Filosofando com Galeano…
A Autoridade
Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. Os homens montavam nas choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles de abrigo.
Assim era a vida entre os índios onas e yanaganes, na terra do fogo, até que um dia os homens mataram todas as mulheres e puseram as mascaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los.
Somente as meninas recém nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir os homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas.
(Eduardo Galeano)
UM POUCO DE BOM HUMOR com Veríssimo…
Conversa entre pai e filho, por volta do ano de
2031, sobre como as mulheres dominaram o mundo.
– Foi assim que tudo aconteceu, meu filho… Elas
planejaram o negócio discretamente, para que não
notássemos. Primeiro elas pediram igualdade entre os
sexos. Os homens, bobos, nem deram muita bola para
isso na ocasião. Parecia brincadeira. Pouco a pouco
elas conquistaram cargos estratégicos: Diretoras de
Orçamento, Empresárias, Chefes de Gabinete, Gerentes
disso ou daquilo.
– E aí, papai?
– Ah, os homens foram muito ingênuos. Enquanto elas
conversavam ao telefone durante horas a fio, eles
pensavam que o assunto fosse telenovela… Triste
engano. De fato, era a rebelião se expandindo nos
inocentes intervalos comerciais. “Oi querida!”, por
exemplo, era a senha que identificava as
líderes. “Celulite”, eram as células que formavam a
organização. Quando elas queriam se referir aos
maridos, diziam “O regime”.
– E vocês? Não perceberam nada?
– Ficávamos jogando futebol no clube, despreocupados.
E o que é pior: continuávamos a ajudá-las quando
pediam. Carregar malas no aeroporto, consertar
torneiras, abrir potes de azeitona, ceder a vez nos
naufrágios. Essas coisas de homem.
– Aí veio o golpe mundial?!?
– Sim o golpe. O estopim foi o episódio Hillary-
Mônica. Uma farsa. Tudo armado para desmoralizar o
homem mais poderoso do mundo. Pegaram-no pelo ponto
fraco, coitado. Já lhe contei, né? A esposa e a
amante, que na TV posavam de rivais eram, no fundo,
cúmplices de uma trama diabólica. Pobre Presidente…
– Como era mesmo o nome dele.
– William, acho. Tinha um apelido, mas esqueci…
Desculpe, filho, já faz tanto tempo…
– Tudo bem, papai. Não tem importância. Continue…
– Naquela manhã a Casa Branca apareceu pintada de cor-
de-rosa. Era o sinal que as mulheres do mundo inteiro
aguardavam. A rebelião tinha sido vitoriosa! Então
elas assumiram o poder em todo o planeta. Aquela torre
do relógio em Londres chamava-se Big-Ben, e não Big-
Betty, como agora… Só os homens disputavam a Copa do
Mundo, sabia? Dia de desfile de moda não era feriado.
Essa Secretária Geral da ONU era uma simples cantora.
Depois trocou o nome, de Madonna para Mandona…
– Pai, conta mais…
– Bem filho… O resto você já sabe. Instituíram o
Robô “Troca-Pneu” como equipamento obrigatório de
todos os carros… A Lei do “Já- Prá-Casa”, proibindo
os homens de tomar cerveja depois do trabalho… E, é
claro, a famigerada semana da TPM, uma vez por mês…
– TPM ???
– Sim, TPM… A Temporada Provável de Mísseis. É
quando elas ficam irritadíssimas e o mundo corre
perigo de confronto nuclear…
– Sinto um frio na barriga só de pensar, pai…
– Sssshhh! Escutei barulho de carro chegando.
Disfarça e continua picando essas batatas…
(Luiz Fernando Veríssimo)
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