LONDRES (Reuters) – O Banco da Inglaterra cortou a taxa de juro em meio ponto percentual para o patamar recorde de baixa de 1,5 por cento nesta quinta-feira, à medida em que a autoridade monetária luta para evitar que a Grã-Bretanha entre em uma longa recessão.
Após a decisão, analistas disseram esperar novo corte na taxa básica de juro no próximo mês.
A taxa de juro britânica já caiu 3,5 pontos percentuais desde outubro do ano passado. Os formuladores de política monetária foram pegos por uma severa desaceleração e decidiram usar todas as ferramentas para reanimar a economia, que encara a primeira recessão desde 1992.
O juro na Grã-Bretanha nunca havia caído abaixo de 2 por cento, nem mesmo durante a Grande Depressão dos anos de 1930, o que ressalta a escala da atual crise que afeta diversas economias no mundo.
O patamar atual do juro na Grã-Bretanha é o menor desde que o banco central foi fundado, há mais de 300 anos.
Nos Estados Unidos, o juro básico está entre 0 e 0,25 por cento.
Economistas disseram que o BC britânico irá cortar o juro novamente no próximo mês e a taxa pode chegar a ficar abaixo do patamar de 1 por cento.
“Eles ainda estão no clima de corte do juro”, disse Alan Clarke, economista para Grã-Bretanha do BNP Paribas.
O Banco da Inglaterra, entretanto, deu poucas pistas sobre qual será seu próximo passo. A autoridade monetária disse apenas que ao mesmo tempo em que a recente desvalorização da libra esterlina e os cortes de juros e impostos irão impulsionar a atividade econômica este ano, ainda há um risco da inflação ficar abaixo de sua meta, a não ser que o juro fique abaixo de 2 por cento.
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Para Mantega, inflação controlada permite queda nos juros
O ministro Guido Mantega (Fazenda) disse nesta sexta-feira (9) que o recuo no índice oficial de inflação, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), registrado em dezembro pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) abre espaço para a redução dos juros no país.
Mantega afirmou também que está “satisfeito” com o fato de o indicador ter fechado 2008 sem estourar a meta de inflação fixada para este ano pelo governo. A meta é de 4,5%, podendo chegar a 6,5% dentro da margem de tolerância. O IPCA ficou em 5,9% no ano passado, acima dos 4,46% observados no ano anterior.
“Eu fiquei muito satisfeito com o resultado do IPCA. Vocês se lembram que eu dizia que a inflação ia ficar dentro das metas. Nós conseguimos manter a inflação de 2008 dentro das metas estabelecidas. Passamos por essa turbulência, pelo choque de commodities, mantendo a inflação sob controle. Isso dá um espaço importante para a redução dos juros no país”, afirmou o ministro.
Ao oficializar a aquisição de parte do Banco Votorantim pelo Banco do Brasil, anunciada hoje pelas duas instituições, o ministro cobrou dos bancos públicos e privados uma redução dos juros.
“O BB tem reduzido sim a taxa de juros dos seus financiamentos e eu estou aqui com dois banqueiros. O mundo todo está reduzindo as taxas de juros. Vocês estão vendo na Inglaterra. É natural e necessário que o Brasil reduza as taxas de juros”, afirmou.
“Vilão” da inflação
Os alimentos exerceram a maior pressão sobre a inflação durante o ano passado e acumularam alta de 11,11%, ante 10,79% constatados em 2007.
Segundo o IBGE, a alta dos alimentos foi resultado, principalmente, dos preços elevados das commodities agrícolas no mercado internacional e pelo aumento da demanda, seja no mercado interno ou no externo. A maior pressão foi verificada no primeiro semestre, quando os alimentos subiram 8,65%. Nos últimos seis meses de 2008, a alta ficou em 2,27%.
Fonte: Folha Online
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Ação do BC provoca queda de 5,2% na produção industrial
Manutenção dos juros altos e propaganda da crise abalaram a indústria em novembro
Como não era difícil prever, a mídia que torce para que a crise norte-americana invada o nosso país comemorou a queda de 5,2% na produção industrial de novembro em relação a do mês anterior. Afinal – dizem esses pensadores sem pensamento – não é essa a prova de que Lula estava errado quando denunciou a campanha pela crise? Não é a prova de que é inevitável o Brasil ser arrastado pela implosão especulativa de Wall Street?
Não, não é.
