A presente crise é muito grande, lembrando a de 1929. Isto não é casual. Diferentemente das crises intermitentes do capitalismo internacional, a atual está fortemente vinculada ao avanço neoliberal e a globalização sem precedentes das economias da face da terra. Jamais teria ganho esta dimensão sem estes fatos.
A crise de 1929 foi de superprodução industrial e agrária. A de 2008 está sendo, fundamentalmente, financeira. O que ocorreu em 1929 foi a bancarrota dos preços das mercadorias mais vendidas na época, levando ao fechamento de fábricas, falência de negócios rurais, desvalorização brutal das ações das empresas, diminuição das exportações e das importações. O café vindo do Brasil, em um exemplo dos restos coloniais das economias dos países pobres, permaneceu estocado nos armazéns dos maiores portos do país. Não havia mais quem o quisesse. A solução dada por Getúlio Vargas foi a de queimá-lo, buscando-se a revalorização do produto por meio da escassez produzida artificialmente. A questão da exportação cafeeira levou anos para ser resolvida e jamais voltou a ser do mesmo jeito.
O mercado liberal, das primeiras décadas do século XX, sem quaisquer travas, produzia sem considerar os limites dos potenciais compradores. A economia dos países capitalistas, que funcionava sem planejamento e auto-regulada pelas forças de mercado, ruiu em dias, levando anos para se recompor. Os efeitos foram diferentes de país para país. O denominador comum foi o aumento dos problemas sociais e da crise política, com desdobramentos específicos. O desemprego de milhões foi conhecido por toda parte, bem como a intensa agitação política, baseada na busca popular de alternativas.
O fato de a União Soviética ter passado pela crise sem maiores danos, a fortaleceu no cenário internacional, transformando o país em uma referência mundial frente à possibilidade de se viver sem os sobressaltos das crises inerentes ao capitalismo. É verdade que pouco se sabia, fora de lá, dos problemas internos do país dos soviets. Havia espaço para se confundir os ideais socialistas universais, com as políticas do primeiro país a viver a experiência duradoura de um regime comunista. As críticas já estavam postas, mas não com a força que se conformariam após a morte de Stalin em 1953.
Na Europa ocidental, a mesma primeira crise econômica mundial fortaleceu os regimes autoritários que construíram Estados fortes que se propunham manter e desenvolver o capitalismo, impedir o avanço do comunismo e organizar a economia com a intervenção estatal, na busca de se evitar as crises liberais. Foram criadas as condições para o desenvolvimento do nazifascismo e de suas variações. Seus líderes jamais foram contra a economia de mercado, ao contrário, tinham uma proposta para a mesma. Esta foi aceita por boa parte da burguesia de cada país que adotou o novo estilo de governar.
Não há registros de nota de uma oposição burguesa industrial sistemática ao nazismo alemão e ao fascismo italiano. Somente quando estes regimes entraram em crise, e que surgiu o apoio a iniciativas de reconstrução liberal. Os homens de negócio viram boas oportunidades na doutrina da morte, da escravidão dos diferentes e do aumento territorial forçado. Adaptaram-se e colaboraram. Nesta nova situação, decretou-se o fim dos Estados liberais, considerados lenientes com a especulação ‘judio-plutocrática’ do capital e, sobretudo, frágeis na luta contra os movimentos dos trabalhadores. Como se sabe, esses regimes foram apeados do poder em 1945, com exceção de alguns países que conseguiram mantê-los em situações excepcionais, notadamente a Espanha e Portugal.
Nos Estados Unidos, na era Roosevelt, experimentou-se o controle efetivo do Estado sobre a economia e a sua regulação baseada nos pressupostos do economista inglês Keynes. Foi inventada uma via entre a proposta socialista russa, a antiga gestão liberal e o nazifascismo. Na Europa ocidental, o keynesianismo demorou a ser implantado por efeito da II Guerra (1939-1945). Esta também originada na retomada capitalista pós-crise de 1929. Os enormes esforços de guerra recuperaram economias ainda abaladas pela crise e levaram o mundo a uma de suas maiores catástrofes modernas, com milhões de mortos e uma destruição física sem precedentes. Entretanto, muitas indústrias se reergueram com os imensos lucros auferidos. Algumas acabaram perdendo por efeito da destruição, outras estão aí até hoje, prósperas e lucrativas.
