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Empregos errantes: os primórdios da Divisão Internacional do Trabalho; terceiro texto da série Fixo, errante ou fragmentado: Trabalho, Identidade e Divisão Espacial do Trabalho na Cidade do Século XXI

Do meio dos anos setenta em diante, quando as fábricas começaram a fechar, foram os trabalhadores imigrantes da Ásia do Sul, no Norte do Reino Unido; do norte da África, na França; da Turquia, na Alemanha; da América Hispânica, nos Estados Unidos; e da Coréia, no Japão, que suportaram a dureza dessa derrocada.

A divisão internacional do trabalho não é nova. As regiões comercializaram entre si seus produtos desde o início dos tempos históricos e saquear outras partes do mundo em busca de matéria-prima ou trabalho escravo é tão velho, pelo menos quanto o colonialismo. No final do século XIX, o Império Britânico exibia um padrão altamente desenvolvido de especialização industrial regional, articulado em rede mundial de comércio. O século XX viu corporações multinacionais operarem com crescente independência em relação aos interesses dos Estados-nacão que as sediavam, anunciando o período posterior à segunda guerra mundial, caracterizado por Baran e Sweezy como “capitalismo monopolista”.

Nos anos 1970, ficou claro que uma nova divisão internacional do trabalho estava surgindo na indústria manufatureira, com companhias fragmentando seus processos de produção em subprocessos separados e distribuindo essas atividades ao redor do globo, onde quer que as condições fossem mais favoráveis. Essas tendências continuaram nos anos 1980 em relação a indústrias tão diversas quanto vestuário, eletrônica e automobilística. Unidades de produção emigraram para longe das economias desenvolvidas em razão de seus custos mais elevados de mão-de-obra e fortes controles ambientais, em busca de países em desenvolvimento e muitas vezes de “zonas de livre comércio”, onde incentivos fiscais eram oferecidos e onde as regulamentações do trabalho e do meio ambiente foram suspensas no esforço de atrair ao máximo o investimento direto estrangeiro.

Os trabalhadores nessas regiões eram desproporcionalmente jovens e mulheres recebiam salários abaixo do nível de subsistência. Entretanto, apesar de serem mulheres e muito jovens, esses trabalhadores não ficaram passivos e muitos se organizaram para melhorar sua sorte. Esse é um dos motivos pelos quais algumas regiões antes consideradas de baixos salários, por exemplo, o sudeste da Ásia e a América Central, são hoje vistas como de salários relativamente altos, e as companhias as deixaram para explorar forças de trabalho ainda mais baratas, como na China, na África Subsaariana e outras partes da América Latina.

Não é preciso dizer que essa mudança teve impactos dramáticos tanto nas cidades que perderam como nas que ganharam postos de trabalho fabris. Nas regiões cujas economias dependiam da manufatura para exportação, tais como as “maquiladoras” do México ou a região Metro Manila nas Filipinas, surgiram grandes bairros populares, muitas vezes em áreas altamente poluídas. Essas áreas atraem trabalhadores das proximidades rurais empobrecidas e, nesse processo, criam novos mercados urbanos para produtos e serviços e novas demandas por infra-estrutura e moradia, freqüentemente inadequadas.

Nos países desenvolvidos, cidades que haviam crescido como centros manufatureiros no século XIX e começo do XX tiveram de transformar-se em centros de serviço ou decair como verdadeiros “cinturões de ferrugem”, com alto desemprego, shopping centers vazios, criminalidade crescente e serviços públicos deteriorados. Em muitos casos, não foi do dia para a noite que essas cidades se transformaram de grandes empregadoras de trabalhadores fixos organizados em cidades cheias de terrenos baldios, de fábricas e depósitos fechados. Houve um período de transição durante o qual o trabalho foi automatizado, simplificado e barateado. Durante o período de prosperidade nos países desenvolvidos, entre 1950 e metade de 1970, essas cidades importaram força de trabalho para executar serviços que já não eram atraentes para a população local.

Do meio dos anos setenta em diante, quando as fábricas começaram a fechar, foram esses trabalhadores imigrantes da Ásia do Sul, no Norte do Reino Unido; do norte da África, na França; da Turquia, na Alemanha; da América Hispânica, nos Estados Unidos; e da Coréia, no Japão, que suportaram a dureza dessa derrocada. Tensões étnicas acrescentaram-se à fermentação da decadência nas áreas do “cinturão de ferrugem”.

Por URSULA HUWS, que é associada ao Instituto de Estudos sobre o Emprego e professora visitante do Instituto Internacional de Estudos do Trabalho da London Metropolitan University.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.correiocidadania.com.br.

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