O resultado industrial de novembro é a consequência direta não da crise externa – ou a demonstração de que é impossível ao Brasil não ser devastado pelo que acontece nos EUA. O que esse resultado mostra é, precisamente, que os juros altos mantidos pelo herói dessa mesma mídia pró-crise, Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, só podem levar ao bloqueio do crescimento. Se em outra situação era possível continuar avançando (isto é, crescendo) mesmo com o freio de mão puxado (isto é, com juros altos), isso não é possível em outra situação.
Realmente, Meirelles tinha de virar o mocinho (cáspite!) dessa mídia. Não existe fator no país que mais nos coloque em risco de crise do que a sua ação no BC. Para quem torce pela crise, é o herói adequado – aliás, tem o físico ideal para o papel: cada um tem o El Cid que merece.
O problema da crise é como enfrentá-la. Já lembramos aqui que o Brasil cresceu durante a crise de 29, assim como na dos anos 70. A crise da matriz imperialista é uma oportunidade para o crescimento dos países da periferia do sistema. Porém, juros extorsivos são o veneno certo para nos intoxicar com ela. No mesmo dia em que o IBGE anunciava o resultado da produção industrial de novembro, os banqueiros norte-americanos reunidos no Fed (um banco central peculiar, pois é uma entidade privada) decidiram que nos próximos meses os juros básicos dos EUA estarão “próximos de zero”. Os rentistas americanos, que fizeram a lambança que resultou na crise de sua economia, sabem que se mantiverem os juros altos – e eles nem eram tão altos assim – irão para o abismo.
ESPECULAÇÃO
No Brasil, o que fez o BC nos últimos meses? Primeiro, diante da escassez de crédito, aumentou a liquidez dos bancos privados, diminuindo o depósito compulsório – o dinheiro que os bancos são obrigados a manter no BC para garantia de suas operações com dinheiro alheio.
No entanto, ao invés de aumentar o volume de recursos destinados ao crédito para empresas e consumidores, os bancos preferiram comprar títulos públicos, ou seja, depredar o Estado através dos juros altos, estabelecidos pelo próprio BC, desses títulos.
Os bancos estavam (e estão) especulando, sem pudor algum, com o dinheiro que havia sido liberado para aumentar o crédito, dinheiro que antes estava retido no Banco Central. Sinteticamente, estavam roubando o Estado com o dinheiro que o Estado havia liberado para que eles aumentassem o crédito ao público.
O BC poderia impedi-los de comprar títulos públicos com esse dinheiro e obrigar a que fosse usado no crédito. Poderia, também, baixar os juros sobre os títulos públicos, o que além de beneficiar a economia em geral, tornaria a especulação, no limite, inviável. Não fez uma coisa nem outra. Pelo contrário, resolveu autorizá-los a continuar a especulação com títulos públicos usando os recursos liberados do compulsório e manteve os juros nas alturas.
Logicamente, o crédito continuou escasso e cada vez mais caro, como constatou, em sua análise do último dia 6, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI).
É óbvio que o BC, que antes da crise norte-americana já não tinha justificativa econômica para manter os maiores juros básicos do mundo, agora tinha menos ainda, com a crise já tendo eclodido, razões para continuar com sua absurda taxa de juros.
Mas foi o que ele fez. As razões tornaram-se, então, evidentemente políticas: acabar com o crescimento propiciado pelo PAC do presidente Lula. As alegadas razões “técnicas” se tornaram um escárnio.
Assim, em setembro de 2008, alguns dias antes da irrupção mais violenta da crise norte-americana, os juros foram aumentados em 0,75 pontos percentuais (de 13% para 13,75%). No mesmo mês, os EUA entraram em virtual falência. Porém, na reunião seguinte do Comitê de Política Monetária do BC, em outubro, a taxa foi mantida em 13,75%. Em dezembro, outra vez ela foi mantida em 13,75%. Isso, frisamos, com a crise norte-americana grassando desde o final do mês de setembro.
Enquanto isso, a mídia pró-crise promovia seu festival de histeria. Nas palavras da análise do IEDI, a expectativa dos empresários – sem crédito, com o BC mantendo os juros no espaço e com a mídia fazendo seu terrorismo – sofreu “um verdadeiro colapso”.
MONOPÓLIOS
Junte-se a isso a ação dos monopólios dentro do país, chantageando para manter e ampliar margens de lucros às custas do Estado e dos trabalhadores – a indústria automobilística, cortando a produção e ameaçando desempregar para, ao final, conseguir uma fenomenal redução no Imposto sobre Produtos Industrializados; a Vale, cortando 30% da produção e pressionando pela suspensão dos direitos trabalhistas.
O resultado da produção industrial de novembro não foi uma catástrofe – apesar de se seguir a outra redução da produção industrial, de 2,8%, em outubro em relação a setembro.
