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Produção de Energia no Brasil e as prioridades de Bush

Muito mais rápido do que se poderia imaginar, o governo Bush reagiu às conclusões do IV Relatório Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – que afirmou de maneira enfática a responsabilidade humana sobre a geração do efeito estufa e de suas catastróficas conseqüências. Os Estados Unidos, como grandes vilões dessa situação – omissos na aceitação do tratado de Kioto -, saíram rapidamente a anunciar metas imediatas de redução da emissão de carbono na atmosfera, tendo por compromisso a substituição do consumo automotivo da gasolina pelo álcool (etanol). Note-se que não se mexe no padrão de consumo, mas se transfere para uma outra fonte de energia – o álcool – a responsabilidade por reduzir as emissões norte-americanas de carbono na atmosfera.

A visita do Bush ao Brasil trouxe acenos à conclusão de acordos de longo prazo para grandes importações de álcool do Brasil – o que imediatamente disparou no circuito sucro-alcooleiro do agronegócio uma desmesurada euforia, previamente já calibrada pelas negociações com o Japão e com a Comunidade Européia na mesma direção.

Na verdade, a ofensiva diplomática de Bush – que, de resto, nada de concreto ainda acertou – deixou transitoriamente eufóricos os conservadores de todas os matizes, ávidos por voltar a transformar o Brasil num imenso canavial exportador de álcool para o primeiro mundo.

Não se perguntam sobre a viabilidade econômica, ambiental, agrária e social dessa estratégia. Parece que se tenta criar um ambiente em que é proibido pensar, visto que tudo parece tão óbvio e determinado, que qualquer ponderação argumentativa é logo desqualificada pelos formadores de opinião.

Em primeiro lugar, precisamos lembrar ao público que, atingida a auto-suficiência em petróleo, há uma prioridade nº 1 no Programa de Aceleração do Crescimento para geração de energia elétrica – hidroelétrica, estruturalmente, e termoelétrica, em termos complementares, sem o que, não apenas o PAC, como o país inteiro, corre risco do apagão. Introduzir uma meta de exportação de álcool para atender primordialmente a uma demanda externa, cuja dimensão pode atingir várias vezes a nossa produção atual de 18,0 bilhões de litros por ano, é algo muito sério para ser tratado como assunto a ser equacionado pelos mercados.

Recorde-se que o ponto inicial da explosão dessa demanda por álcool é a escassez do petróleo, combinada com os problemas ambientais do efeito estufa. O problema da produção mega industrial do álcool-combustível é precisamente o caráter não industrial dessa produção – o seus pés de barro.

Os efeitos predatórios sobre os recursos não renováveis de solo, recursos hídricos e biodiversidade, associados a uma matriz de alta concentração fundiária e muito baixa incorporação de trabalho, convertem a opção álcool como carro-chefe da agricultura num mergulho profundo no que há mais atrasado no agronegócio brasileiro: a reprodução de relações fundiárias, ambientais e trabalhistas incivilizadas, vis-à-vis uma enorme concentração de riqueza na sociedade.

A “commoditização” do álcool e a internacionalização do seu comércio, segundo os critérios da economia política do Império, como querem os corifeus do agronegócio brasileiro, não é nenhuma “janela de oportunidades” ao futuro, mas um mergulho profundo no que já de mais atrasado no nosso passado. Agrava nossa questão agrária, compete com a produção de alimentos e, muito provavelmente, repõe o efeito-estufa e outros problemas ambientais decorrentes do aumento da entropia na produção agrícola a níveis extremos.

Por Guilherme C. Delgado, que é economista do IPEA, e é membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.correiocidadania.com.br.

Por 21:05 Notícias

Produção de Energia no Brasil e as prioridades de Bush

Muito mais rápido do que se poderia imaginar, o governo Bush reagiu às conclusões do IV Relatório Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – que afirmou de maneira enfática a responsabilidade humana sobre a geração do efeito estufa e de suas catastróficas conseqüências. Os Estados Unidos, como grandes vilões dessa situação – omissos na aceitação do tratado de Kioto -, saíram rapidamente a anunciar metas imediatas de redução da emissão de carbono na atmosfera, tendo por compromisso a substituição do consumo automotivo da gasolina pelo álcool (etanol). Note-se que não se mexe no padrão de consumo, mas se transfere para uma outra fonte de energia – o álcool – a responsabilidade por reduzir as emissões norte-americanas de carbono na atmosfera.
A visita do Bush ao Brasil trouxe acenos à conclusão de acordos de longo prazo para grandes importações de álcool do Brasil – o que imediatamente disparou no circuito sucro-alcooleiro do agronegócio uma desmesurada euforia, previamente já calibrada pelas negociações com o Japão e com a Comunidade Européia na mesma direção.
Na verdade, a ofensiva diplomática de Bush – que, de resto, nada de concreto ainda acertou – deixou transitoriamente eufóricos os conservadores de todas os matizes, ávidos por voltar a transformar o Brasil num imenso canavial exportador de álcool para o primeiro mundo.
Não se perguntam sobre a viabilidade econômica, ambiental, agrária e social dessa estratégia. Parece que se tenta criar um ambiente em que é proibido pensar, visto que tudo parece tão óbvio e determinado, que qualquer ponderação argumentativa é logo desqualificada pelos formadores de opinião.
Em primeiro lugar, precisamos lembrar ao público que, atingida a auto-suficiência em petróleo, há uma prioridade nº 1 no Programa de Aceleração do Crescimento para geração de energia elétrica – hidroelétrica, estruturalmente, e termoelétrica, em termos complementares, sem o que, não apenas o PAC, como o país inteiro, corre risco do apagão. Introduzir uma meta de exportação de álcool para atender primordialmente a uma demanda externa, cuja dimensão pode atingir várias vezes a nossa produção atual de 18,0 bilhões de litros por ano, é algo muito sério para ser tratado como assunto a ser equacionado pelos mercados.
Recorde-se que o ponto inicial da explosão dessa demanda por álcool é a escassez do petróleo, combinada com os problemas ambientais do efeito estufa. O problema da produção mega industrial do álcool-combustível é precisamente o caráter não industrial dessa produção – o seus pés de barro.
Os efeitos predatórios sobre os recursos não renováveis de solo, recursos hídricos e biodiversidade, associados a uma matriz de alta concentração fundiária e muito baixa incorporação de trabalho, convertem a opção álcool como carro-chefe da agricultura num mergulho profundo no que há mais atrasado no agronegócio brasileiro: a reprodução de relações fundiárias, ambientais e trabalhistas incivilizadas, vis-à-vis uma enorme concentração de riqueza na sociedade.
A “commoditização” do álcool e a internacionalização do seu comércio, segundo os critérios da economia política do Império, como querem os corifeus do agronegócio brasileiro, não é nenhuma “janela de oportunidades” ao futuro, mas um mergulho profundo no que já de mais atrasado no nosso passado. Agrava nossa questão agrária, compete com a produção de alimentos e, muito provavelmente, repõe o efeito-estufa e outros problemas ambientais decorrentes do aumento da entropia na produção agrícola a níveis extremos.
Por Guilherme C. Delgado, que é economista do IPEA, e é membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.correiocidadania.com.br.

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