Os primeiros registros dos sintomas estão na Ilíada, o clássico de Homero, e na Bíblia, mas há menos de 25 anos a Organização Mundial da Saúde (OMS) o reconheceu como doença, com o título de Post Traumatic Stress Disorder (PTSD), traduzido para o português como Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Ele já foi, porém, conhecido por muitos nomes: “Neurose de Guerra”, “Síndrome de Abuso Infantil”, “Neurose Traumática”, “Síndrome de Campos de Concentração”, “Síndrome de Sobrevivência”, “Síndrome do Trauma do Estupro”. É, enfim, o mal que ataca quem tem contato com a violência. No Brasil poderia chamar-se também “Mal dos Bancários”.
Segundo especialistas, aqui, os grupos mais atingidos pelo TEPT são policiais, bombeiros e… bancários. A convivência com os assaltos, seqüestros, violência e crueldade cada vez maiores dos ladrões os tornam grupo de risco para o transtorno.
Marcos não esquece nenhum detalhe da terça-feira, 18 de dezembro de 2001. “Foi o dia em que eu morri. Hoje, sou um morto-vivo”, diz. Naquele dia ele saiu do trabalho, em uma agência do Bradesco na zona Leste de São Paulo ao meio-dia para levar o pai ao médico.
Voltou para casa no final da tarde e a encontrou ocupada pelos bandidos, com a mãe, duas irmãs, o cunhado e dois sobrinhos feitos reféns.
Eles viveriam, então, uma longa noite de terror. Os ladrões sabiam detalhes de seu trabalho e da família que o deixavam perplexo: nomes, idades e hábitos de cada um, quanto dinheiro em moedas e notas de um e cinco reais que ele guardava na agência. — Colabore e nada acontece à sua família; banque o herói e nem os corpos você vai reconhecer –, ameaçou o “chefe”, com um revolver enfiado na boca de seu sobrinho de 5 anos.
Marcos entregou o dinheiro aos ladrões, mas o banco o demitiu por justa causa. Ele processou o banco e ganhou em primeira instância, mas o Bradesco recorreu.
O sobrinho até hoje faz terapia e sua mãe caiu em depressão profunda. Depois de perder o emprego, Marcos abandonou o curso de Direito e tem vontade de passar o dia na cama, mas quando deita não consegue conciliar o sono.
Dorme, de três a quatro horas por dia, um sono cheio de pesadelos com os bandidos. Nunca mais conseguiu emprego.
“Quem dá trabalho a um tesoureiro demitido por justa causa?”, ele indaga. Agora, só pensa em vingança. Não contra os ladrões: “Eu gostaria de vê-los presos, mas me sinto mais violentado pelo banco”.
Medo de enlouquecer – O Transtorno do Estresse Pós-Traumáticos entre os funcionários de instituições financeiras foi, aliás, o tema da tese de Othon Vieira Neto, professor da Faculdade de Psicologia da FMU e um dos criadores do Foccus – Núcleo de Psicologia Aplicada, que atende a vítimas de violência. Foi em meados dos anos 90 que Vieira Neto teve sua atenção voltada para o transtorno. Funcionário do Banco do Brasil – onde trabalhou de 1977 a 2001 e de quem hoje é consultor para tratamento e prevenção do TEPT –, grande parte de seus pacientes na época eram colegas de agências assaltadas. O psicólogo espantava-se com seu sofrimento.
Percebeu então que os sintomas eram semelhantes aos de uma doença pouco conhecida identificada nos veteranos da Guerra do Vietnã e descrita pela primeira vez como Transtorno do Estresse Pós-Traumático pela Associação Psiquiátrica Americana, em 1980. Na fase mais crítica, o doente tem reações de alarme exageradas, pensamentos intrusivos, afeto instável, tendência a se isolar, estado de excitação crônica, distúrbios no sono e medo de “ficar louco”. Ansiedade e depressão freqüentemente levam a idéias de suicídio.
Renata não se reconhece mais. Três anos atrás, ela era um exemplo de mulher de sucesso. Pessoalmente, uma mulher atraente, um casamento estável e duas filhas adolescentes; profissionalmente, uma carreira de dezoito anos e o cargo de gerente-geral de uma grande agência bancária paulistana.