Após a Guerra, o capitalismo reconstruído na Europa seguiu de perto as idéias de planejamento e organização de Keynes, que, por sua vez, foi influenciado pela experiência dos planos qüinqüenais soviéticos. Estavam lançadas as bases para construção do Estados do Bem-Estar, onde as condições de vida das maiorias estariam mais ou menos salvaguardadas por medidas de controle e de assistência social. Nos países onde este sistema foi implantado, grande parte dos seus trabalhadores passou a ter, pouco a pouco, salários e garantias que jamais tinham conhecido.
Esta estratégia econômica e, ao mesmo tempo, política, funcionou muito bem, durante décadas, na Inglaterra, Alemanha Ocidental, França, países nórdicos, Canadá, Japão e outros. Vem sendo desmontada progressivamente, desde a década de 1980, com maior evidência após a queda real e simbólica do Muro de Berlim. Ainda assim, os países que montaram Estados do Bem-Estar ainda conservam – em crise progressiva – estruturas de proteção ao emprego, à saúde e à educação em níveis variados. Em cada país, forças se opõem tentando manter, diminuir ou destruir as conquistas das gerações anteriores. O que ficou difícil foi ampliá-las, no contexto das últimas décadas.
A crise do socialismo realmente existente, com todos os seus problemas, foi muito ruim para os Estados do Bem-Estar. Isto porque eles perderam uma de suas funções mais importantes, conter o avanço sócio-simbólico do comunismo internacional. A partir deste fato histórico, o que ainda sobrou dos mesmos sustenta-se, sobretudo, na força histórica do movimento social dos trabalhadores de cada país. Nas nações, onde o refluxo deste movimento é maior, como se observa na Itália atual, os prejuízos nas conquistas do passado também o são.
Em países de média industrialização e de economias agrárias de exportação, tais como o Brasil, o Estado do Bem-Estar jamais foi completamente montado. Houve experiências geridas pelo populismo de amortecer alguns aspectos da dura realidade da vida dos trabalhadores pobres. Entretanto, apesar de conquistas sindicais e de medidas estatais de proteção, a regra do pós-Guerra foi a da selvageria, isto é, a de dar algumas vantagens para segmentos, mantendo as maiorias excluídas do acesso às riquezas do país. O ciclo das ditaduras militares recentes, em funcionamento entre os anos sessenta e oitenta, baseadas no capitalismo de Estado, restringiu direitos e tentou conter com a força, qualquer modernização social. Na América Latina, conhece-se bem o problema de estratégias modernizadoras da economia decidida por cima, ao modo prussiano, sem alterar a brutalidade das estruturas sociais.
Nos EUA do pós-Guerra, os princípios keynesianos foram mantidos de modo mais relativo, importando mais o imenso desenvolvimento da economia do país que alcançou, com os resultados do último conflito mundial, a situação de potência hegemônica. De qualquer modo, foi dado ao povo norte-americano, excluindo-se as suas imensas ‘minorias’ mais espoliadas, um padrão de vida invejável, se comparado às possibilidades dos povos das nações menos ou não-industrializadas. É desta realidade que surgiu a idéia do sonho americano e o desejo de gente de toda parte migrar para lá. Este sonho, agora esfacelado pela história, deverá provocar imensas mudanças.
O mundo assolado pela atual crise é muito mais integrado do que em 1929. Naquela época, os efeitos da crise da bolsa de Nova York foram sentidos fortemente no Brasil, Hoje, qualquer alteração profunda ou mesmo superficial dos negócios nos países centrais da nova hierarquia global atinge a toda a periferia. Isto coloca a necessidade de se repensar a aceitação de tal integração. Se não é possível imaginar um mundo sem as trocas internacionais, não está determinado que estas trocas sejam guiadas de modo sempre desfavorável entre os centros e as periferias. Se isto ocorre, é que se esquece que a economia sempre acompanhou a política em seus meneios e decisões. Logo, a solução não pode ser estritamente econômica.
Falar sobre a crise de 2008 é, paradoxalmente, bastante difícil, isto porque qualquer previsão sobre o seu desdobramento é passível de se provar rapidamente como incorreta. Está-se, no presente momento, no olho do furacão. Ao contrário dos profetas e adivinhos da mídia, não há como saber que já se chegou ao fim do poço e quais serão os possíveis desdobramentos. Não há o distanciamento necessário para se saber o que irá de fato acontecer. Curiosamente, tem muita gente marcando data e descrevendo, sem medo de errar, o que sucederá. A verdade é que não existem parâmetros confiáveis para se prever com exatidão o que virá. Isto nunca impediu a futurologia, que consiste em uma das peças de retórica do universo midiático contemporâneo.
