O aparecimento de novas e sucessivas teses sobre a crise mundial apenas mostra que ela é profunda e continua empanando as visões, tanto dos economistas e ideólogos do capitalismo, quanto de alguns representantes da esquerda. A mais recente é a de que as raízes mais profundas da crise atual residiriam no abandono do modelo econômico e político surgido após a segunda guerra mundial.
Tal modelo teria sido de coordenação de esforços, direcionados à construção de uma ordem mundial equilibrada e de uma economia internacional regulada. A desregulamentação financeira, vigente antes daquela guerra, teria dado lugar ao acordo de Bretton Woods, ao FMI e ao Banco Mundial, as instituições multilaterais que coordenaram as finanças planetárias a partir de então.
A iniqüidade do Tratado de Versalhes, de 1919, teria dado lugar à generosidade do Plano Marshall, de 1946, que reconstruiu a economia européia. O globo teria se unido em torno da ONU, ao mesmo tempo em que teria assistido ao surgimento do Welfare State e da “era de ouro” de um mundo capitalista mais regulado e civilizado.
Tirando a Guerra Fria, a partir de 1946, que dividiu o mundo sob a ameaça da guerra nuclear, e transformou a ONU numa arena. Omitindo a Guerra da Coréia, como tentativa de recuperar a China para o “mundo livre”. Extraindo do mapa a União Soviética e os países socialistas da Europa Oriental, cuja existência forçou não só o Plano Marshall, como o surgimento dos Welfare States na Europa Ocidental.
Excluindo os esforços das antigas potenciais coloniais “civilizadas” para impedir a descolonização dos povos “bárbaros” da África e da Ásia, durante os anos 1950 e 1960, disseminando guerras de baixa intensidade e estimulando golpes e ditaduras militares. Omitindo a segunda guerra do Vietnã, patrocinada pelos Estados Unidos, que só terminou em 1974, com centenas de milhares de mortos.
Ignorando que a “era de ouro” do mundo capitalista coincidiu com uma “era sem precedentes de expansão da miséria”, em grande parte pela ação do FMI e do Banco Mundial, e colocando de lado todos esses fatos históricos, relacionados com o modelo implantado pela superpotência norte-americana após a segunda guerra mundial, fica fácil demonstrar que o mundo atual é mais parecido com o mundo das décadas de 20 e 30 do que com o mundo surgido a partir de 1946.
E não é difícil culpar a desregulamentação econômica dos últimos 20 anos, e a bolha especulativa que teria criado, pelas tensões do planeta, pelo enfraquecimento da ONU e pela ausência de um esforço de regulação econômica e política. E talvez seja até possível levar as pessoas a acreditarem que, sob a hegemonia e o domínio do capital da superpotência americana do norte, todos éramos felizes e não sabíamos.
Mas não é possível esconder que a crise atual do capitalismo, para ser momentaneamente resolvida, não pode mais apelar para a guerra como forma de grande geração de empregos, consumo da produção e enriquecimento de países fabricantes de armas. Ou direcionar bilhões e bilhões de dólares ou euros para irrigar o crédito. Mesmo porque não adianta oferecer crédito ao desemprego. E a guerra tornou-se um desastre, não apenas político, mas também econômico para os que a promovem.
A crise atual, como as anteriores, só pode ser resolvida criando milhões e milhões de empregos e, portanto, recuperando os mercados domésticos. Sem guerra, a burguesia não consegue fazer isso no atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo desenvolvido. Apenas o Estado, através de pesados investimentos em infraestrutura, pode fazê-lo. Em muitos casos, para devolver os ativos criados ao domínio do capital e ingressar numa nova espiral de crise.
Assim, a ironia da história é tão sutil que muitos “sábios” da direita e da esquerda são incapazes de ver que o socialismo está voltando pela porta da frente.
Por Wladimir Pomar, que é escritor e analista político.
