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Estudo redescobre vilões do spread bancário

Os custos administrativos e a inadimplência têm maior peso do que os tributos e a margem dos bancos no juro elevado das operações de crédito no Brasil. A conclusão consta da tese de doutorado da economista Ana Carla Abrão, da Universidade de São Paulo (USP), que acaba de ser divulgada.
Ana Carla chegou a esses resultados após reavaliar e aperfeiçoar a metodologia usada pelo Banco Central (BC) desde 1999 para dimensionar a composição do spread bancário. O estudo revoluciona o diagnóstico das causas crédito bancário caro e sugere novos caminhos para reduzi-lo.
Pela metodologia original do BC, os principais vilões do spread elevado eram a margem dos bancos, com peso de 38,28%, e a cunha fiscal, com 27,66%. O custo administrativo tinha um peso de 17,21% e a inadimplência, de 16,73%. Mas, explica Ana Carla, o BC levava em conta uma amostra de 17 bancos privados de primeira linha, ignorava o impacto dos compulsórios e avaliava os custos administrativos proporcionalmente à receita bruta gerada pelas operações.
Ana Carla ampliou a amostra de bancos estudados, aplicou a econometria para calcular os custos administrativos e incluiu nas contas o impacto dos compulsórios. A inspiração veio do orientador da tese, Marcos Lisboa, secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, e de Márcio Nakane, também pesquisador do BC e autor de vários estudos sobre o tema.
As conclusões são surpreendentes. O peso dos custos administrativos no spread cobrado pelos 17 bancos originalmente estudados sobe quase oito pontos para 25,44% e chega a 44,37% se a amostra for ampliada para 148 bancos, principalmente por causa do peso dos bancos públicos, disse Ana Carla. Para comprovar a informação, a economista avaliou separadamente bancos públicos e privados, apurando que os custos administrativos representam 80,26% do spread cobrado pelos primeiros e apenas 16,32% pelos segundos.
Já o peso da inadimplência sobe para 23,03% nos mesmos 17 bancos e para 23,86% na amostra ampliada, chegando a 35,01% nos públicos.
Por outro lado, cai muito o peso da margem dos bancos no spread, percentual que os críticos erroneamente classificam como lucro, segundo Ana Carla, que prefere chamá-lo de resíduo dos bancos. A margem despenca 14 pontos para 24,33% na amostra de 17 bancos, para 8,27% na amostra de 184 instituições e chega a ser negativa em 40% nos públicos, sobrecarregados pelo que Ana Carla identifica como “subsídio cruzado inverso” nas volumosas carteiras de crédito direcionado.
A influência dos compulsórios, ignorados na avaliação inicial do BC, é de 10,66% nos 17 bancos e de 7,11% em 148 bancos, sem muitas variações sejam privados ou públicos.
O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Márcio Cypriano, afirmou que o novo estudo deve melhorar a compreensão do público a respeito do custo do crédito, colocando na perspectiva correta a influência da margem e dos demais componentes do spread. Cypriano concordou que os custos administrativos dos bancos são elevados. “Os bancos gastam anualmente R$ 1 bilhão em segurança e R$ 3 bilhões na movimentação de numerário. Tudo isso acaba influindo. Mas os bancos vêm trabalhando firmemente para melhorar a eficiência”, disse Cypriano.
O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal informaram, por meio de suas assessorias de imprensa, que só vão se pronunciar depois de examinarem o estudo com a profundidade necessária. De antemão, porém, o BB declarou que vem obtendo progressos importantes no índice de eficiência nos últimos anos.
Ana Carla afirmou que os bancos brasileiros não deixam de ser lucrativos apesar do elevado custo administrativo das operações de crédito. “Os bancos ganham em outras unidades de negócio como a tesouraria, e com serviços; e cobram alto pelo crédito”, afirmou. O custo administrativo, acrescentou, tende a ser diluído e perder peso relativo com o aumento das operações de crédito, ainda muito acanhadas no Brasil, equivalentes a cerca de 26% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto no Chile o percentual chega a 54%.
A economista afirma que o Brasil está vivendo o momento mais propício para a redução do custo do crédito, desde que o BC começou a estudar o “spread”, há cinco anos. Entre os fatores que devem levar a uma queda da taxa, relacionou a nova central de risco de crédito, a Lei de Falências e a recuperação econômica, que reduz a inadimplência e amplia as carteiras.
Ao apresentar seu estudo quarta-feira à noite em palestra organizada pelo Centro de Estudos em Direito do Ibmec São Paulo (IbmecLaw), dirigido por Jairo Saddi, Ana Carla falou também sobre o papel da concorrência bancária no custo do crédito. “Não há monopólio no setor financeiro, mas ele é oligopolizado. A concorrência influencia algumas linhas”.
Ana Carla, 35 anos, trabalhou durante três anos em sua tese, “Ensaios de microeconomia bancária”, dos quais o tema spread ocupou um ano e meio, ganhando impulso como ela mesma conta a partir do momento em que passou a ser pesquisadora do BC.
Fonte:Valor Econômico – Maria Christina Carvalho e Alex Ribeiro

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Estudo redescobre vilões do spread bancário

Os custos administrativos e a inadimplência têm maior peso do que os tributos e a margem dos bancos no juro elevado das operações de crédito no Brasil. A conclusão consta da tese de doutorado da economista Ana Carla Abrão, da Universidade de São Paulo (USP), que acaba de ser divulgada.

