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Campanha provoca brasileiro a refletir sobre seu racismo

O projeto “Onde você guarda o seu racismo?” quer estimular o debate e a reflexão pessoal sobre o tema como forma de combate ao preconceito. Cerca de 87% dos brasileiros acreditam que há racismo no país, mas somente 4% se reconhecem racistas.

São Paulo – A desigualdade socioeconômica entre negros e brancos permanece enorme mais de um século após a abolição da escravatura. Em 2001, caso fosse feito um recorte racial no Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH da população negra equivaleria à 107ª posição e o da branca, à 46ª posição, entre 175 países. Enquanto 11% dos brancos já completaram o ensino superior no país, apenas 2,6% dos negros chegaram a tanto. No Brasil, 7,5% dos brancos são analfabetos, ao passo que 20% dos afrodescendentes estão na mesma condição. Além disso, mesmo quando têm igual escolaridade, os negros continuam ganhando salários mais baixos.

O preconceito e a discriminação racial são alguns dos responsáveis pela perpetuação dessa desigualdade. Por mais que grande parte das pessoas negue a existência do racismo, ele está presente na sociedade brasileira, muitas vezes de forma velada. Admitir que ele existe é o primeiro passo para combatê-lo. Para estimular a reflexão e o debate sobre essa questão e levar as pessoas a reconhecerem a presença do racismo em suas atitudes, foi lançada, nesta terça-feira (14), no Rio de Janeiro, a campanha nacional “Onde você guarda o seu racismo?”, organizada pelo grupo Diálogos contra o Racismo, que reúne mais de quarenta organizações da sociedade civil.

A campanha tomou como ponto de partida uma pesquisa de opinião realizada pela Fundação Perseu Abramo em 2003. Ela revela que 87% dos brasileiros acreditam que há racismo no Brasil. No entanto, somente 4% dos mesmos entrevistados reconhecem que são racistas. A pergunta que dá nome à campanha foi a forma encontrada de motivar a população a falar sobre o tema. “Testamos várias questões antes e a atitude das pessoas era sempre defensiva. Com a pergunta formulada desse jeito, todo mundo pára, reflete e tenta localizar onde está seu racismo. Ela abre a possibilidade do diálogo”, acredita Guacira César de Oliveira, da coordenação executiva da Articulação de Mulheres Brasileiras, que integra o grupo Diálogos contra o Racismo.

“Há toda uma gama possível de situações por onde o racismo transborda e escapa de diferentes maneiras. Existe um consentimento em relação à situação em que a população negra se encontra. Como o racismo está guardado, ninguém se indigna com a situação de injustiça e desigualdade que a população negra se encontra há anos”, afirma Guacira. Segundo ela, desde a época da escravidão, a desigualdade continua no mesmo patamar, “o fosso é da mesma largura e profundidade”. Ela acredita que se o racismo não fosse escondido, guardado, e naturalizado, a situação não teria se mantido.

“As pessoas sabem que o preconceito racial provoca muita dor, por isso não admitem que cada um de nós é instrumento do racismo”, diz Fernanda Carvalho, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). Um dado que ela considera muito chocante na questão do racismo é que apenas 12% das mulheres negras recebem anestesia durante o parto, enquanto entre as brancas, o índice chega a 94%. “Como explicar essa diferença?”, questiona. Segundo ela, os médicos consideram natural que as mulheres negras sintam menos dor. São atitudes automáticas e inconscientes como essa, interiorizadas no comportamento da população brasileira, que compõem o racismo da nossa sociedade.

Um problema de todos

Para a realização da campanha, foram gravadas cerca de 300 entrevistas pelas ruas do Rio de Janeiro. As respostas a essa pergunta foram as mais variadas. Algumas pessoas disseram que escondem seu preconceito nas piadas racistas, nas relações sexuais, em expressões da língua, em reações instintivas, no medo da violência, na pele, na herança da cultura e até na história familiar. Outras disseram que não sabem exatamente onde, mas sabem que existe um fundo de racismo em suas atitudes. Alguns entrevistados ainda disseram que não guardam, jogam fora.

As entrevistas serão utilizadas em comerciais de televisão que devem ir ao ar no final de dezembro. A campanha também vai contar com outdoors, busdoors, spots de rádio e uma página de na Internet. A idéia é naturalizar a discussão e conseguir levá-la às empresas, escolas, universidades, famílias e mesas de bar. “O racismo é muito velado, pois as pessoas têm consciência de que é algo negativo. Mas todos temos atitudes racistas, preconceitos guardados que se expressam de alguma forma”, diz Fernanda.

A maior parte das organizações que integram a campanha não faz parte do movimento negro. São entidades do movimento de mulheres, de defesa do meio ambiente, do direito à saúde, à educação, etc. “É essencial que o movimento negro, assim como as outras pessoas, tenham consciência de que enquanto não houver uma atitude pró-ativa dos brancos, o problema não será resolvido. Só teremos uma sociedade justa quando os negros tiverem seus direitos respeitados e garantidos. Atualmente, os brancos não têm direitos, mas privilégios”, afirma Fernanda.

O grupo Diálogos contra o Racismo foi formado em 2001, quando um conjunto de redes e organizações da sociedade civil brasileira tiveram que enfrentar a discussão sobre o tema por conta da III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância, da ONU, realizada em setembro daquele ano em Durban, na África do Sul. As entidades chegaram à conclusão de que o racismo não é um problema apenas do movimento negro, mas de todas as pessoas e organizações. Foi a partir dessa constatação que surgiu a idéia de realizar uma campanha de combate ao racismo.

