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O velho e o novo e a ideologia da mídia

O velho e o novo

Olhando o panorama desacorçoado de Davos e a caminhada do FSM de 2001 a 2009, poderemos levantar esperanças em horizontes ambiciosos de negação do sistema, e de mutações para além dele e de seus limites político-econômicos, sem a necessidade de atropelar uma história que já vai sendo misteriosamente construída.

Sempre que acontece um Fórum Social Mundial volta a mesma questão, frequentemente com impaciência. Não bastaria estar contra, seria preciso indicar ações propositivas. Outros irão mais longe: há que desenhar um projeto alternativo. Projeto é alguma coisa lançada, projetada para a frente. Mas como essas intenções seriam construídas? Há muito candidato a “intelectual orgânico” querendo rabiscar, a partir de suas idéias, um desejo pessoal onipotente. Ou então um coletivo de companheiros. Pode haver alguma coisa de vanguardismo escondido aí. São grupos que pensam que sabem, ou que confundem o que pensam com uma nova verdade.

Claro, é bom que apareçam propostas, mas deveriam ser contribuições oferecidas com certa humildade e com ar tentativo. E, na medida do possível, teriam de estar enraizadas em práticas concretas emergentes. Do contrário soam como agendas voluntaristas de bons propósitos. Não há que rejeitar por princípio a apresentação de consensos propostos. Temeria se fossem consensos impostos. Depois do fim dos socialismos reais e frente à vagueza de um “socialismo do século XXI”, pressente-se a presença de velhos paradigmas escondidos em embrulhos novos.

Isso não impede que aflorem novas sensibilidades e exigências, numa “consciência histórica” que vai abrindo caminhos. O futuro é escrito a muitas mãos, muitas ações e muitas mentes. Várias delas contraditórias se tomadas isoladamente, mas talvez complementares, como um tecido cerzido com mil iniciativas e fios diferentes, sem um desenho prévio comum.

Hoje já temos um fato bem claro. A tapeçaria antiga do sistema capitalista, que chegou a pretender-se como o modelo único, rasgou-se de alto a baixo, vítima de suas ambições e de suas ilusões. “O rei está nu”, não é preciso ser crianças sem preconceitos para ver. Davos 2009 foi um bom exemplo. Muitos deixaram de ir, se calaram e outros destilaram ali suas angústias. O templo dos grandes interesses privados apelou para o poder público. Mas atenção, na se tratou de socialização ou de estatização sem mais. Não é para que ele se substitua aos primeiros, mas para que os salve. É um chamado para a socialização dos prejuízos e para retomar mais adiante a privatização dos ganhos. O estado, nas mãos de um poder dirigente, entraria para salvar o poder dominante em perigo. Uma primeira conclusão: não se trata de reformar o capitalismo mas de aboli-lo. Isso jamais sairá de Davos. E no FSM é um horizonte que se vai precisando aos poucos.

Há tendências que se vão solidificando e outras que se manifestam estreitas. A partir do fim do século XIX, havia uma proposta ancorada num sujeito central: a classe operária ou, para usar terminologia politicamente correta na ocasião, o proletariado. No século seguinte André Gorz escreveu: “Adeus ao proletariado”. Não que tenha de ser afastado, mas junto a ele foram surgindo muitos outros atores, todo o tipo de excluídos, de trabalhos autônomos, de etnia, gênero e faixa etária. A polifonia às vezes assustou a quem estava acostumado a uma harmonia de acordes tradicionais e previsíveis. Como a música dodecafônica sucedendo à eloquência um pouco rebuscada de Mahler.

Mas já podemos ir descobrindo processos mais profundos. Falava-se de um mundo globalizado, mas era para trazer um capitalismo predatório de dimensões sem limites, com um capital financeiro andorinha voando em todas as direções. Há um termo mais apropriado que é o de mundialização, ou melhor ainda, de planetarização. Theodor Roszak, lá na contracultura dos anos 80, falava dos direitos do planeta, dois séculos depois de surgirem os direitos humanos: Person, planet: the creative disintegration of industrial society. Talvez devêssemos dizer diretamente da sociedade capitalista, da qual a industrial é apenas uma de suas fases. Daí a importância do Fórum Social Mundial de Belém, em plena selva amazônica, onde o planeta mostra sua fecundidade e suas feridas e a multiplicidade de rios e igarapés, na riquíssima biodiversidade, estão ameaçados pelo predatório do sistema. Das propostas do Fórum, espalhadas em grupos de trabalho, passeatas e debates, vem o grito de alerta de um planeta violentado.

