para esses bancos regionais.
Hoje, um banco para operar precisa de um patrimônio mínimo de R$ 17 milhões. Em contrapartida, essas instituições não seriam autorizadas a operar com todos os produtos bancários. Alguns desses bancos, por exemplo, trabalhariam na área de captação e aplicação de recursos, outros apenas na área de câmbio.
—A idéia é dar condição para que a sociedade possa abrir instituições de forma mais concorrencial — disse o diretor do BC.
Ele informou que o estudo sobre os bancos regionais será levado à apreciação da diretoria do Banco Central em 60 dias. De acordo com o diretor do BC, o formato que vai permitir a pulverização do crédito no país já está montado e em seis meses o sistema estará mais maduro.
Segundo ele, o BC é muito cobrado em relação à concentração do crédito em poucas instituições, mas esse é um problema que ocorre no mundo todo.
— Os bancos passaram a competir entre eles próprios no país e não na comunidade — disse Darcy.
Cooperativas são o próximo alvo
Uma outra aposta do governo para regionalizar a aplicação de recursos são as cooperativas de crédito. Hoje, segundo Darcy, elas somam mais de 1.400 e muitas estão caminhando para se transformarem em bancos.
Ele anunciou que o BC vai continuar adotando medidas para estimular a formação e desenvolvimento de cooperativas. Uma das medidas já adotadas pelo BC foi permitir que uma cooperativa não seja mais exclusiva de médicos, dentistas ou agricultores, por exemplo. Essas categorias poderão formar uma só cooperativa.
— Para fazer com que o crédito vá à ponta, estamos fazendo cooperativas de livre associação. Isso também vai ser muito positivo no caminho da desconcentração do crédito.
Até o fim do ano, teremos um número adequado de cooperativas funcionando — disse o diretor de BC, acrescentando que o desafio é levar a idéia das cooperativas para Norte e Nordeste.
BC nega pressões dos grandes bancos
Darcy afirmou ainda que o Banco Central não está sofrendo pressão por parte dos grandes bancos no sentido de não fazer essa abertura no mercado financeiro.
Segundo ele, bancos como Itaú, Bradesco, Real e Unibanco têm que começar a buscar crescer internacionalmente. Dentro do país, ele assegurou que as diversas medidas em estudo e implantadas pelo governo vão fazer com que a concorrência no mercado interno se amplie.
Um dos passos dados pelo governo neste sentido citado por ele foi a desoneração da cobrança da CPMF nos investimentos. A medida, disse Darcy, vai estimular a concorrência, na medida em que os investimentos ficarão livres da contribuição quando transitarem de um banco para outro.
— Eu acho que o governo atual entende perfeitamente a importância de baixar o spread (diferença entre taxas de captação e empréstimo). Mas para isso é preciso aprovar também a Lei de Falências que vai estimular o mercado secundário de crédito — disse.
Darcy informou também que o BC abandonou a antiga idéia de criar outros tipos de cadernetas de poupança, depois de constatar que o nível dos depósitos está estável há muito tempo. Além disso, segundo ele, o dinheiro depositado em poupança não é um bom instrumento de financiamento para a casa própria.
— É uma captação com prazo de um mês para aplicação em quinze anos. O futuro dos financiamentos ao setor produtivo vai ficar com os fundos de pensão e fundos institucionais — disse Darcy.
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