Coragem? Renata enfrentara oito assaltos ao longo de dezesseis anos. No último, os ladrões a arrastaram pelo pescoço através da agência. Terminado o assalto, ela voltou para sua mesa, como se nada tivesse acontecido.
Competitividade? Em julho de 2001, Renata era a segunda colocada no ranking regional de gerentes do banco. “Vamos buscar o prêmio”, desafiou-a seu superior. Em novembro Renata era a terceira colocada, do ranking nacional. Mas ela já não estava bem.
Em setembro, semanas após um assalto, um erro do departamento jurídico do banco fez com que um oficial de Justiça fosse buscá-la na agência, acompanhado de dois policiais, para uma audiência. A partir daí, passou a ter lapsos de memória, acordar de madrugada, calçar os sapatos, pegar a bolsa para ir para o banco, de camisola.
Num dia de dezembro de 2001, ela saiu de casa para trabalhar e de repente, no meio do caminho, não sabia onde estava nem para onde ia. Desde então já não dirige e, apesar dos calmantes, não sai de casa sozinha. Está em licença para tratamento de saúde. Sabe que logo terá de voltar, mas não consegue entrar em um banco. Nas duas vezes em que se forçou, ficou em pânico. “Às vezes dá vontade de morrer. Eu sou uma má mãe, má mulher, má profissional”, recrimina-se Renata. Não é verdade, mas é como ela se sente.
Terapia breve – Indicados pela FMU, coube a Othon Vieira Neto e sua mulher, Cláudia Maria Sodré Vieira, também psicóloga, professora universitária e pesquisadora do trauma, o acompanhamento e supervisão do atendimento psicológico aos usuários do Centro de Referência e Apoio à Vitima (Cravi), piloto de atendimento às vítimas de violência, lançado pela Secretaria de Justiça do Estado em 1997, mas que não decolou. O atendimento precisava ser feito em apenas quatro sessões, o que levou o casal a desenvolver seu método de terapia breve. Hoje, eles fazem o tratamento do TEPT no máximo em dez sessões. A terapia breve, limitada a doze semanas, é também o método adotado no Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica (Gorip), criado em 2002 no Hospital das Clínicas da USP. Tendo como médico-supervisor Eduardo Ferreira Santos, o Gorip especializou-se no atendimento a vítimas de seqüestro.
“A doença pode se manifestar logo após o incidente ou até cinco anos depois. A pessoa passa a sofrer com muito medo, isolamento, depressão, falta de vontade de se divertir ou trabalhar, cansaço extremo, pensamentos recorrentes, distúrbios do sono e pesadelos”, explica Ferreira Santos.
Um novo grupo de pesquisa do TEPT no Brasil, o Programa de Assistência às Vítimas de Violência e Estresse (Prove), está em organização na Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, pelo psiquiatra Marcelo Feijó de Mello. Além de terapia breve, ele irá realizar uma série de pesquisas, entre as quais uma para determinar o índice de portadores do Transtorno do Estresse Pós-Traumático no país. A transposição de uma pesquisa que o identificou em 10% da população norte-americana indicaria uma taxa entre 5% e 7% no Brasil, mas Feijó de Mello acredita que esse número pode ser bem maior. Até porque, muitas vezes os crimes nem sequer são registrados. “Policiais, bombeiros, bancários e moradores de áreas violentas, como favelas e a periferia, são os grupos mais sujeitos ao transtorno”, explica Feijó de Mello.
Questão de dignidade – O banco emitiu a Comunicação de Acidente do Trabalho (CAT), obrigatória em caso de assalto, e Ademar César, a exemplo de seu colega do Bradesco, culpa mais o Santander que os ladrões por seu sofrimento atual. Na manhã de 17 de dezembro de 2003 ele estava saindo de casa para trabalhar quando foi rendido pelos bandidos. Sua mulher e o filho de 18 anos foram colocados em uma Fiorino e levados como reféns. Os ladrões não viram sua filha adolescente, mas a menina percebeu o que estava acontecendo e ficou tão apavorada que só levantou da cama depois de tudo acabado.
