“Temos uma taxa de juros acima daquilo que o bom senso indica que deveríamos ter”, disse
Em pronunciamento no IX Fórum de Governadores do Nordeste, na terça-feira, em Recife, o presidente Lula criticou as atuais taxas de juros praticadas no país. “Obviamente, que todo mundo sabe que nós temos uma taxa de juros acima daquilo que o bom senso indica que deveríamos ter”, afirmou.
Na semana passada, em reunião ministerial realizada na Granja do Torto, Lula já havia apontado que a política monetária do país precisa ser flexibilizada. “A crise (nos EUA) já acabou com o risco de excesso de demanda para nós”, disse, frisando que “a hora é de investimentos e de crescimento”. Agora, na reunião de Pernambuco, Lula voltou ao assunto: “Está faltando bom senso”.
O presidente fez também uma avaliação das medidas que estão sendo tomadas pelo governo para evitar os reflexos negativos que a crise norte-americana pode trazer para a economia brasileira. Além das ações diretas do governo, ele ressaltou o papel fundamental que os bancos públicos estão cumprindo na garantia de créditos e no fomento às atividades produtivas. “Uma coisa importante que nós temos que reconhecer é que poucos países do mundo têm os bancos públicos que nós temos no Brasil”, disse.
Ele citou como exemplos a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, o BNDES, o BNB (Bando do Nordeste) e o Basa (Banco da Amazônia). “Esses bancos representam praticamente 40% do crédito que nós temos hoje no Brasil. Poucos países do mundo têm isso”, avaliou. Para o presidente, as operações de créditos, momentaneamente afetadas pela falta de liquidez internacional, devem se normalizar o mais rapidamente possível. A ação dos bancos públicos brasileiros, avaliou, dão essa garantia ao país.
Lula criticou a forma como têm sido difundidas no país as notícias sobre a crise internacional, que “começou no coração do sistema capitalista”. Segundo o presidente, estão fazendo muito terrorismo. A recessão dos países ricos, em sua opinião, pode atingir outros países, “mas o Brasil está em boas condições para enfrentar este momento”. “Qual é a vantagem do Brasil? Eu vou dizer da vantagem comparativa do Brasil: é que a China tem… 40% do seu PIB depende das exportações. O Brasil, apenas 13%. Essa é uma vantagem”, avaliou.
Além do peso e do potencial do mercado interno no Brasil, outra vantagem apontada por Lula “é que nós temos um mercado exportador muito diversificado”. “Há dez anos tínhamos praticamente 26% ou 27% da nossa balança comercial com os Estados Unidos, mais ou menos 27% ou 28% com a Europa, um outro tanto com a América Latina”. “Hoje os Estados Unidos, que representavam 27%, representam apenas 14% das nossas exportações. E a Europa representa, possivelmente, 14% ou 15%”, informou.
Estimulando os governadores a manterem os investimentos em seus Estados, Lula garantiu que o governo federal vai seguir investindo. “Vocês todos conhecem a disponibilidade de investimento que tem a Petrobrás. E eu quero dizer para vocês: não haverá diminuição nas obras da Petrobrás em nem um dólar por conta da crise”, afirmou Lula.
“A refinaria do Maranhão, a refinaria do Ceará, a refinaria de Natal, a refinaria de Pernambuco, todas elas serão mantidas. Os contratos que vamos fazer do pré-sal, os contratos que vamos ter para contratação de navios e sondas, vamos continuar fazendo”, assinalou.
Lula continuou criticando os bancos privados que estão recebendo recursos liberados para ativar o crédito, mas ao invés disso estão desviando o dinheiro para a especulação financeira. “Vocês perceberam que agimos prontamente para atender os setores principais da economia brasileira. Mas uma coisa que ainda continua desagradável. É que mesmo disponibilizando essa quantidade de recursos, vocês podem perceber que o dinheiro ainda não chegou na ponta”, avaliou. “Estamos colocando dinheiro para fomentar o crédito e o crédito ainda não tem chegado na ponta do jeito que nós gostaríamos que chegasse”, completou.
