(São Paulo) O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou ontem (7) uma suculenta informação sobre as Contas Regionais de 2002 — em especial os PIBs de cada Estado e sua evolução.
Os portalões brasileiros enxergaram no material uma única notícia — que a renda per capita do Rio de Janeiro superou pela primeira vez a de São Paulo, figurando em segundo lugar, logo abaixo de Brasília. É uma pobre garimpagem para a abundância de informações que o IBGE oferece.
As novidades não estão na comparação ano a ano
A rigor, não há maiores motivos para indignação dos paulistas ou celebração dos fluminenses. A renda per capita de São Paulo de fato passa para baixo da do Rio, mas por apenas R$ 8,83 mensais. E as únicas outras mudanças no ranking dos PIBs per capita são o Amazonas, que desplantou o Paraná do sexto lugar para o sétimo, e a Bahia, que passou Pernambuco, ficando com o 17º lugar.
A comparação dos números de 2002 com os de 2001 na verdade oferece interesse mais limitado, já que são hoje dois anos pretéritos, pertencentes ao governo Fernando Henrique Cardoso. E dá margem até a interpretações imprecisas. No ano em exame, o Rio, por exemplo, elevou seu PIB em 4,4%, bem acima da média nacional de 1,9%, especialmente graças ao petróleo (que ajudou o Espírito Santo a subir 6%). Mas, em um prazo mais dilatado, trata-se de uma recuperação, e ainda modesta, de uma economia estadual que vem perdendo terreno nas últimas quatro décadas.
As décadas perdidas não o foram por igual
É quando se examina um período mais dilatado, de 1985 a 2002 (17 anos) que os números do IBGE jogam mais luz sobre a evolução recente da economia brasileira — e também da sociedade brasileira. Veja a tabela ao lado. A fase pertence às chamadas décadas perdidas, mas uma análise dos resultados estaduais mostra que elas não foram perdidas de maneira idêntica por todos.
Os números da tabela mostram também que o período — conhecido por manter e exacerbar obscenos índices de concentração social de renda —, foi mais benigno no que se refere à concentração geográfica da renda no Brasil.
É verdade que o Nordeste cresceu menos que a média nacional — 51% contra 53%. Oscilou para baixo, portanto, a principal disparidade regional brasileira. A melhor renda per capita nordestina — a de Sergipe (R$ 5.082 anuais em 2002) é a 14ª do Brasil. Estados do Nordeste ocupam sete das dez piores colocações na renda per capita. O cidadão do Maranhão, último colocado (R$ 1.949 anuais), ganha em média um oitavo do seu compatriota brasiliense, ou um sexto do fluminense ou do paulista.
Desigualdades que se reduzem
Mas, ao lado dessa persistência perversa, constata-se duas tendências gerais que confluem para reduzir algumas das desigualdades regionais brasileiras.
De um lado, os Estados mais ricos (ou menos pobres, se preferir) não ampliaram, mas reduziram suas vantagens em relação ao resto do Brasil. Das quatro maiores rendas per capita, apenas o Distrito Federal (um caso à parte, e que nem Estado é) teve um crescimento do PIB acima da média nacional: 69%. O Rio de Janeiro cresceu modestíssimos 33% nestes 17 anos. São Paulo, embora se mantendo como o maior PIB estadual, também cresceu abaixo da média: 37%. Idem, embora de forma menos acentuada, para o Rio Grande do Sul: 45%.
Economias estaduais emergentes
A outra tendência foi o surgimento de um conjunto de economias estaduais emergentes no Norte e no Centro-Oeste. O Mato Grosso, recordista do período, teve seu PIB elevado em 258% no período. O Amazonas, segundo colocado, cresceu 248%. São economias ainda reduzidas em termos absolutos (confira no mapa): o PIB somado de todo o Nordeste, mais o Norte e o Centro-Oeste, não chega à metade de São Paulo.
Mas já foi pior. Em 1985, primeiro ano de referência dos números do IBGE, São Paulo sozinho possuía 42,4% do PIB nacional; 17 anos depois, em 2002, recuara para 32,6%. É uma concentração geográfica ainda grande, mas declinante. Em contrapartida, nesses 17 anos o Mato Grosso saltou do 21º para o 15º lugar no ranking dos PIBs estaduais. E os números regionais de 2003 e 2004 parecem dar continuidade a esta tendência.
Fonte: Bernardo Joffily – Portal Vermelho
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