— Você vai fazer o que nós mandarmos, ou sua mulher e filho morrem – avisaram os bandidos.
Ademar César fez como eles mandaram: foi ao banco, recolheu o dinheiro no cofre e entregou aos assaltantes. Sua família foi libertada em outra cidade e resgatada pela segurança do banco. Três meses depois, em 20 de fevereiro, quando faltavam oito dias para completar 25 anos no emprego, foi demitido. O motivo apresentado: — O banco perdeu a confiança em você.
Ademar já sofria os primeiros sintomas do TEPT quando foi demitido e em um laudo médico oficial, emitido por um órgão do serviço público, consta: “O paciente mantém sinais de grande instabilidade e é dependente de medicamentos”. O Santander pagou todas as verbas rescisórias a que ele tinha direito, mas Ademar está acionando o banco, pedindo reintegração. “Nem sei se quero voltar, eu sou professor e estou fazendo concurso para o magistério público. É uma questão de dignidade. Fui vítima e eles me trataram como culpado.”
Os empregadores não gostam de emitir CAT, mas para o trabalhador ela é essencial à proteção de seus direitos, caso venha a sofrer as seqüelas do assalto. Entre essas seqüelas está o TEPT. No dia 24 de março, uma banca composta por dois representantes da USP e um da Universidade Metodista aprovou com nota máxima a tese de mestrado de Vieira Neto sobre a incidência do transtorno em bancários.
“A aprovação da tese significa que a comunidade cientifica reconhece o Transtorno do Estresse Pós-Traumático como conseqüência de assaltos a bancos”, esclarece Vieira Neto. “Ocorre que o assalto a banco já é considerado acidente de trabalho, no caso de bancários, e assim o TEPT passa a ser uma doença provocada por acidente de trabalho. E nessas condições a lei proíbe a demissão do funcionário”, acredita o psicólogo.
Assunto fora de discussão – Os bancos não querem falar sobre o TEPT. A reportagem tentou ouvir pessoas ligadas à direção dessas instituições e obteve as seguintes respostas. Santander: “Vamos ficar fora dessa”. Bradesco: “A diretora de RH que poderia falar sobre o assunto está viajando”. Quando ela volta? Depois do fechamento de sua matéria”. Febraban: “A pessoa que fala sobre isso sofreu um acidente e não sabemos quando retorna”.
O motivo da dificuldade em conseguir essa interlocução, no entanto, parece vir no e-mail do Itaú: “Prezado Antonio Carlos, sobre sua pauta a respeito do estresse pós-traumático, consultamos o RH do banco e fomos informados de que esse assunto está em discussão nas comissões de segurança bancária e saúde ocupacional na Febraban e que por esse motivo a própria entidade está orientando os bancos a não comentarem o assunto neste momento. Espero poder te ajudar melhor em uma próxima oportunidade”.
O único banco que fala sobre o problema é o Banco do Brasil, que possui um programa pioneiro para atendimento aos funcionários de agências assaltadas. O Programa de Assistência às Vítimas de Assalto e Seqüestro (Pavas) foi criado em 2000 como resposta à explosão de roubos a bancos do ano anterior. Em 1999, ocorreram 297 assaltos em agências do Banco do Brasil em 277 dias úteis, ou seja, mais de um assalto por dia útil.
O Pavas é administrado pela Diretoria de Gestão de Pessoas (Gepes) e avisado sempre que houver assalto a uma agência do banco ou seqüestro de funcionário. A Gepes envia para o local uma força-tarefa composta de cinco equipes: superintendência regional, segurança, jurídica, saúde e gestão de pessoas.
A equipe da superintendência contabiliza as perdas e desloca funcionários de agências próximas para atendimento dos clientes, enquanto a segurança zela pela agência, funcionários e suas famílias. No caso de seqüestros realizados na casa do funcionário, a residência fica sob sua guarda até a avaliação de que não há mais perigo. Se for necessário, a equipe de gestão de pessoas hospeda o bancário e sua família em hotéis e providencia sua transferência, quando recomendado pela equipes de segurança ou de saúde.