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FIESP pressiona por redução de jornada e salários
No artigo publicado pelo Correio em 05/01/09, escrevi prevendo um ano de muitas dificuldades para a classe trabalhadora brasileira. Abordei também as dificuldades que suas organizações terão para enfrentar a crise com uma firme postura de resistência aos ataques do voraz capital sobre seus direitos. Embora tivesse prevenido aos leitores que os dados citados poderiam ser modificados, o que estamos presenciando vem simplesmente confirmar tão amargas perspectivas.
As pesquisas oficiais confirmam que os dados sobre o desemprego nos meses finais do ano de 2008 foram mais elevados que os previstos. E o crescimento do desemprego revela, simultaneamente, que houve achatamento salarial. Enquanto a fala do ministro do trabalho prevê mais demissões em janeiro e fevereiro – que estão acontecendo em ritmo veloz – com retomada dos empregos a partir de março. Apenas uma ressalva à previsão ministerial: não há um dado sequer que possa sugerir que em março haverá crescimento da oferta de vagas. Muito pelo contrário, as empresas forçam para que as centrais sindicais e os sindicatos negociem perda de direitos dos trabalhadores sem nenhuma garantia de emprego em contrapartida. Os representantes oficiais do empresariado, através da imprensa, vêm alertando que a tal crise terá “fôlego de sete gatos”.
A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) não se faz de rogada e cinicamente pressiona sindicatos e governo para que os direitos trabalhistas sejam reduzidos, principalmente a jornada de trabalho, com a respectiva redução dos salários.
São os abutres sobre a carniça social, como já tenho escrito. São verdadeiras hienas sobre os restos mortais das vítimas que o próprio capital vem gerando nessa época neoliberal. E fazem o que sabem muito bem fazer: chantageiam as frágeis direções sindicais – muitas delas corrompidas e vendidas ao capital – com a ameaça e até mesmo com a execução de demissões em larga escala. Fazem chantagem propondo, além da redução da jornada e dos salários, a implantação generalizada dos famigerados “bancos de horas”, uma forma de manter altos seus rendimentos, jogando sempre os “prejuízos” para as costas dos trabalhadores; propõe de forma sacana a suspensão temporária do contrato de trabalho (por cinco meses), tempo em que o trabalhador receberia uma “bolsa-qualificação”- modalidade de seguro-desemprego – bancada com dinheiro público, e tempo em que o mesmo será obrigado a fazer uma “qualificação profissional”. Seu retorno, após cinco meses, lhe garantiria “longos três meses de emprego”. Em outros termos, as empresas estarão garantindo o direito da demissão, ainda que tenham obtido todas as concessões nas negociações com as direções sindicais.
O mais grave nessa história está em que, enquanto o patronato se organiza para surrupiar de forma coletiva o conjunto da classe trabalhadora, as direções das centrais sindicais – apelegadas, bem instaladas e muito bem remuneradas – ficam a discutir isoladamente como ceder às pressões empresariais, tentando minimizar as perdas que vêm sendo impostas aos seus representados. Não há um único indicativo sério de que essas “direções” venham se esforçando para elaborar sequer um minúsculo plano de lutas coletivas capazes de fazer frente a tantos disparates. Salvo raras exceções, os trabalhadores brasileiros estão sem direção política para suas lutas de resistência. E os sindicatos que ainda conseguem a mobilização de suas bases, numa tentativa hercúlea de resistência, se sentem isolados e traídos pelo conjunto do movimento sindical.
É mais triste ainda ver o presidente da nação brasileira brincar com a opinião pública dando “sapatadas” na crise. Age como se nada grave, de fato, estivesse acontecendo com o seu povo, como se tudo isso pudesse ser motivo para chacotas irresponsáveis, enquanto vai autorizando aos seus ministros e assessores a atenderem às pressões do empresariado. Só falta mesmo fazer como fez uma sua ex-ministra, ante a crise da aviação civil brasileira: “Relaxa e…”
Por Waldemar Rossi, que é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.