O próximo Fórum possivelmente será na África. Ali os problemas são ainda mais graves e processos de desertificação irreversíveis. A fome e as violências campeiam em Darfour ou, pero dali, em Gaza, do outro lado da fronteira com a Ásia. Já faz muitos anos, no começo da descolonização, um observador arguto, Réné Dumond, escreveu: “L’Afrique noire est mal partie”. Os colonizadores foram substituídos por uma elite local sem escrúpulos (não dá para falar de uma burguesia autóctone).

Temos uma crise global que pode, de certa maneira, ser benéfica. Tempos de experimentações num plural aberto. Daí poderão aparecer pistas de análise que não brotam voluntaristas, mas vão sendo a sedimentação de intuições experimentadas e resultados parciais que estarão dando certo. Os sôfregos ficam nervosos. O sistema espera, do outro lado, apenas mudanças superficiais.

Se não há soluções prontas, pouco a pouco, e isso foi emergindo de Belém, há “certezas difíceis” que enquadram o que brota. Mesmo se ele se dá, e não poderia deixar de fazê-lo, dentro dos marcos de um capitalismo vigente, deve trazer nele a semente na negação, os prenúncios de uma ruptura. No passado muitos debates se davam entre reformas dentro do sistema e revolução político-econômica para além dele. Falei atrás de negação do sistema capitalista. Mas a “consciência histórica” referida antes, que não deixa de ser também “consciência possível”, está dando um passo adiante ao nível da intencionalidade. Talvez devamos incluir o processo numa perspectiva mais radical; tudo leva a indicar mutações sociais e planetárias muito profundas, agora como vetor de direção, mas pouco a pouco como iluminação nova. O que não se reduz a superar o capitalismo.

Entre 1830 e 1848 a velha Europa se esvaía em lutas sociais. “Um fantasma ronda a Europa”, escreveu Marx. Só que ele se enganou de lugar, vítima de seu eurocentrismo. O fantasma desceria do outro lado do Atlântico norte, ainda que não para transformar, mas para fortalecer o sistema. O Atlântico sul aparecia pouco. Não poderá estar aqui um campo fecundo de experimentação num horizonte adiante, bem mais ambicioso? “A história é nossa, a fazem os povos”, disse Allende pouco antes de morrer. E também no momento da derrota, ao final da guerra civil espanhola, num de seus últimos escritos, disse Antonio Machado: “A história não caminha ao ritmo de nossas impaciências”. Olhando o panorama desacorçoado de Davos e a caminhada do FSM de 2001 a 2009, de Porto Alegre no sul a Belém nos trópicos, poderemos possivelmente levantar esperanças em horizontes ambiciosos de negação do sistema, e de mutações para além dele e de seus limites político-econômicos, sem a necessidade de atropelar uma história que já vai sendo misteriosamente construída. E onde o Brasil, coberto pelo FSM do sul ao norte, poderá ter um papel protagônico.

Por Luis Alberto Gómez de Sousa, que é sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes.

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A ideologia da mídia

O Fórum Social Mundial vem denunciando a política econômica dominante baseada exclusivamente nos interesses do mercado. Ao propor uma globalização alternativa, foi diversas vezes acusado de ideológico pelos grandes órgãos da mídia, este novo Príncipe. Agora, o príncipe está nu.

Foram poucos os espaços da mídia que resistiram e criticaram os valores de uma sociedade de mercado que há décadas se manifestam como pensamento dominante, gerando falsas expectativas de prosperidade, sobretudo para a grande maioria da população.