Nenhum funcionário presta depoimento à polícia sem a presença de um advogado da equipe jurídica. Composta por um médico e um psicólogo ou assistente social, a equipe de saúde assiste a família nos casos de seqüestro, faz visitas posteriores aos funcionários e suas famílias para avaliação e encaminha os envolvidos para tratamento médico ou psicológico, com direito a até duzentas sessões de psicoterapia. O programa tem uma avaliação tão boa por parte da diretoria que passou a ser uma de suas prioridades para 2004.
Como identificar – A Organização Mundial da Saúde (OMS) relaciona os seguintes sintomas para o diagnóstico do Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Se você apresenta algum deles, consulte seu médico ou procure ajuda de um psicoterapeuta.
Exposição a um evento traumático no qual:
• A pessoa vivenciou ou testemunhou evento que envolveu morte, ferimento grave ou ameaças físicas a si ou outros;
• A resposta da pessoa envolveu intenso medo, impotência ou horror; em crianças, isto pode ser expresso por um comportamento desorganizado ou agitado.
O evento é repetidamente revivido de uma das seguintes maneiras:
• Recordações aflitivas, recorrentes e intrusivas do evento; em crianças podem ocorrer jogos repetitivos com o trauma;
• Sonhos aflitivos e recorrentes com o evento; em crianças podem ser sonhos amedrontadores sem conteúdo identificável;
• Agir ou sentir como se o evento traumático estivesse ocorrendo novamente (inclui um sentimento de revivência da experiência, ilusões, alucinações e episódios de flash-backs dissociativos, inclusive aqueles que ocorrem ao despertar ou quando intoxicado);
• sofrimento intenso quando da exposição a indícios que lembram o evento traumático;
• Reação fisiológica à exposição a indícios que lembram algum aspecto do evento.
Fuga de estímulos associados com o trauma e entorpecimento da responsividade geral, indicados por três ou mais dos quesitos:
• Esforço para evitar pensamentos, sentimentos ou conversas sobre o trauma;
• esforço para evitar atividades, locais ou pessoas que lembrem o trauma;
• Incapacidade de recordar algum aspecto importante do trauma;
• Redução do interesse em atividades significativas;
• Sensação de distanciamento em relação a outras pessoas;
• Faixa de afeto restrita (por exemplo, incapacidade de sentir carinho);
• sentimento de um futuro abreviado (por exemplo, não espera ter uma carreira profissional, casamento, filhos).
Excitabilidade aumentada, indicada por dois ou mais dos quesitos:
• Dificuldade em conciliar ou manter o sono;
• Irritabilidade ou surtos de raiva;
• Dificuldade em concentrar-se;
• Hipervigilância;
• Resposta de sobressalto exagerada.
A duração da perturbação é superior a 1 mês.
A perturbação causa sofrimento significativo ou prejuízo em áreas importantes da vida da pessoa.
A quem recorrer – Em São Paulo, existem três centros especializados no estudo e tratamento do Transtorno do Estresse Pós-Traumático em São Paulo. Um deles, o Programa de Assistência às Vítimas de Violência e Estresse (Prove), está em organização na Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, e selecionando pacientes para tratamento – inscrições para seleção com Gláucia, (11) 5576-4494.
O Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica (Gorip) é ligado ao Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, da Faculdade de Medicina da USP. O grupo mantém inscrições abertas tanto para pacientes como para colaboradores voluntários – psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais – telefone (11) 3069-6576, com Roseli. O Gorip, de certa forma, especializou-se no atendimento a vítimas de seqüestro.
O Foccus – Núcleo de Psicologia aplicada é a única clínica privada de São Paulo voltada para o atendimento às vítimas desse tipo de violência e presta consultoria sobre o tema ao Banco do Brasil – (11) 5541-7747 e foccus@internetsp.com.br .