“Precisamos desvendar todo e qualquer segredo que tiver na dificuldade de uma obra do PAC e a gente tocar essa obra o mais rápido possível”. “Agora é a hora de trabalharmos com todo o rigor e com toda a ousadia, para não permitirmos que dinheiro que já está disponibilizado para estados e municípios deixe de ser aplicado nas obras, para gerar emprego e renda, e ficar guardado em um banco por ineficiência nossa”, frisou.
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Governador Requião defende na ABI projeto de desenvolvimento nacional:
‘A crise é a grande oportunidade para construir um novo modelo de Estado’
Requião defendeu medidas como a estatização do crédito, investimentos na indústria e na infra-estrutura, a centralização e o controle do câmbio.
“A parte que nos cabe é empreender o nosso próprio projeto de desenvolvimento. Ao tempo em que tomamos medidas que diminuam o impacto da crise sobre nós, devemos desatrelar o nosso destino da globalização neoliberal”, afirmou o governador do Paraná, Roberto Requião, no seminário “Estratégias para o Brasil sair da crise”, realizado na abertura da reunião na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), na terça-feira (2). “A crise é a grande oportunidade para discutir e formular alternativas, para buscar um outro caminho, para construir esse outro caminho. Esta crise tem que nos levar a um novo modelo de Estado. De todo modo, como a crise está aí, devemos pensar o que fazer agora, que medidas para enfrentar, no curto prazo, os efeitos da debacle”, disse o governador paranaense.
Durante o discurso, Requião defendeu medidas como a estatização do crédito, fortes investimentos na indústria e infra-estrutura e a centralização e controle do câmbio. “Uma das barreiras que a globalização capitalista tratou de, primeiramente, pôr no chão, foi o Estado. Desguarnecido de proteções, o Estado – notadamente os do Sul – transformou-se em presa inerme frente ao avanço dos especuladores. Na verdade, não é apenas ao capital financeiro e sua necessidade vital de liberdade de ação que interessa o enfraquecimento do Estado. A internacionalização do neoliberalismo também precisa de Estados débeis, impotentes na defesa dos interesses nacionais e populares, mas fortes na defesa do capital global”, afirmou o governador, que foi convidado pelo presidente da ABI, jornalista Maurício Azêdo, a fazer a primeira palestra do seminário.
MUDANÇAS
“As mudanças que levaram ao fim do Estado de Bem-estar Social tinham um objetivo muito claro: reduzir os comensais à mesa. Afinal, o Estado de Bem-estar Social não deixou de ser um Estado capitalista, uma sociedade de classes, com contradições de classe. E quando o pão tornou-se escasso, findaram-se todas as veleidades distributivistas. Aquela coisa híbrida, um pouco disso e um tanto daquilo, desapareceu e impôs-se a crua realidade de uma sociedade de classes, com cada qual em seu galho. Como dizia Joe, o encanador de McCain, isso de distribuir riquezas é coisa de comunista”, destacou Requião, completando: “Concentrar rendas, cortar gastos com saúde, educação, moradia, reduzir direitos trabalhistas, ou, como dizem eufemisticamente, ‘desregulamentar o trabalho’, aumentar a mais-valia são as defesas do modelo fracassado”.
De acordo com o governador, “em vez de ficar repassando dinheiro para os bancos investirem em Letras do Tesouro, o Estado deve assumir a condução de uma política de financiamento extremamente agressiva, forçando também os bancos a abrirem linhas de crédito para o empresariado brasileiro, especialmente para a indústria”. “Além do mais”, prosseguiu o governador, “condoem-se, apiedam-se dos bancos, ainda que, no terceiro trimestre deste ano, os ganhos de 15 bancos foram superiores aos ganhos de 201 grandes empresas não financeiras. Quando a agiotagem, os juros, a especulação dão mais resultados que a produção é sinal de que alguma coisa não vai bem”.