O que ela mostra é a necessidade de uma redução substancial de juros, de garantir o crédito, sobretudo através dos bancos estatais, e de controlar mais severamente os monopólios – antes de tudo o cartel bancário, mas também o da indústria automobilística, a Vale e outros que não se pejam em exercer sua atividade anti-social.
Por Carlos Lopes.
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“Juro é uma questão política e não técnica”, afirma Alencar
O vice-presidente José Alencar criticou, na terça-feira, durante entrevista coletiva em Brasília, a insistência do Banco Central em manter altas as taxas de juros básicas da economia (Selic). Ele denunciou que os juros de Meirelles consumiram R$ 1,3 trilhão dos cofres públicos e disse que esta “é uma questão política e não técnica”. “O Banco Central deveria acatar ordens políticas do governo na hora de decidir o valor da taxa básica de juros”, afirmou.
“Eu não tenho nada contra o Copom (Comitê de Política Monetária), mas eu não quero discutir com ele porque essa não é uma questão técnica, é política. E o que temos que fazer é dar uma ordem ao BC para que pratique uma taxa de juros de mercado. Nem mais, nem menos”, defendeu Alencar.
Ele fez questão de dizer que respeita o presidente do Banco Central, mas que não pode deixar de apontar os erros da política monetária. “Dizem que ele tem os méritos de conter a inflação. O Brasil vai bem apesar da política monetária, não graças à política monetária”, destacou. Para o vice-presidente os cofres públicos são sangrados por conta da dívida. “Eu sempre disse isso, mas nunca escreveram dessa forma. Em oito anos, ela vai consumir mais de R$ 1,3 trilhão dos cofres públicos”, comentou.
Alencar tirou do bolso do paletó uma tabela de uma consultoria econômica para comparar os juros do Brasil com os praticados no resto do mundo. “A taxa média básica de juros reais no mundo é de –0,3%. Nos países desenvolvidos, essa taxa básica média de juros reais é de –0,5%. Nos países emergentes, é de 0%. E no Brasil, a taxa média real dos juros é 8%. Isso é inexplicável”, afirmou.
“Eu não preciso mais falar sobre os juros, porque todo mundo já está reclamando e falando”, disse Alencar. “Os juros no Brasil são uma tribuzana, como dizia papai”, recordou o político mineiro. Segundo o Houaiss, tribuzana é sinônimo de agitação atmosférica violenta, período de agitação violenta, indigestão, confusão, dilúvio, tempestade e incômodo.
Alencar concluiu a entrevista revelando uma conversa que teve com Meirelles na véspera de uma das decisões do Copom. “Ele veio aqui conversar comigo um dia antes de uma reunião do Copom. E, no dia seguinte, aumentou a Selic em meio ponto percentual. Vai ver era para ser 0,25% e depois da conversa virou 0,5%”, ironizou o vice-presidente.
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Trajetória de juros no Brasil contrasta com movimento global de queda
As mais recentes reduções das taxas de juros nas principais economias do mundo fazem do Brasil um caso excepcional no contexto da atual crise global.
Um levantamento feito pela LCA Consultores, com base em 22 países, mostra que 13 deles cortaram a taxa de juros desde a quebra do Lehman Brothers, em meados de setembro.
Nesta semana, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) reúne-se para decidir se altera ou não a taxa básica brasileira, que hoje está em 13,75%. O Brasil tem hoje a maior taxa real do mundo, com 7,85%. O número é resultado da taxa básica, descontada a inflação.
Algumas das economias mais desenvolvidas, como Grã-Bretanha e Suíça, já estão no terceiro corte desde o agravamento da crise, com juros de 2% e 1%, respectivamente. A União Européia reduziu os juros pela quarta vez desde então e está em 2,5%.
O economista-chefe da LCA, Bráulio Borges, diz que a queda dos juros tem sido a regra entre os países ricos por eles estarem sofrendo mais rápida e diretamente o impacto da crise. Muitos já estão oficialmente em recessão, e outros a consideram inevitável.
Juros mais baixos ajudam a impulsionar o crédito e o consumo. Por isso são utilizados como um dos principais instrumentos na recuperação econômica.
“Já o caso brasileiro é diferente”, diz Borges. Segundo ele, o consumo no Brasil ainda está aquecido, o que pressiona os preços para cima.
Apesar de alguns sinais de desaquecimento econômico, sobretudo na produção industrial, o país ainda apresenta um desequilíbrio entre oferta e demanda, de acordo com o economista. Por esse motivo, ele acredita que o BC brasileiro não deve acompanhar a tendência internacional.