Fonte: Revista dos Bancários/Seeb SP
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Por Mhais• 25 de junho de 2004• 11:55• Sem categoria
ASSALTOS E SEQÜESTROS NO TRABALHO TRAUMATIZAM BANCÁRIOS
Os primeiros registros dos sintomas estão na Ilíada, o clássico de Homero, e na Bíblia, mas há menos de 25 anos a Organização Mundial da Saúde (OMS) o reconheceu como doença, com o título de Post Traumatic Stress Disorder (PTSD), traduzido para o português como Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Ele já foi, porém, conhecido por muitos nomes: “Neurose de Guerra”, “Síndrome de Abuso Infantil”, “Neurose Traumática”, “Síndrome de Campos de Concentração”, “Síndrome de Sobrevivência”, “Síndrome do Trauma do Estupro”. É, enfim, o mal que ataca quem tem contato com a violência. No Brasil poderia chamar-se também “Mal dos Bancários”.
Segundo especialistas, aqui, os grupos mais atingidos pelo TEPT são policiais, bombeiros e… bancários. A convivência com os assaltos, seqüestros, violência e crueldade cada vez maiores dos ladrões os tornam grupo de risco para o transtorno.
Marcos não esquece nenhum detalhe da terça-feira, 18 de dezembro de 2001. “Foi o dia em que eu morri. Hoje, sou um morto-vivo”, diz. Naquele dia ele saiu do trabalho, em uma agência do Bradesco na zona Leste de São Paulo ao meio-dia para levar o pai ao médico.
Voltou para casa no final da tarde e a encontrou ocupada pelos bandidos, com a mãe, duas irmãs, o cunhado e dois sobrinhos feitos reféns.
Eles viveriam, então, uma longa noite de terror. Os ladrões sabiam detalhes de seu trabalho e da família que o deixavam perplexo: nomes, idades e hábitos de cada um, quanto dinheiro em moedas e notas de um e cinco reais que ele guardava na agência. — Colabore e nada acontece à sua família; banque o herói e nem os corpos você vai reconhecer –, ameaçou o “chefe”, com um revolver enfiado na boca de seu sobrinho de 5 anos.
Marcos entregou o dinheiro aos ladrões, mas o banco o demitiu por justa causa. Ele processou o banco e ganhou em primeira instância, mas o Bradesco recorreu.
O sobrinho até hoje faz terapia e sua mãe caiu em depressão profunda. Depois de perder o emprego, Marcos abandonou o curso de Direito e tem vontade de passar o dia na cama, mas quando deita não consegue conciliar o sono.
Dorme, de três a quatro horas por dia, um sono cheio de pesadelos com os bandidos. Nunca mais conseguiu emprego.
“Quem dá trabalho a um tesoureiro demitido por justa causa?”, ele indaga. Agora, só pensa em vingança. Não contra os ladrões: “Eu gostaria de vê-los presos, mas me sinto mais violentado pelo banco”.
Medo de enlouquecer – O Transtorno do Estresse Pós-Traumáticos entre os funcionários de instituições financeiras foi, aliás, o tema da tese de Othon Vieira Neto, professor da Faculdade de Psicologia da FMU e um dos criadores do Foccus – Núcleo de Psicologia Aplicada, que atende a vítimas de violência. Foi em meados dos anos 90 que Vieira Neto teve sua atenção voltada para o transtorno. Funcionário do Banco do Brasil – onde trabalhou de 1977 a 2001 e de quem hoje é consultor para tratamento e prevenção do TEPT –, grande parte de seus pacientes na época eram colegas de agências assaltadas. O psicólogo espantava-se com seu sofrimento.
Percebeu então que os sintomas eram semelhantes aos de uma doença pouco conhecida identificada nos veteranos da Guerra do Vietnã e descrita pela primeira vez como Transtorno do Estresse Pós-Traumático pela Associação Psiquiátrica Americana, em 1980. Na fase mais crítica, o doente tem reações de alarme exageradas, pensamentos intrusivos, afeto instável, tendência a se isolar, estado de excitação crônica, distúrbios no sono e medo de “ficar louco”. Ansiedade e depressão freqüentemente levam a idéias de suicídio.