Todos aqueles que se opuseram à doutrina neoliberal difundida, sobretudo, pelos grandes grupos de mídia foram chamados de ideológicos. A defesa do livre mercado, do mercado autoregulado sem intervenção do Estado, do Estado mínimo, da redução da despesa pública, das privatizações, enfim, tudo o que compõe o ideário neoliberal é visto como natural, até mesmo como científico. Tudo o que se lhe opõe é entendido como irracional, dogmático e ideológico.

Dessa perspectiva, a defesa dos princípios da economia de mercado, regido pela “mão invisível”, na famosa expressão de Adam Smith, é acompanhada pela demonização do Estado, compreendido como mal necessário, mas que deve ser restrito a mínimas tarefas, principalmente nas áreas de justiça e segurança pública. Para defender esses pontos de vista, são postos em evidência os analistas – economistas, jornalistas, cientistas políticos etc. – que legitimam a redução do tamanho do Estado e enfatizam o papel do mercado na alocação de recursos. Trata-se de um discurso homogêneo, uma verdadeira ladainha que prega as virtudes do mercado e ataca a ação do Estado quando este se volta para a busca da justiça social.

Assim, quando o dinheiro do Estado é canalizado para os setores pobres da população, como nos programas sociais, ouvem-se gritos e exigências de condicionalidades e contrapartidas. O Bolsa Família é um bom exemplo. Outro exemplo é o aumento salarial dos aposentados, apresentado como “rombo no orçamento”. Mas quando os recursos do Estado vão para os banqueiros e empresários, surgem justificativas afirmando que é preciso “sanear” o sistema financeiro ou salvar indústrias responsáveis pelos empregos dos trabalhadores.

O inferno são os outros e toda argumentação contrária aos interesses capitalistas há de ser desqualificada, caracterizada como coisa ruim e atrasada, porque defendida por grupos sectários que não se modernizam e continuariam a se iludir com uma nova alternativa de vida para a sociedade. Ora, esse é um comportamento antidemocrático, já que pretende excluir do debate público concepções políticas voltadas para questionar os valores individualistas de uma economia de mercado bem como a lógica destrutiva do capitalismo. É, sobretudo, ideológico, no sentido de que o interesse principal é preservar relações de poder estabelecidas de forma sistematicamente assimétrica em todos os níveis da vida social.

O Fórum Social Mundial vem, há muitos anos, denunciando a política econômica dominante baseada exclusivamente nos interesses do mercado. Ao propor uma globalização alternativa e mostrar que um outro mundo é possível, foi diversas vezes acusado de ideológico pelos grandes órgãos da mídia, este novo Príncipe.

Ocorre que, agora, o príncipe está nu. A crise financeira que estourou nos EUA e se expandiu para todo o mundo mostrou, definitivamente, a falácia da doutrina liberal. Ameaçados de falência, os bancos de investimento correram para o Estado em busca de socorro. Os governos dos países centrais descarregaram trilhões de dólares para salvar os bancos e as grandes empresas ameaçadas. A Inglaterra chegou ao cúmulo de nacionalizar os bancos, e os EUA, pátria do livre mercado, promoveu a mais drástica intervenção no mercado financeiro para salvar o sistema bancário da bancarrota. E nas primeiras semanas de governo, Obama não perdeu tempo e lançou um pacote com medidas protecionistas de recuperação econômica dos Estados Unidos.

A doutrina neoliberal ficou inteiramente desmoralizada. Os neoliberais, que ainda continuam no poder, vivem o paradoxo de apelar para o Estado em nome do mercado livre. Mas o que se discute hoje é o novo papel do Estado como regulador da economia. Keynes foi ressucitado e o New Deal de Roosevelt voltou ao noticiário.

Os comentaristas econômicos das grandes empresas de mídia perderam o discurso. Embora continuem a defender as antigas teses neoliberais, não conseguem superar a sua falta de credibilidade. Ainda mais quando o próprio Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008, concede uma entrevista e recomenda aumento da despesa pública e do investimento estatal para fazer frente à crise.

Só falta agora chamar o Paul Krugman de ideológico…

Por Liszt Vieira, que é professor da PUC-Rio e por Aloysio Carvalho, que é professor da UFF.

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