“No Brasil, o que dita o comportamento dos juros é a inflação, tanto a atual, como a expectativa. O BC não vai reduzir os juros porque outros países o fizeram”, diz o economista.
Redução
A taxa básica de juros tem sido tema de grandes embates entre especialistas do país. Aqueles que defendem a sua manutenção nos atuais níveis argumentam que a recente valorização do dólar tem forte impacto inflacionário.
Aqueles do outro lado do debate apontam para recentes quedas na demanda interna em alguns setores da economia, como o automobilístico, e na queda do preço das commodities, para mostrar que juros altos podem prejudicar o crescimento brasileiro em tempos de recessão global.
O professor de economia internacional da FGV-Rio, André Nassif, é um dos que apostam na manutenção dos juros, “mas a contragosto”, segundo ele.
“Os preços das commodities estão caindo, o petróleo principalmente. Isso diminuiu a pressão sobre a inflação”, diz. Segundo ele, essa queda de preços no mercado internacional compensaria a recente valorização do dólar, que tem poder inflacionário.
“O Banco Central brasileiro deveria ser mais atrevido e reduzir os juros”, defende o professor.
O economista João Brogger, da Leme Investimentos, também aposta na manutenção da Selic na próxima reunião. Mas, para ele, o BC “já não está apenas olhando para a inflação”.
“Os dados negativos estão vindo mais cedo que se imaginava”, diz Brogger. Segundo ele, o próprio governo, que chegou a minimizar o impacto da crise, está mais consciente do problema.
Diferença
Enquanto a redução dos juros tem sido a regra entre os países ricos, no grupo dos emergentes a tendência já não é tão clara.
O levantamento da LCA mostra que, dos 22 países pesquisados, cinco mantiveram a taxa inalterada desde setembro, e dois deles tiveram de aumentar a dose. Isso sem citar o caso da Hungria, que já aumentou e reduziu os juros desde então.
Enquanto Brasil, Chile, México e África do Sul não mexeram nos juros, China e Índia já estão no quarto e segundo cortes, respectivamente.
O Chile é um dos que sofre com a pressão inflacionária, com índice anual em 8,9%, número muito acima da meta estabelecida pelo governo, de 3%. Na última reunião, o banco central chileno manteve a taxa de juros em 8,25%.
Na China, a inflação deixou de ser um problema para o governo. Em função da crise, os preços caíram drasticamente em outubro, abrindo espaço para a redução dos juros.
Em geral, países com taxas de juros muito acima do praticado em outras economias tendem a atrair capitais. Países como Islândia e Rússia, que dependem fortemente do capital estrangeiro, aumentaram os juros na tentativa de atrair esse investidor.
Na opinião de Nassif, entretanto, essa é uma regra que não funciona em situações de turbulência. “Existe uma crise de confiança no mundo. Por mais que se ofereçam juros altos, o investidor estrangeiro pensará duas vezes.”
Por Fabricia Peixoto – Da BBC Brasil, em Brasília. 08 de dezembro, 2008 – 07h57 GMT (05h57 Brasília)
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Solavancos da sabedoria econômica
“Os fanáticos do livre mercado argumentam que a crise financeira decorre de uma falha dos governos que mantiveram o dinheiro muito barato depois do estouro da bolha tecnológica em 2000. Os mercados teriam sido temporariamente enganados pelos governos. Para dizer pouco, uma defesa ridícula: se os mercados são tão facilmente ludibriados, não podem ser lá muito eficientes.” – Robert Skidelsky na revista Propect, 12/2008
Nos Estados Unidos, desde meados dos anos 90, no terreno fértil das hipóteses fantasiosas sobre as virtudes da Nova Economia medraram previsões majoritárias sobre um crescimento ininterrupto e prolongado.
Primeiro, foram celebrados os ganhos de produtividade proporcionados pelo avanço tecnológico. No período 1996-2000, a economia americana foi, de fato, abalroada por uma onda de inovações que animou os investimentos e estimulou uma forte concentração de capitais – não só na área produtiva, mas também nos bancos e nas finanças. A onda de inovações nucleadas pelas tecnologias de informação e estimuladas pela criatividade financeira excitou a formação de capacidade produtiva e viabilizou ganhos importantes de produtividade. As avaliações favoráveis quanto à evolução dos lucros na Nova Economia deslancharam o crescimento do gasto privado (consumo e investimento) nos novos produtos, amparado na forte expansão do crédito e na conseqüente ampliação das margens de endividamento das famílias e das empresas. As avaliações otimistas engendraram a formação de um processo altista nas bolsas, o que valorizou o balanço das empresas e o patrimônio líquido das famílias, revigorando o gasto privado. As perspectivas de novos ganhos patrimoniais e o crédito abundante impulsionaram as fusões e aquisições e estimularam a recompra de ações; isto, por sua vez, realimentou a capitalização nas bolsas.