Em relação ao controle do câmbio, Roberto Requião destacou que “um país que pretenda ser zeloso de sua soberania, senhor de suas decisões na área econômica, não pode deixar o câmbio solto, sem vigilância, submetido aos azares da sorte. Como propõe o professor Lessa: ‘Todas as operações cambiais deveriam ser centralizadas no Banco do Brasil, cabendo ao Banco Central esclarecer as circunstâncias dos fluxos’. O país precisa saber, sua soberania exige que saiba, as condições de todas as operações de câmbio”. O governador também propôs a desoneração do consumo através de “uma reforma tributária que diminua os impostos sobre os bens de consumo que o salário compra”. “É fundamental manter e estimular o consumo, o que significa manter a produção, manter os empregos”.
“Acredito”, declarou Requião, “no entanto, que a crise fortaleça os nossos pontos de vista, o ponto de vista daqueles que estão comprometidos com a vida e o destino de nossa gente, com as pessoas. Se não temos a pretensão de eliminar as desigualdades, nas quadras deste sistema, podemos reduzir essas desigualdades, fazer com que o mundo seja menos áspero, menos brutal”.
USURA
Roberto Requião lembrou que, quando assumiu o governo em 2003, suspendeu o pagamento de contratos que várias estatais paranaenses mantinham com empresas multinacionais, como os contratos entre a Copel e a espanhola Endesa e as norte-americanas El Paso e NRG Energy. “Contratos que, se mantidos, levariam a nossa Copel à insolvência e, na seqüência, certamente, à sua absorção por uma dessas gigantes globais”, disse. “O mundo caiu sobre minha cabeça. À época, éramos todos, os que se opunham ao modelo que o capitalismo globalizava, ‘dinossauros’. Saurisquianos, ornitisquianos, ultrapassados, atrasados, gente que perdera o passo na história, deslocados no tempo, fora de órbita, extintos. Revisar contratos lesivos ao interesse público, afinal, era uma das mais graves heresias contra o ‘modelo’”. “Poucas vezes em minha vida fui tão duramente, desrespeitosamente combatido como naqueles dias. Especialmente por minhas críticas à especulação financeira, à jogatina nas bolsas, à prevalência da usura, da agiotagem sobre a produção, sobre o trabalho”.
“Mas, eis aí esse modelo de capitalismo fazendo água: o molde que tem no capital financeiro, na especulação financeira seu eixo. Que se impôs, sobrepôs, expandiu-se, reinou a partir dos anos 80, os gloriosos anos Reagan-Tatcher. Que se alastrou com velocidade ainda maior com o fim da União Soviética. Na verdade, o modelo já trazia no ventre o DNA da crise. Desde sua concepção e gestação foi uma fraude, um engodo, uma mentira”, afirmou.
“Agora, o agente público está sendo chamado para socorrer o sistema financeiro do colapso em que se encontra, mas a crise é mais séria do que se imaginava. A sociedade capitalista continua dividida em classes sociais, como foi mostrado por Marx e outros pensadores que seguem o materialismo histórico da luta de classes como motor da história”.
Ao finalizar seu discurso no seminário, Requião afirmou que “queria ainda fazer algumas observações sobre o comportamento da nossa mídia diante da crise. Depois de tanto ridículo, de tanto vexame, será preciso?”.
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Taxa de juro é “incompatível com a grandiosidade do Brasil”, diz Alencar
O vice-presidente da República, José Alencar, recebeu alta do Hospital Sírio-Libanês na quarta-feira (03) onde esteve internado desde o dia 29 para tratamento de uma enterite (inflamação no intestino delgado) e voltou a combater os juros altos do Banco Central. “A política de juros altos não vai inibir o consumo daquelas pessoas que, às vezes, nem o essencial pode consumir”, declarou Alencar referindo-se às altas taxas de juros do BC a pretexto de combater a inflação. “A taxa é incompatível com a grandiosidade do Brasil”, completou.
Após explicar que a enterite é um efeito colateral do tratamento de quimioterapia a que se submete para combater um tumor descoberto há dois anos, o vice-presidente voltou a falar sobre os ganhos que o Brasil pode ter com a crise financeira norte-americana, principalmente se fortalecer ainda mais o mercado interno.
“O presidente Lula tem razão quando fala que não podemos deixar cair os movimentos de comércio e de compra porque isso afeta a indústria e afeta o emprego. A crise, de certa forma, é contagiosa. Você fala em crise ela acaba te pegando”, alertou Alencar.
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