“Mas é preciso ter força, é preciso ter raça
É preciso ter gana, sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria, mistura a dor e a alegria
Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça
É preciso ter sonho, sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania de ter fé na vida”.
(São Paulo) O refrão da música Maria, Maria, de Milton Nascimento e Fernando Brant, na voz forte e graciosa de Margareth Menezes, quebrou o tom solene e se transformou, naturalmente, em uma espécie de Hino Popular da I Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, aberta na manhã de quinta-feira (15), no Clube do Exército de Brasília. Mais de 3 mil Marias que sonham e lutam com gana pelos direitos femininos se levantaram para fazer coro e acompanhar o ritmo da canção com palmas e o balanço do corpo. Meio sem jeito, os poucos homens presentes seguiram o embalo como quem procura algo para esconder a vergonha – entre eles seis ministros de Estado e o presidente da República.
Com arte e alegria, as mulheres começaram a discutir suas dores com o objetivo de definir as diretrizes do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer aprovar em 25 de novembro – o Dia Internacional de Combate à Violência Contras as Mulheres. Violência presente em todas as culturas e países, como mostrou o documentário exibido enquanto as delegadas aguardavam a chegada das autoridades. Antes da abertura da Conferência, um grupo do Centro Teatro do Oprimido do Rio de Janeiro encenou o drama das mulheres criadas desde meninas para exercer um papel secundário na sociedade: cuidar da casa, do marido e dos filhos. Emancipada, vai à luta e supera os homens na disputa do emprego, mas não encontra no companheiro a desejada compreensão e parceria para dividir as tarefas domésticas. Angústia que a ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, encontrou retratada nos versos da Canção das Mulheres, de Lya Luft, que leu na abertura da Conferência.
Políticas públicas que enfrentem a desigualdade de gêneros é o objetivo dessas mulheres que trazem no corpo a marca da discriminação. “Foram as mulheres que mostraram que a esperança pode vencer o medo. A esperança que venceu o medo pode vencer também as barreiras que impedem a igualdade das mulheres”, convocou a conselheira Nilza Iraci Silva, que representa a Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e falou pela sociedade civil na abertura da Conferência.
Negras, índias, feministas, lésbicas, religiosas, camponesas, prostitutas, operárias, estudantes, empreendedoras – lutadoras. As mulheres são as mais atingidas pelo desemprego e pela pobreza, com maior gravidade quando negras; têm escolaridade maior, mas recebem salário menor que os homens; a representação delas na vida política e administrativa do País é baixa; poucas ocupam cargos executivos e de chefia; e a cada 15 segundos uma delas é espancada no Brasil.
Nos três dias dessa conferência pioneira, elas consagram mais de um século de lutas – de Chiquinha Gonzaga na campanha pela abolição dos escravos e as costureiras que deflagraram os movimentos pela redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias a Ângela Borba, historiadora, militante dos movimentos feministas e fundadora do PT, morta há exatamente seis anos, conforme lembrou Nilcéa Freire. As diretrizes da Política Nacional para as Mulheres serão tiradas das 3.844 propostas debatidas por mais de 120 mil mulheres nas 2.300 conferências municipais e 27 estaduais realizadas ao longo do primeiro semestre. “No mais inédito processo de consulta popular”, assinalou Nilcéa, lembrando que o presidente Lula pediu ousadia nas ações, quando lhe deu posse.
São propostas para o enfrentamento da pobreza, com geração de renda, trabalho, acesso ao crédito e à terra; superação da violência contra a mulher, com medidas de prevenção, assistência e enfrentamento da questão; promoção do bem-estar e qualidade de vida para as mulheres, nas áreas de saúde, moradia, infra-estrutura, equipamentos sociais e recursos naturais; efetivação dos direitos humanos das mulheres: civis, políticos, sexuais e reprodutivos; e o desenvolvimento de políticas de educação, cultura, comunicação e produção do conhecimento para a igualdade. Em resumo, o que elas querem é a chamada transversalidade de gênero nas políticas públicas. Isto é: que cada área, das diversas esferas governamentais, leve em conta as particularidades femininas no planejamento e execução dos respectivos programas e ações.
“Não queremos tomar nada de ninguém. Queremos viver e ter o direito de viver”, definiu a maranhense Raimunda dos Cocos no vídeo de apresentação da Conferência, arrancando aplausos do presidente Lula. Ela foi uma das oito mulheres vivas homenageadas na cerimônia pela história de mobilização em defesa dos direitos femininos. Outras tantas que participaram dessa luta – e já se foram – tiveram o nome lembrado no breve documentário apresentado por atrizes famosas. “Presente”, respondiam mulheres anônimas a cada chamada, amplificando o clima de emoção desencadeado com o coro de “olê olê olê olá, Lulá, Lulá, com o qual o companheiro presidente foi acolhido na chegada.
Cenas de tietagem explícita, com mulheres enfrentando seguranças para dar um abraço ou tirar uma foto ao lado do ídolo, se repetiram – como em todas as nove conferências nacionais que Lula fez questão de prestigiar desde que tomou posse como presidente. “E não fazemos isso apenas porque gostamos de participar de conferência, fazemos isso porque – eu dizia em toda a minha vida sindical e minha vida política – a maior obra que um governante pode deixar para o seu povo não é a quantidade de asfalto que ele fez ou a quantidade de salas de aula. Mas é a relação que o Estado estabelece com a sociedade e a relação que a sociedade estabelece com o Estado”, explicou logo no início do discurso.
Para quem não conhece a interação dele com os movimentos sociais é difícil compreender como conserva tanto prestígio com um governo tímido nas realizações, principalmente no combate às desigualdades. Até o protesto dos funcionários das universidades federais em greve por um plano de carreira foi acanhado – ao invés de fazerem escândalo na cerimônia para atrair a atenção da imprensa, deram ao presidente uma camiseta do movimento, como se estivessem do mesmo lado nas negociações.
Os movimentos organizados da sociedade não conseguem hostilizar Lula por que o consideram fiel depositário de suas bandeiras. Ele é uma lenda viva da luta pela expressão da cidadania e pela legitimação das organizações sociais perante o Estado. É por acreditar na força das mobilizações sociais e abrir canais de interlocução do governo com a sociedade que, mesmo enfrentando maior rejeição do eleitorado feminino, Lula faz sucesso com os movimentos de mulheres. Elas lutam para conquistar terreno na sociedade inspiradas na luta dele, e incentivadas por ele. “Eu quero dizer para vocês e minha querida companheira Nilcéa, que vocês tenham a ousadia de uma Rigoberta Menchú, que se dependesse da lógica dos homens, certamente não teria ganhado o Premio Nobel da Paz. Quero que vocês levem em conta que se dependesse da lógica dos homens, Joana D’arc não teria vencido tantas vezes o exército inglês. Então, não é a lógica de governo que tem que prevalecer e muito menos a lógica a lógica dos homens. O que tem que prevalecer nessa relação é a lógica da consciência, é a lógica do amadurecimento, é a lógica da convivência democrática na diferença e nas adversidades. O que tem que prevalecer é essa aula de democracia que vocês estão dando ao Presidente da República e ao Brasil com a realização desta Conferência. Vão em frente e boa luta para vocês”.
Elas vão. Porque têm a estranha mania de ter fé na vida.
Fonte: Agência Carta Maior
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