Do mirante disponível, pode-se perceber alguns aspectos e problemas que remetem, sobretudo, as crenças e teorias sobre as possibilidades da humanidade na atual fase da modernidade. Isto porque esta crise comprova a idéia de que a modernidade não terminou o seu ciclo. Continua-se a se viver sobre o seu signo, em uma nova etapa. A idéia de modernidade, anunciada no século XIX, jamais significou que se havia resolvido os problemas humanos. Entretanto, ela indicou que era possível imaginar um mundo sem fome, elevados níveis de ignorância, desemprego e injustiças sociais. A possibilidade moderna de se construir um mundo, assim, continua dada e a ser buscada pelas mulheres e os homens de boa vontade.
É preciso repetir que a história não acabou. Dizer que o passado continua assombrando o mundo dos vivos e que qualquer mudança deverá surgir da compreensão nítida do que se passou e se está passando. Nada poder-se-á propor de substantivo, a partir da insistência de se continuar o procedimento de achar que é tudo igual, que se trata de uma tabula rasa onde tudo se repete melancolicamente. As contradições da história continuam aí para quem quiser vê-las.
A crise de 2008 é diferente da de 1929. Ambas referem-se a etapas distintas da evolução do capitalismo. O que se superproduziu, presentemente, foi o crédito. O mundo das finanças, através de ‘mágicas’ monetárias, emprestou mais do que podia, pensando que de algum modo sempre lucraria. Os bancos ‘alavancaram’ o que tinham em caixa sem imaginar o fantasma da inadimplência e a possibilidade do calote. Os cidadãos, transformados em consumidores, não compreenderam que perderiam seus direitos de cidadania, se acreditassem piamente nos que lhes emprestavam. As mídias têm publicado os casos dramáticos dos que, nos EUA, saíram de suas casas para morar nos seus automóveis.
O sistema estimulou fortemente o consumo de bens duráveis, sempre os de mais difícil aquisição para as maiorias. A publicidade disse a todos que eles só seriam cidadãos completos, se tivessem acesso a estes bens. Na origem da crise, tem-se o endividamento de milhões numa ponta, e na outra o desemprego de outros tantos milhões, os juros e a ganância do sistema. É verdade que atrás da superprodução do crédito existia e ainda existe a superprodução de bens a serem escoados. Em um círculo vicioso, produziram-se mais casas nos EUA do que possíveis compradores, pelo menos dentro das regras financeiras do sistema.
Mas a crise não se resume apenas ao problema imobiliário norte-americano. Vários outros problemas estão em tela, normalmente ‘esquecidos’ pelas mídias. Os especuladores levantaram até as nuvens os preços das mercadorias (commodities) de maior curso internacional. Levaram o petróleo, o milho, o ferro, o café etc às alturas. Contaram com os financiamentos internacionais para sustentar preços absurdos, mudados da noite para o dia. Não lembraram que havia limites e que tais preços iriam acabar desabando, por ausência de compradores reais. Processo similar foi usado com os tais dos ativos financeiros. Especulou-se, por exemplo, com os preços das ações, acreditando que nem o céu é o limite. No passo seguinte, a velha lei da oferta e da procura se restabeleceu, gerando o atual caos, representado, como em 1929, pela crise das bolsas de valores.
Na década de 1920, o protagonismo do sistema dos países centrais era dado à indústria. Nos países mais ricos, vivia-se em pleno capitalismo industrial. Hoje, as cartas são dadas pelos bancos. A intensa financeirização das economias está na raiz dos problemas vividos. As decisões mais significativas da política econômica vêm sendo tomadas pelos banqueiros, que, em várias situações, são também os donos diretos e indiretos da indústria e dos negócios agro-extrativos. Ao pensar nas estruturas produtivas, a partir do dinheiro, os banqueiros facilmente se alienam das bases concretas das riquezas. Esquecem que a mercadoria dinheiro tem uma natureza especial. Como serve para a troca, tem o seu valor determinado pelo conjunto dos valores das demais mercadorias.