Renata não se reconhece mais. Três anos atrás, ela era um exemplo de mulher de sucesso. Pessoalmente, uma mulher atraente, um casamento estável e duas filhas adolescentes; profissionalmente, uma carreira de dezoito anos e o cargo de gerente-geral de uma grande agência bancária paulistana.
Coragem? Renata enfrentara oito assaltos ao longo de dezesseis anos. No último, os ladrões a arrastaram pelo pescoço através da agência. Terminado o assalto, ela voltou para sua mesa, como se nada tivesse acontecido.
Competitividade? Em julho de 2001, Renata era a segunda colocada no ranking regional de gerentes do banco. “Vamos buscar o prêmio”, desafiou-a seu superior. Em novembro Renata era a terceira colocada, do ranking nacional. Mas ela já não estava bem.
Em setembro, semanas após um assalto, um erro do departamento jurídico do banco fez com que um oficial de Justiça fosse buscá-la na agência, acompanhado de dois policiais, para uma audiência. A partir daí, passou a ter lapsos de memória, acordar de madrugada, calçar os sapatos, pegar a bolsa para ir para o banco, de camisola.
Num dia de dezembro de 2001, ela saiu de casa para trabalhar e de repente, no meio do caminho, não sabia onde estava nem para onde ia. Desde então já não dirige e, apesar dos calmantes, não sai de casa sozinha. Está em licença para tratamento de saúde. Sabe que logo terá de voltar, mas não consegue entrar em um banco. Nas duas vezes em que se forçou, ficou em pânico. “Às vezes dá vontade de morrer. Eu sou uma má mãe, má mulher, má profissional”, recrimina-se Renata. Não é verdade, mas é como ela se sente.
Terapia breve – Indicados pela FMU, coube a Othon Vieira Neto e sua mulher, Cláudia Maria Sodré Vieira, também psicóloga, professora universitária e pesquisadora do trauma, o acompanhamento e supervisão do atendimento psicológico aos usuários do Centro de Referência e Apoio à Vitima (Cravi), piloto de atendimento às vítimas de violência, lançado pela Secretaria de Justiça do Estado em 1997, mas que não decolou. O atendimento precisava ser feito em apenas quatro sessões, o que levou o casal a desenvolver seu método de terapia breve. Hoje, eles fazem o tratamento do TEPT no máximo em dez sessões. A terapia breve, limitada a doze semanas, é também o método adotado no Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica (Gorip), criado em 2002 no Hospital das Clínicas da USP. Tendo como médico-supervisor Eduardo Ferreira Santos, o Gorip especializou-se no atendimento a vítimas de seqüestro.
“A doença pode se manifestar logo após o incidente ou até cinco anos depois. A pessoa passa a sofrer com muito medo, isolamento, depressão, falta de vontade de se divertir ou trabalhar, cansaço extremo, pensamentos recorrentes, distúrbios do sono e pesadelos”, explica Ferreira Santos.
Um novo grupo de pesquisa do TEPT no Brasil, o Programa de Assistência às Vítimas de Violência e Estresse (Prove), está em organização na Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, pelo psiquiatra Marcelo Feijó de Mello. Além de terapia breve, ele irá realizar uma série de pesquisas, entre as quais uma para determinar o índice de portadores do Transtorno do Estresse Pós-Traumático no país. A transposição de uma pesquisa que o identificou em 10% da população norte-americana indicaria uma taxa entre 5% e 7% no Brasil, mas Feijó de Mello acredita que esse número pode ser bem maior. Até porque, muitas vezes os crimes nem sequer são registrados. “Policiais, bombeiros, bancários e moradores de áreas violentas, como favelas e a periferia, são os grupos mais sujeitos ao transtorno”, explica Feijó de Mello.
Questão de dignidade – O banco emitiu a Comunicação de Acidente do Trabalho (CAT), obrigatória em caso de assalto, e Ademar César, a exemplo de seu colega do Bradesco, culpa mais o Santander que os ladrões por seu sofrimento atual. Na manhã de 17 de dezembro de 2003 ele estava saindo de casa para trabalhar quando foi rendido pelos bandidos. Sua mulher e o filho de 18 anos foram colocados em uma Fiorino e levados como reféns. Os ladrões não viram sua filha adolescente, mas a menina percebeu o que estava acontecendo e ficou tão apavorada que só levantou da cama depois de tudo acabado.
