Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos! A célebre frase de Stanislaw Ponte Preta soa ao mesmo tempo como galhofa e chicote. Afinal, como admitir que um diminuto colégio de líderes parlamentares possa, em meio ao espírito natalino, deliberar por um aumento de 90,7% a deputados e senadores, enquanto inviabiliza o reajuste do salário mínimo para R$ 420,00, negando melhoria das condições de vida a mais de 40 milhões de brasileiros?
Cobrando “vergonha na cara e respeito ao povo brasileiro”, a Central Única dos Trabalhadores começou a tomar as principais praças e pontos de concentração popular do país com milhares de abaixo-assinados contra “tamanha insensibilidade e cobiça”, que apenas “incentiva o achincalhamento das instituições democráticas”. Conforme a Central, “somente os recursos que os parlamentares querem para si próprios possibilitariam R$ 10,00 a mais no salário mìnimo”.
Nesta terça-feira (19), ao mesmo tempo em que o Supremo Tribunal Federal avaliava se as mesas diretoras da Câmara e do Senado tinham poderes para outorgar aumentos aos congressistas – o que acabou derrubando o abuso -, no centro da capital paulista, na Praça do Patriarca, uma manifestação convocada pela CUT nacional e estadual, coletou milhares de assinaturas, em meio a aplausos e declarações de protesto da população.
PAPAI NOEL – Ao lado do presidente nacional da CUT, Artur Henrique, e do presidente da CUT-SP, Edilson de Paula, dois papais noéis estampavam o tamanho da desigualdade dos reajustes: o Noel parlamentar, dos 90,7% de aumento, medindo 1,94 metro e 145 quilos; o Noel trabalhador, dos 8%, com seus míseros 1,5 metro e 50 quilos.
“Os trabalhadores querem ser ouvidos e a CUT está sendo porta voz da indignação da sociedade brasileira. É inadmissível que meia dúzia de parlamentares se auto-conceda um aumento, que acaba tendo efeito cascata sobre as Assembléias e Câmaras Municipais, enquanto não é votada uma política de valorização do salário mínimo. É preciso que o Colégio de Líderes volte atrás e dê outra solução, pois precisamos de uma país com melhor distribuição de renda”, declarou Artur. Segundo o presidente nacional da CUT, o objetivo da entidade é coletar mais de um milhão de assinaturas para pressionar o executivo, o legislativo e o judiciário a fim de que haja prioridade social no Orçamento público. “Queremos que este clima de revolta popular contra esse abuso se transforme em pressão pelo aumento do salário mínimo para R$ 420,00 e o reajuste de 7,7% na tabela do Imposto de Renda”, acrescentou.
A decisão dos deputados federais e senadores, alertou Artur, tem um efeito cascata sobre os salários pagos pelas Assembléias Legislativas, onde um deputado estadual recebe valor correspondente a 75% dos federais. Enquanto isso, alerta o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), entre 271 categorias profissionais pesquisadas, apenas duas tiveram reajuste salarial acima de 5% acima da inflação; 43,2% tiveram aumento entre 0,01% e 1%, e 31,1% ficaram entre 1,1% e 2% de aumento real.
Para o presidente da CUT-SP, Edilson de Paula, “uma tomada de decisão como essa dos parlamentares, às vésperas do Natal, é de uma profunda insensibilidade e está colhendo agora a indignação da sociedade contra este aumento absurdo”.
Após assinar o documento da CUT, a estudante Érica Brasil parabenizou a entidade pela iniciativa: “estamos dizendo um não contra essa loucura dos deputados e senadores que deveriam pensar em como aplicar esses recursos em investimentos na saúde e na educação, na melhoria dos salários, num país mais justo”. Para Cláudio Spoladori, profissional do setor de eventos, sua assinatura “é uma marca contra a vergonha e por um país sem tanta desigualdade”.
Por Leonardo Wexell Severo.
Publicada em: 19/12/2006 às 17:38 Seção: Todas as Notícias do sítio www.cut.org.br.
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