Ana Carla chegou a esses resultados após reavaliar e aperfeiçoar a metodologia usada pelo Banco Central (BC) desde 1999 para dimensionar a composição do spread bancário. O estudo revoluciona o diagnóstico das causas crédito bancário caro e sugere novos caminhos para reduzi-lo.

Pela metodologia original do BC, os principais vilões do spread elevado eram a margem dos bancos, com peso de 38,28%, e a cunha fiscal, com 27,66%. O custo administrativo tinha um peso de 17,21% e a inadimplência, de 16,73%. Mas, explica Ana Carla, o BC levava em conta uma amostra de 17 bancos privados de primeira linha, ignorava o impacto dos compulsórios e avaliava os custos administrativos proporcionalmente à receita bruta gerada pelas operações.

Ana Carla ampliou a amostra de bancos estudados, aplicou a econometria para calcular os custos administrativos e incluiu nas contas o impacto dos compulsórios. A inspiração veio do orientador da tese, Marcos Lisboa, secretário de política econômica do Ministério da Fazenda, e de Márcio Nakane, também pesquisador do BC e autor de vários estudos sobre o tema.

As conclusões são surpreendentes. O peso dos custos administrativos no spread cobrado pelos 17 bancos originalmente estudados sobe quase oito pontos para 25,44% e chega a 44,37% se a amostra for ampliada para 148 bancos, principalmente por causa do peso dos bancos públicos, disse Ana Carla. Para comprovar a informação, a economista avaliou separadamente bancos públicos e privados, apurando que os custos administrativos representam 80,26% do spread cobrado pelos primeiros e apenas 16,32% pelos segundos.

Já o peso da inadimplência sobe para 23,03% nos mesmos 17 bancos e para 23,86% na amostra ampliada, chegando a 35,01% nos públicos.

Por outro lado, cai muito o peso da margem dos bancos no spread, percentual que os críticos erroneamente classificam como lucro, segundo Ana Carla, que prefere chamá-lo de resíduo dos bancos. A margem despenca 14 pontos para 24,33% na amostra de 17 bancos, para 8,27% na amostra de 184 instituições e chega a ser negativa em 40% nos públicos, sobrecarregados pelo que Ana Carla identifica como “subsídio cruzado inverso” nas volumosas carteiras de crédito direcionado.

A influência dos compulsórios, ignorados na avaliação inicial do BC, é de 10,66% nos 17 bancos e de 7,11% em 148 bancos, sem muitas variações sejam privados ou públicos.

O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Márcio Cypriano, afirmou que o novo estudo deve melhorar a compreensão do público a respeito do custo do crédito, colocando na perspectiva correta a influência da margem e dos demais componentes do spread. Cypriano concordou que os custos administrativos dos bancos são elevados. “Os bancos gastam anualmente R$ 1 bilhão em segurança e R$ 3 bilhões na movimentação de numerário. Tudo isso acaba influindo. Mas os bancos vêm trabalhando firmemente para melhorar a eficiência”, disse Cypriano.

O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal informaram, por meio de suas assessorias de imprensa, que só vão se pronunciar depois de examinarem o estudo com a profundidade necessária. De antemão, porém, o BB declarou que vem obtendo progressos importantes no índice de eficiência nos últimos anos.

Ana Carla afirmou que os bancos brasileiros não deixam de ser lucrativos apesar do elevado custo administrativo das operações de crédito. “Os bancos ganham em outras unidades de negócio como a tesouraria, e com serviços; e cobram alto pelo crédito”, afirmou. O custo administrativo, acrescentou, tende a ser diluído e perder peso relativo com o aumento das operações de crédito, ainda muito acanhadas no Brasil, equivalentes a cerca de 26% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto no Chile o percentual chega a 54%.

A economista afirma que o Brasil está vivendo o momento mais propício para a redução do custo do crédito, desde que o BC começou a estudar o “spread”, há cinco anos. Entre os fatores que devem levar a uma queda da taxa, relacionou a nova central de risco de crédito, a Lei de Falências e a recuperação econômica, que reduz a inadimplência e amplia as carteiras.

Ao apresentar seu estudo quarta-feira à noite em palestra organizada pelo Centro de Estudos em Direito do Ibmec São Paulo (IbmecLaw), dirigido por Jairo Saddi, Ana Carla falou também sobre o papel da concorrência bancária no custo do crédito. “Não há monopólio no setor financeiro, mas ele é oligopolizado. A concorrência influencia algumas linhas”.

Ana Carla, 35 anos, trabalhou durante três anos em sua tese, “Ensaios de microeconomia bancária”, dos quais o tema spread ocupou um ano e meio, ganhando impulso como ela mesma conta a partir do momento em que passou a ser pesquisadora do BC.

Fonte:Valor Econômico – Maria Christina Carvalho e Alex Ribeiro

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