O clima de consenso que parecia reinar em torno da Reforma Sindical nos últimos 12 meses de discussão ficou para trás e o governo deverá enfrentar fortes resistências no Congresso. Depois das críticas ácidas de empresários à Proposta de Emenda Constitucional (PEC), ontem foi a vez de parte dos sindicalistas — ligados a PSTU, PSOL e PCdoB — deixar claro que está insatisfeita. Com vaias, palavras de ordem e xingamentos, eles hostilizaram o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, que compareceu à audiência pública para discutir o texto da reforma — considerado conveniente aos patrões pelos manifestantes.
De costas para o ministro no auditório, eles sequer deixaram que Berzoini fizesse sua exposição inicial na Comissão de Trabalho, chamando-o de pelego, mentiroso e traidor. O clima ficou tenso quando deputados do PT, irritados com as ofensas, começaram a bater boca com os sindicalistas.
Berzoini manteve a compostura. Mas recorreu à ironia em alguns momentos, o que irritou ainda mais os sindicalistas. Segundo ele, estiveram presentes apenas entidades contrárias à reforma. CUT e Força Sindical são favoráveis à PEC.
Os sindicalistas presentes argumentaram que não foram ouvidos pelo governo e pediram a retirada da emenda para amplo debate. Segundo eles, a reforma abriria brecha para a flexibilização dos direitos trabalhistas, permitiria que empregados e patrões negociem diretamente no local de trabalho, restringiria o direito de greve e legitimaria a contratação de substituto para grevista, além de excluir o direito de greve dos servidores.
— Essa proposta não fala em garantir empregos. O governo quer é esfacelar trabalhadores e sindicatos. Fizeram o debate entre quatro paredes — disse José Carlos Perret, da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio.
Berzoini rebateu, um a um, os pontos reivindicados, disse que acredita na reforma sindical e que ela não abre brecha para a flexibilização dos direitos trabalhistas nem revitaliza a tutela do Estado. Usou como argumento o fato de os empresários estarem criticando a reforma.
Mais tarde, no ministério, disse que está disposto a dar “cara a tapa”:
— Não tenho nenhum constrangimento. Acho que é tarefa dos ministros defender os projetos do governo.
Berzoini ressaltou que os sindicatos que agem de forma truculenta, são uma minoria que não quer abrir mão do imposto sindical obrigatório. Ele admitiu que os industriais estão mudando de posição em relação à reforma, embora tenham participado das discussões no Fórum Nacional do Trabalho.
Apesar da pressão dos empresários para fazer mudanças na legislação trabalhista — posição defendida anteontem pela Fiesp — Berzoini afirmou:
— O governo não vai apressar, nem antecipar a reforma trabalhista. Vai depender das partes — disse, acrescentando que se os empresários mantiverem postura radical na reforma sindical, os trabalhadores vão endurecer em negociações para mudar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Fonte: O Globo – Isabel Braga e Geralda Doca
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