— Você vai fazer o que nós mandarmos, ou sua mulher e filho morrem – avisaram os bandidos.
Ademar César fez como eles mandaram: foi ao banco, recolheu o dinheiro no cofre e entregou aos assaltantes. Sua família foi libertada em outra cidade e resgatada pela segurança do banco. Três meses depois, em 20 de fevereiro, quando faltavam oito dias para completar 25 anos no emprego, foi demitido. O motivo apresentado: — O banco perdeu a confiança em você.
Ademar já sofria os primeiros sintomas do TEPT quando foi demitido e em um laudo médico oficial, emitido por um órgão do serviço público, consta: “O paciente mantém sinais de grande instabilidade e é dependente de medicamentos”. O Santander pagou todas as verbas rescisórias a que ele tinha direito, mas Ademar está acionando o banco, pedindo reintegração. “Nem sei se quero voltar, eu sou professor e estou fazendo concurso para o magistério público. É uma questão de dignidade. Fui vítima e eles me trataram como culpado.”
Os empregadores não gostam de emitir CAT, mas para o trabalhador ela é essencial à proteção de seus direitos, caso venha a sofrer as seqüelas do assalto. Entre essas seqüelas está o TEPT. No dia 24 de março, uma banca composta por dois representantes da USP e um da Universidade Metodista aprovou com nota máxima a tese de mestrado de Vieira Neto sobre a incidência do transtorno em bancários.
“A aprovação da tese significa que a comunidade cientifica reconhece o Transtorno do Estresse Pós-Traumático como conseqüência de assaltos a bancos”, esclarece Vieira Neto. “Ocorre que o assalto a banco já é considerado acidente de trabalho, no caso de bancários, e assim o TEPT passa a ser uma doença provocada por acidente de trabalho. E nessas condições a lei proíbe a demissão do funcionário”, acredita o psicólogo.
Assunto fora de discussão – Os bancos não querem falar sobre o TEPT. A reportagem tentou ouvir pessoas ligadas à direção dessas instituições e obteve as seguintes respostas. Santander: “Vamos ficar fora dessa”. Bradesco: “A diretora de RH que poderia falar sobre o assunto está viajando”. Quando ela volta? Depois do fechamento de sua matéria”. Febraban: “A pessoa que fala sobre isso sofreu um acidente e não sabemos quando retorna”.
O motivo da dificuldade em conseguir essa interlocução, no entanto, parece vir no e-mail do Itaú: “Prezado Antonio Carlos, sobre sua pauta a respeito do estresse pós-traumático, consultamos o RH do banco e fomos informados de que esse assunto está em discussão nas comissões de segurança bancária e saúde ocupacional na Febraban e que por esse motivo a própria entidade está orientando os bancos a não comentarem o assunto neste momento. Espero poder te ajudar melhor em uma próxima oportunidade”.
O único banco que fala sobre o problema é o Banco do Brasil, que possui um programa pioneiro para atendimento aos funcionários de agências assaltadas. O Programa de Assistência às Vítimas de Assalto e Seqüestro (Pavas) foi criado em 2000 como resposta à explosão de roubos a bancos do ano anterior. Em 1999, ocorreram 297 assaltos em agências do Banco do Brasil em 277 dias úteis, ou seja, mais de um assalto por dia útil.
O Pavas é administrado pela Diretoria de Gestão de Pessoas (Gepes) e avisado sempre que houver assalto a uma agência do banco ou seqüestro de funcionário. A Gepes envia para o local uma força-tarefa composta de cinco equipes: superintendência regional, segurança, jurídica, saúde e gestão de pessoas.
A equipe da superintendência contabiliza as perdas e desloca funcionários de agências próximas para atendimento dos clientes, enquanto a segurança zela pela agência, funcionários e suas famílias. No caso de seqüestros realizados na casa do funcionário, a residência fica sob sua guarda até a avaliação de que não há mais perigo. Se for necessário, a equipe de gestão de pessoas hospeda o bancário e sua família em hotéis e providencia sua transferência, quando recomendado pela equipes de segurança ou de saúde.