A presente crise é muito grande, lembrando a de 1929. Isto não é casual. Diferentemente das crises intermitentes do capitalismo internacional, a atual está fortemente vinculada ao avanço neoliberal e a globalização sem precedentes das economias da face da terra. Jamais teria ganho esta dimensão sem estes fatos. As práticas neoliberais estão por trás de tudo o que está ocorrendo. Urge a criação de defesas contra as mesmas. O tipo de globalização financeira experimentada pelo mundo contemporâneo e a implantação de medidas autoregulatórias dos mercados por toda parte permitem que se compreenda com esta crise vem se espalhando tão facilmente. A construção de diques de proteção consiste em uma das alternativas para proteger países de maiores danos.
Obviamente, inúmeras medidas de Estado podem diminuir os efeitos desta crise. Entretanto, o mais importante é a compreensão dos seus significados e se trabalhar para a construção de um mundo mais justo e equilibrado. A razão instrumental do capital não é capaz de trazer a felicidade para humanidade. Se nada for feito, restará esperar a próxima crise com todo o sofrimento potencializado pelas suas características, como só começamos a assistir.Talvez seja necessário acreditar que os atuais fatos não passarão em branco nas consciências e nos corações do que há de melhor na espécie humana.
Por Luís Carlos Lopes é professor.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.
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Depois de Berlim, Nova York
Gostaria que os tempos fossem bem menos propícios para os especuladores do que para os economistas. Convém escolher com cuidado os vilões. Creio que a lista tenha de começar pelos grandes sacerdotes da religião do deus mercado. Está na moda dizer que os economistas falharam sinistramente nas suas análises. Nem todos.
Indispensável é reservar um capítulo especial para os jornalistas que no Brasil deitam falação sobre economia no vídeo e nas páginas impressas. Nos últimos anos atingiram um grau de prosopopéia nunca dantes navegado. CartaCapital orgulha-se de veicular nesta edição uma sugestão de Nirlando Beirão na sua seção Estilo: que as senhoras e os senhores acima tirem longas férias. E por que não, digo eu, aposentá-los?
Há os vigários e há quem caiu em seu conto. A crise pune os crédulos com ferocidade. Sabemos de antemão que muitos entre os vendedores de fumaça sairão incólumes da monumental enrascada. Como indivíduos, ao menos. E assim caminha a humanidade. Resta o fato, contudo: mais um muro ruiu. O outro muro. Wall em língua inglesa, idioma do império.
Quando o Muro de Berlim caiu debaixo das picaretas libertadoras, há 19 anos, proclamou-se o fracasso do chamado socialismo real. Agora cai o wall nova-iorquino e se busca, em desespero, a reestruturação de um Estado forte depois da ola global das privatizações. Quem fracassa no caso? No mínimo, o capitalismo neoliberal.
Na queda de Berlim, soçobra a URSS. E na queda de Nova York? O império de Tio Sam, descalço, exibe os pés de argila. Dezenove anos atrás não faltou quem, enquanto esfregava as mãos de puro contentamento, decretasse o fim das ideologias, como se não houvesse mais espaço para as idéias. E agora, que dizer? Que o neoliberalismo foi jogada do acaso, despida do apoio de qualquer idéia? Se for assim, concluiremos que resultou de uma soberba insensatez. O que, de alguma forma, faz algum sentido. O monstro criado virou-se contra os criadores. Talvez não passassem de aprendizes de mágico: conhecem o abracadabra desencadeador, mas não sabem pôr fim à magia desastrada.
Falemos do pretenso fim da ideologia. Quem sustenta mostra seus limites. Gostaria de dizer, porém, que antes ainda da idéia vem a ética. É por aí que se abre a chance de sair da selva e escapar às suas leis. É possível o ser ético em um mundo que acentua as desigualdades? Ou aceitar a miséria, a doença, a fome, a degradação humana como coisas da vida?
Cada qual faça suas escolhas ideológicas. Para ficar no campo da economia política, que seja marxista, keynesiano, schumpeteriano etc. etc., desde que o propósito não se limite à garantia da liberdade e busque a igualdade sem o temor do anátema dos donos do poder, que o pretenderá subversivo, terrorista, comunista e por aí afora.
A liberdade sem igualdade tem valor escasso e limites escancarados. Quando, no caso do endeusamento do mercado, não se torna, automaticamente, fator decisivo da desigualdade. Em detrimento do gênero humano em peso. A lição nunca foi tão atual.
Por Mino Carta.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartacapital.com.br.