Correio Braziliense
O ministro da Casa Civil, José Dirceu, mandou um duro recado aos bancos, para que reduzam os juros cobrados de consumidores e empresas, e ajudem o país na retomada do crescimento.
“O sistema bancário tem que se preparar para financiar a produção, investir no crescimento do país e sair da tesouraria”, afirmou.
Dirceu disse que, da parte do governo, a redução da taxa básica de juros vai continuar, até que os juros reais (descontada a inflação) cheguem a 6%.
Ele ressaltou que o Banco Central tem sensibilidade para perceber os avanços conseguidos para manter a trajetória de queda da Selic. Sem meias palavras, o ministro informou que há um acordo no governo para se defender o superávit primário e as metas de inflação.
Mas a condição é que os juros caiam e cada centavo economizado seja usado para investimentos em infra-estrutura e na área social. Para o ministro, a responsabilidade fiscal não significa irresponsabilidade social.
Usando um argumento da esquerda, como ele mesmo frisou, política econômica não é derrotada só por erros nessa política.
“As crises social e política paralisam a economia”. Para ele o Brasil precisa de crescimento e empregos obsessivamente. Ele participou do lançamento do Movimento pela Competitividade das empresas brasileiras, onde se encontrou com Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo.
Durante jantar com representantes do PP, Dirceu defendeu o regime militar, período que, segundo ele, havia lideranças e estabilidade econômica. Veja os principais trechos do discurso de Dirceu.
O que disse o ministro
Dívida pública
Nós sabemos que o Brasil enfrenta um desafio interno grave: a dívida interna, que passou de 26% para 60% do PIB (Produto Interno Bruto). A carga tributária passou de 27% passou para 37% do PIB. O patrimônio público foi privatizado. É nessa situação que temos que retomar o crescimento. A dívida interna, de R$ 1 trilhão, tem um serviço que inviabiliza o que é necessário para um país como o Brasil: os investimentos públicos. O ideal seria que o governo federal investisse R$ 45 bilhões por ano em infra-estrutura, ciência e tecnologia, educação. A realidade é que o governo, com grande esforço, apesar do superávit primário, vai investir R$ 12 bilhões neste ano.
Juros de 6%
Apesar da demanda evidente pelo crescimento das exportações, os investimentos não acontecem, nem por parte do governo nem por parte da iniciativa privada. Isso está ligado à questão dos juros. Daí, a necessidade do país, de uma maneira responsável, lenta segura e gradual, chegar a um juro real de 6%. Nós temos que buscar isso. O país precisa fazê-lo para que Orçamento permita investimentos sociais e em infra-estrutura e ajude a derrubar o Brasil.
Nó do crescimento
O Brasil é um país que está preparado e tem condições para crescer. Evidentemente que temos um nó de alto risco. Não significa que vai dar certo, porque nós temos os choques externos. Temos crises políticas. Eu mesmo fui protagonista de um começo de uma crise policial (caso Waldomiro Diniz) que quase foi transformada em uma crise política institucional. Para ver como é o Brasil. É complicado. Mas isso é democracia. Não estou me queixando, não.
Mais empregos
O Brasil vai gastar neste ano R$ 5,4 bilhões em transferência de renda, mais R$ 6 bilhões na Saúde e mais de R$ 100 bilhões na Previdência. Temos um arcabouço social que precisa ser consolidado e ampliado. O país precisa, porém, crescer. Tem que criar empregos. Isso é uma urgência, é uma necessidade. Os programas sociais estão sob risco se o déficit da Previdência continuar aumentando.
Paralisia e derrota
Temos a consciência tranqüila de que estamos fazendo aquilo podemos. Não estamos satisfeitos, nem o presidente da República está. O desafio do Brasil é fazer em dois anos, quatro anos. Não podemos esperar 20 anos. O país não tem uma logística, uma infra-estrutura para suportar o desenvolvimento. Política econômica não é derrotada só por erros na política econômica. A crise social e a crise política paralisam a economia e derrotam a política econômica.
Acordo do superávit
O acordo (dentro do governo) é muito simples. Vamos sustentar o superávit fiscal e as metas de inflação, mas vamos reduzir juros. Todo centavo de real economizado tem de ser aplicado em infra-estrutura. O governo tem que ser mais eficiente e mais rápido. Mas o empresariado tem que se mover, acreditar e fazer investimentos. E o sistema bancário tem que se preparar para financiar a produção, investir no crescimento do país e sair da tesouraria. Precisamos baixar os juros para que isso seja uma necessidade deles e não um apelo.
Apelos aos bancos
Vamos reorganizar o sistema brasileiro de defesa da concorrência no sistema financeiro. Não podemos ter tantas diferenças nas taxas de juros. Temos que enfrentar a discussão que o sistema bancário do país tem que dar crédito, com juros compatíveis com a rentabilidade e a produtividade da economia brasileira. Porque senão será uma falácia, uma hipocrisia, dizer que o governo tem que reduzir a Selic. O sistema bancário brasileiro tem de estar preparado para reduzir os juros, pactuar investimentos nos principais setores, para o país crescer para dentro e para fora.
Irresponsabilidade social
Temos o dever e a capacidade para mediar o ajuste fiscal, para mediar as necessidades da economia com a necessidade social, a necessidade de emprego e as demandas sociais. Não podemos ter a irresponsabilidade social. Temos que ter responsabilidade fiscal e social.
Desesperança
Estamos tendo uma oportunidade única. O Brasil já tropeçou muito. Todas as vezes que procuramos cortar o caminho, pegar um atalho, veio a crise, a inflação, o governo sem maioria no Congresso, a desesperança. Por isso, o governo tem tomado medidas muitas vezes criticada, mas pagamos o preço por isso. Temos a segurança de que estamos fazendo o correto.
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