Nenhum funcionário presta depoimento à polícia sem a presença de um advogado da equipe jurídica. Composta por um médico e um psicólogo ou assistente social, a equipe de saúde assiste a família nos casos de seqüestro, faz visitas posteriores aos funcionários e suas famílias para avaliação e encaminha os envolvidos para tratamento médico ou psicológico, com direito a até duzentas sessões de psicoterapia. O programa tem uma avaliação tão boa por parte da diretoria que passou a ser uma de suas prioridades para 2004.
Como identificar – A Organização Mundial da Saúde (OMS) relaciona os seguintes sintomas para o diagnóstico do Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Se você apresenta algum deles, consulte seu médico ou procure ajuda de um psicoterapeuta.
Exposição a um evento traumático no qual:
• A pessoa vivenciou ou testemunhou evento que envolveu morte, ferimento grave ou ameaças físicas a si ou outros;
• A resposta da pessoa envolveu intenso medo, impotência ou horror; em crianças, isto pode ser expresso por um comportamento desorganizado ou agitado.
O evento é repetidamente revivido de uma das seguintes maneiras:
• Recordações aflitivas, recorrentes e intrusivas do evento; em crianças podem ocorrer jogos repetitivos com o trauma;
• Sonhos aflitivos e recorrentes com o evento; em crianças podem ser sonhos amedrontadores sem conteúdo identificável;
• Agir ou sentir como se o evento traumático estivesse ocorrendo novamente (inclui um sentimento de revivência da experiência, ilusões, alucinações e episódios de flash-backs dissociativos, inclusive aqueles que ocorrem ao despertar ou quando intoxicado);
• sofrimento intenso quando da exposição a indícios que lembram o evento traumático;
• Reação fisiológica à exposição a indícios que lembram algum aspecto do evento.
Fuga de estímulos associados com o trauma e entorpecimento da responsividade geral, indicados por três ou mais dos quesitos:
• Esforço para evitar pensamentos, sentimentos ou conversas sobre o trauma;
• esforço para evitar atividades, locais ou pessoas que lembrem o trauma;
• Incapacidade de recordar algum aspecto importante do trauma;
• Redução do interesse em atividades significativas;
• Sensação de distanciamento em relação a outras pessoas;
• Faixa de afeto restrita (por exemplo, incapacidade de sentir carinho);
• sentimento de um futuro abreviado (por exemplo, não espera ter uma carreira profissional, casamento, filhos).
Excitabilidade aumentada, indicada por dois ou mais dos quesitos:
• Dificuldade em conciliar ou manter o sono;
• Irritabilidade ou surtos de raiva;
• Dificuldade em concentrar-se;
• Hipervigilância;
• Resposta de sobressalto exagerada.
A duração da perturbação é superior a 1 mês.
A perturbação causa sofrimento significativo ou prejuízo em áreas importantes da vida da pessoa.
A quem recorrer – Em São Paulo, existem três centros especializados no estudo e tratamento do Transtorno do Estresse Pós-Traumático em São Paulo. Um deles, o Programa de Assistência às Vítimas de Violência e Estresse (Prove), está em organização na Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, e selecionando pacientes para tratamento – inscrições para seleção com Gláucia, (11) 5576-4494.
O Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica (Gorip) é ligado ao Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, da Faculdade de Medicina da USP. O grupo mantém inscrições abertas tanto para pacientes como para colaboradores voluntários – psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais – telefone (11) 3069-6576, com Roseli. O Gorip, de certa forma, especializou-se no atendimento a vítimas de seqüestro.
O Foccus – Núcleo de Psicologia aplicada é a única clínica privada de São Paulo voltada para o atendimento às vítimas desse tipo de violência e presta consultoria sobre o tema ao Banco do Brasil – (11) 5541-7747 e foccus@internetsp.com.br .
Fonte: Revista dos Bancários/Seeb SP
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