Fonte: Agência Carta Maior – Fernanda Sucupira

Por 11:27 Notícias

Campanha provoca brasileiro a refletir sobre seu racismo

O projeto “Onde você guarda o seu racismo?” quer estimular o debate e a reflexão pessoal sobre o tema como forma de combate ao preconceito. Cerca de 87% dos brasileiros acreditam que há racismo no país, mas somente 4% se reconhecem racistas.
São Paulo – A desigualdade socioeconômica entre negros e brancos permanece enorme mais de um século após a abolição da escravatura. Em 2001, caso fosse feito um recorte racial no Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH da população negra equivaleria à 107ª posição e o da branca, à 46ª posição, entre 175 países. Enquanto 11% dos brancos já completaram o ensino superior no país, apenas 2,6% dos negros chegaram a tanto. No Brasil, 7,5% dos brancos são analfabetos, ao passo que 20% dos afrodescendentes estão na mesma condição. Além disso, mesmo quando têm igual escolaridade, os negros continuam ganhando salários mais baixos.
O preconceito e a discriminação racial são alguns dos responsáveis pela perpetuação dessa desigualdade. Por mais que grande parte das pessoas negue a existência do racismo, ele está presente na sociedade brasileira, muitas vezes de forma velada. Admitir que ele existe é o primeiro passo para combatê-lo. Para estimular a reflexão e o debate sobre essa questão e levar as pessoas a reconhecerem a presença do racismo em suas atitudes, foi lançada, nesta terça-feira (14), no Rio de Janeiro, a campanha nacional “Onde você guarda o seu racismo?”, organizada pelo grupo Diálogos contra o Racismo, que reúne mais de quarenta organizações da sociedade civil.
A campanha tomou como ponto de partida uma pesquisa de opinião realizada pela Fundação Perseu Abramo em 2003. Ela revela que 87% dos brasileiros acreditam que há racismo no Brasil. No entanto, somente 4% dos mesmos entrevistados reconhecem que são racistas. A pergunta que dá nome à campanha foi a forma encontrada de motivar a população a falar sobre o tema. “Testamos várias questões antes e a atitude das pessoas era sempre defensiva. Com a pergunta formulada desse jeito, todo mundo pára, reflete e tenta localizar onde está seu racismo. Ela abre a possibilidade do diálogo”, acredita Guacira César de Oliveira, da coordenação executiva da Articulação de Mulheres Brasileiras, que integra o grupo Diálogos contra o Racismo.
“Há toda uma gama possível de situações por onde o racismo transborda e escapa de diferentes maneiras. Existe um consentimento em relação à situação em que a população negra se encontra. Como o racismo está guardado, ninguém se indigna com a situação de injustiça e desigualdade que a população negra se encontra há anos”, afirma Guacira. Segundo ela, desde a época da escravidão, a desigualdade continua no mesmo patamar, “o fosso é da mesma largura e profundidade”. Ela acredita que se o racismo não fosse escondido, guardado, e naturalizado, a situação não teria se mantido.
“As pessoas sabem que o preconceito racial provoca muita dor, por isso não admitem que cada um de nós é instrumento do racismo”, diz Fernanda Carvalho, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). Um dado que ela considera muito chocante na questão do racismo é que apenas 12% das mulheres negras recebem anestesia durante o parto, enquanto entre as brancas, o índice chega a 94%. “Como explicar essa diferença?”, questiona. Segundo ela, os médicos consideram natural que as mulheres negras sintam menos dor. São atitudes automáticas e inconscientes como essa, interiorizadas no comportamento da população brasileira, que compõem o racismo da nossa sociedade.
Um problema de todos
Para a realização da campanha, foram gravadas cerca de 300 entrevistas pelas ruas do Rio de Janeiro. As respostas a essa pergunta foram as mais variadas. Algumas pessoas disseram que escondem seu preconceito nas piadas racistas, nas relações sexuais, em expressões da língua, em reações instintivas, no medo da violência, na pele, na herança da cultura e até na história familiar. Outras disseram que não sabem exatamente onde, mas sabem que existe um fundo de racismo em suas atitudes. Alguns entrevistados ainda disseram que não guardam, jogam fora.
As entrevistas serão utilizadas em comerciais de televisão que devem ir ao ar no final de dezembro. A campanha também vai contar com outdoors, busdoors, spots de rádio e uma página de na Internet. A idéia é naturalizar a discussão e conseguir levá-la às empresas, escolas, universidades, famílias e mesas de bar. “O racismo é muito velado, pois as pessoas têm consciência de que é algo negativo. Mas todos temos atitudes racistas, preconceitos guardados que se expressam de alguma forma”, diz Fernanda.
A maior parte das organizações que integram a campanha não faz parte do movimento negro. São entidades do movimento de mulheres, de defesa do meio ambiente, do direito à saúde, à educação, etc. “É essencial que o movimento negro, assim como as outras pessoas, tenham consciência de que enquanto não houver uma atitude pró-ativa dos brancos, o problema não será resolvido. Só teremos uma sociedade justa quando os negros tiverem seus direitos respeitados e garantidos. Atualmente, os brancos não têm direitos, mas privilégios”, afirma Fernanda.
O grupo Diálogos contra o Racismo foi formado em 2001, quando um conjunto de redes e organizações da sociedade civil brasileira tiveram que enfrentar a discussão sobre o tema por conta da III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Conexas de Intolerância, da ONU, realizada em setembro daquele ano em Durban, na África do Sul. As entidades chegaram à conclusão de que o racismo não é um problema apenas do movimento negro, mas de todas as pessoas e organizações. Foi a partir dessa constatação que surgiu a idéia de realizar uma campanha de combate ao racismo.
Fonte: Agência Carta Maior – Fernanda Sucupira

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