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Ministro do Trabalho visita a CUT
Lupi reafirma apoio à posição da CUT frente à crise: “Nenhum direito a menos”
Em reunião com a executiva nacional da CUT na noite desta quinta-feira (22), o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, reafirmou o compromisso do governo brasileiro em enfrentar a crise gerada pelas “seqüelas da globalização”, preservando emprego e renda da classe trabalhadora por meio da estruturação de um Conselho de acompanhamento dos recursos públicos liberados às empresas, a fim de garantir contrapartidas sociais.
“Nossa compreensão é que quando se pede dinheiro público, tem que se prestar contas. Então, esta determinação governamental de que a empresa que recebe recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador não pode ser servir do dinheiro para desempregar, é algo simples. O mínimo que temos de cobrar é a geração de emprego”, ressaltou. Conforme Lupi, além de representantes governamentais, o Conselho terá a participação de trabalhadores e empresários, “e deverá acompanhar minuciosamente a aplicação dos recursos do FAT, que tem R$ 160 bilhões de patrimônio e é o principal fomentador do BNDES”.
O ministro condenou a miopia de setores minoritários do empresariado, “gente que tem a visão da idade da pedra”, “que quer matar a galinha dos ovos de ouro propondo redução salarial”: “se diminuir a renda, diminui o dinheiro em circulação, cai o consumo e, consequentemente, a crise se agrava. As próprias empresas iriam perder”. O caminho é outro, ressaltou Lupi, citando o caso da política de valorização do salário mínimo, acordada com as centrais sindicais: “com o aumento para R$ 465,00 vamos ter mais gente comprando, mais emprego garantido, mais gente acreditando na capacidade do nosso país”. Questionado sobre os dispositivos que poderão ser utilizados para frear os impulsos recessivos presentes em alguns empresários que se aproveitam de créditos e isenções públicos para demitir, o ministro lembrou que, entre outros mecanismos, a lei já prevê a cobrança da antecipação de pagamento e aumento das taxas.
“O fato é que com a redução de IPI a venda de automóveis em janeiro de 2009 foi quase igual a de 2008, quando estavam no auge. O comércio em dezembro do ano passado vendeu 5% a mais do que em 2007, quando as vendas foram recordes. Isso demonstra que estão querendo se aproveitar da crise”, lembrou o ministro, condenando a postura oportunista de alguns empresários. O comportamento da Vale do Rio Doce também foi reprovado: “a Vale ganhou muito em 2005, 2006, 2007 e 2008 e agora se precipita por causa de uma crise internacional e propõe redução de salários. A empresa tem que pensar mais pois entre seus acionistas está a Previ, o BNDES. Precisa ser mais cuidadosa antes de radicalizar”.
O presidente da CUT, Artur Henrique, falou da satisfação “de ter no ministro um parceiro das propostas que nossa Central tem defendido junto ao governo e aos empresários. São propostas no sentido de que o Brasil fortaleça o mercado interno como uma das medidas importantes neste momento para a superação da crise”. Segundo Artur, “a crise afeta os setores de forma diferente, por isso em nossa opinião deve ser feita uma análise caso a caso, setor por setor, empresa por empresa”. “Nós entendemos que para fortalecer o mercado interno é fundamental manter o emprego e a renda dos trabalhadores. Neste sentido algumas propostas ganharam coro com o ministro do Trabalho, que cobrou contrapartidas sociais das empresas beneficiadas por empréstimos ou do acesso a fundos públicos como o FGTS, o FAT ou mesmo empréstimos de bancos públicos como o BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica”.
Artur avaliou a queda de 1% na Selic como conseqüência da pressão popular, mas lembrou que “ainda temos os juros mais altos do mundo e o Brasil precisa de uma queda mais acentuada”. “Hoje aprovamos no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social uma recomendação de que a próxima reunião do Copom não seja daqui a 45 dias, que ela seja antecipada para que a redução aconteça de forma mais acelerada. Cobramos também responsabilidade social dos bancos para que se estabeleça imediatamente a redução do spread bancário, a fim de que possamos fazer com que o consumo e a produção se fortaleçam e a economia continue a girar”, acrescentou.
Por Leonardo Severo.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cut.org.br.