No período 1996-2000 a economia real “explodiu”: as empresas e as famílias aumentaram significativamente os gastos acima da renda corrente e as avaliações otimistas acerca dos lucros e dos rendimentos futuros – ainda alentados pelo espetacular desempenho das ações na bolsa de valores e pelo mito da nova economia – levaram o dispêndio privado a exceder a renda corrente. Esta diferença chegou a 6% do PIB no último trimestre de 2000.
No segundo ciclo de expansão – a farra das hipotecas – a construção residencial e a valorização exuberante dos imóveis generalizaram o estímulo ao consumo e o sobre-endividamento para as famílias que não tinham acesso ao mercado de ações. Nas duas etapas da inflação de ativos e de consumismo turbinado, a “poupança externa” dos produtivistas asiáticos fechou a conta, sancionando os déficits privados.
No primeiro episódio da “exuberância irracional”, os ganhos de produtividade – realmente impressionantes – deram força à argumentação de Alan Greenspan, empenhado em justificar a resistência do Fed às sugestões de controle do crédito. No segundo tempo da jornada nas estrelas – o da supervalorização dos imóveis residenciais – outro argumento, já exarado na primeira “bolha”, começou a prevalecer: a chamada Hipótese dos Mercados Eficientes. Formulada nos anos 70 por Eugenio Fama, a hipótese pretendia ensinar que todas as informações relevantes sobre os “fundamentos” da economia estão disponíveis em cada momento para todos os participantes dos mercados que avaliam os títulos de dívida e os direitos de propriedade. Diante das informações existentes, as decisões dos agentes racionais dariam ensejo à melhor estimativa possível sobre os preços dos ativos e, consequentemente, à melhor distribuição possível dos recursos entre os diferentes ativos. Em condições competitivas, não sobrevivem estratégias “ganhadoras” capazes de propiciar resultados acima da média.
A escultura do touro que dá boas vindas aos freqüentadores e visitantes de Wall Street sabe que a Hipótese dos Mercados Eficientes é uma fábula moralista recheada de letras gregas para simular respeitabilidade científica. Com ela, os nefelibatas da academia tratam de explicar aos trouxas que as estripulias bem remuneradas dos criativos rapazes do mercado são “ineficientes” para bater o mercado. Em artigo recente na revista Prospect, Robert Skidelsky, autor da mais completa biografia de Keynes, afirmou que a hipótese dos mercados eficientes “revela a falência intelectual da corrente dominante em economia. Ela não pode prever nem explicar a derrocada financeira porque os economistas acreditam que os mercados são auto-regulados”.
A julgar pelo valor dos bônus, as façanhas dos mercados financeiros têm sido muito úteis para os rapazes do mercado. Também são “eficientes”, se compreendidas tais façanhas em seu papel de impulsionar o “animal spirits” dos possuidores de riqueza na busca de novas oportunidades de lucro. Na economia capitalista moderna, a grande concentração de capital fixo, a competição feroz pela inovação tecnológica incorporada nas novas gerações de bens de produção e de consumo e os instrumentos de alavancagem financeira estão articulados de modo a suscitar o aumento continuado da produtividade social do trabalho.
O processo de reprodução capitalista – em suas indissociáveis dimensões material, financeira e monetária – impôs a dominância do sistema de crédito e dos mercados de avaliação da riqueza – incluído o Banco Central – na hierarquia de poderes que comandam a concorrência entre as empresas. (As inovações financeiras recentes e outras nem tanto são descendentes das técnicas de “alavancagem” dos bancos de depósito e dos procedimentos de repartição do risco).
No capitalismo realmente existente, o jogo da concorrência nos mercados alavancados obriga os gestores da grana e do risco a buscarem o rendimento acima da média, sob pena de serem desbancados pelo rival da esquina. Ligada a ignição da ganância infecciosa, os tripulantes não podem brecar o comboio da alegria. Por isso, no auge da euforia financeira quase todos os agentes estão numa situação Ponzi: se a ciranda pára de rodar, a tigrada quebra. Bernie Madoff não é a exceção, mas o abuso da regra.
Por Luiz Gonzaga Belluzzo, que é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp.
Artigo publicado originalmente no Valor Econômico (06/01/2009)