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Por 20:22 Sem categoria

Pensar pequeno ou pensar a partir dos pequenos

Admiram-se muitos, no fundo sem real convicção, que o presidente Lula esteja “blindado”. É que, de mente pequena, não sabem ouvir os realmente pequenos na sociedade, os pobres, que sentem na sua pele as melhorias resultantes das políticas públicas.

Há um pensamento encolhido e rasteiro, que reduz a realidade e a empequenece. Quando Getúlio, na última fase, entre 1950 e 1954, pensou na Petrobras, provocou a grita dos Gudins e dos Roberto Campos da época. Se tivéssemos entregado a prospecção e a produção às grandes corporações internacionais, seguiríamos dependentes delas. Já de antes, os setores populares, de esquerda e os estudantes tinham lançado o mote, “o nosso petróleo é nosso”. Foi então que Lacerda, sensibilizando um certo público, denunciou ruidosamente o “mar de lama”. Tratava-se basicamente de um empréstimo do Banco do Brasil a Samuel Wainer, para criar um jornal moderno, numa imprensa praticamente toda ou quase toda de oposição. Referia-se também aos pequenos favores feitos por Gregório Fortunato, da guarda presidencial.

Depois disso, no momento em que Juscelino, a partir de 1956, lançou o plano de metas e, com a construção de Brasília, rasgou os estreitos horizontes que vinham praticamente do tempo das capitanias hereditárias, apareceu o histriônico Jânio Quadros com sua vassoura. Eram tempos de construção da nação e os críticos de viseiras estreitas fixavam-se num moralismo vociferante bem personificado na “banda de música” da União Democrática Nacional, os udenistas. Ali estavam bacharéis bem falantes e sem compromissos maiores com as novas dimensões. Anos mais tarde, Collor denunciaria os marajás para ser logo depois um deles e dos piores. Mais adiante, FHC falou de terminar com a era Vargas e começou o sucateamento da nação.

Estamos retomando, nestes dois períodos presidenciais, a construção dessa nação, com medidas econômicas cuidadosas – que enervam os radicais – e com medidas sociais ambiciosas, lançando o país numa grande aventura, hoje que ele é um dos BRICs e que seu presidente é um estadista respeitado pelo mundo afora. Lula tinha razão, lembrou Le Monde, de falar de “marolinha”, pois o Brasil foi dos últimos a entrar na crise internacional e possivelmente o primeiro a sair dela. A grande imprensa e setores radicais de esquerda e de direita faz tempo que centraram suas análises no “mensalão” e na corrupção. Como se esta última não viesse de bem mais atrás… A diferença é que hoje vem à tona, nas mãos dos jovens promotores do Ministério Publico, da Polícia Federal e do Ministério da Justiça. Uma vez mais, a grita tem intenções bem pouco ocultas. A mídia, de má vontade, cata aqui e ali detalhes para alimentar suas manchetes, tantas vezes em contradição com as notícias das páginas interiores.

Creio que há um novo udenismo, de direita ou de esquerda, pouco importa, os extremos se encontram. Alguns setores da classe média ficam sensibilizados com certos fatos, em que uma visão ética e moral se reduz a um moralismo denunciativo. Por exemplo, tomam como saco de pancadas uma figura pequena do Brasil coronelista como Sarney. No fundo, como num jogo de bilhar, a bola quer atingir outra,- Lula – e enfim ricochetear em Dilma. É só ver comentários na televisão e certas análises de jornais que se arvoram presunçosamente em criadores de opinião pública. Na realidade, atingem parcialmente setores nos estratos médios que lêem quatro ou cinco jornais em circulação nacional.

Nestes dias, põem os holofotes numa figura maravilhosa e irradiante como Marina Silva, para instrumentalizá-la a seus fins. Há um unidimensionalismo que Marcuse denunciou há tantos anos. Toma-se um aspecto relevante da realidade e a reduzem a ele. É o caso da ecologia. Em nome dela se quer paralisar grandes obras de infra-estrutura. Há aqui e ali um ecologismo quase fundamentalista. Entretanto, a possível candidatura de Marina, mesmo que não se concretize, já traz um resultado importante. Coloca na pauta e nos programas dos futuros candidatos o relevante tema ecológico. E isso é já um ganho.

Mas temos denunciadores implacáveis, em nome de uma ideologia principista. Quando Marina foi ministra, – e uma grande ministra -, conseguiu modificar projetos, como o do Tapajós, levando em conta os ribeirinhos, a floresta circundante e até a piscicultura. Está agora em aberto um debate sobe as hidrelétricas no Xingu. Não se trata de negá-las em bloco, mas de repensá-las em nome de uma sensibilidade ecológica. E não se espere isso dos que ganharem as licitações e nem mesmo de alguns setores do próprio governo. É função da sociedade civil, seus movimentos sociais e de pastorais da Igreja Católica e de outras religiões, levar adiante um debate forte e construtivo com as autoridades, sobre a utilização da energia dos grandes rios e sobre a construção de estradas.

Mas antes de tudo perguntemos ao povo da Amazônia – não aos auto-proclamados intelectuais orgânicos ideologizados – se a população não quer energia e estradas para escoar sua produção e ter acesso a escolas e postos de saúde.

Começa agora a disputa pelo pré-sal com aspectos semelhantes ao velho tema dos anos 50. Mobilizam-se novamente os grandes interesses, criticando um pretenso risco de estatização. Como se o Estado, “indutor e fiscalizador”, afirmado em recente entrevista do presidente, não tivesse que liderar o processo, custoso e de longo prazo, encaminhado, entre outras coisas, para reforçar medidas sociais. Não se nega o aporte de capitais privados, mas estes têm de ficar firmemente ligados ao Estado.

Admiram-se muitos, no fundo sem real convicção, que o presidente esteja “blindado”. É que, de mente pequena, não sabem ouvir os realmente pequenos na sociedade, os pobres, que sentem na sua pele as melhorias. Um programa como “luz para todos” modificou o quotidiano de regiões rurais e isoladas, onde seus habitantes podem agora ter uma geladeira para produtos perecíveis e, por que não, um entretenimento televisivo, com todas as ambigüidades que esse possa ter. Mas os pequenos não têm também direito de acesso aos bens, – da televisão, ao célular e ao computador -, ou estes teriam de ficar nas mãos dos de sempre, num país com um subconsciente ainda semi-escravagista? O programa “bolsa família” tira milhões da pobreza e amplia o mercado de consumo. O acesso ao micro-crédito abre possibilidades às pequenas empresas e à economia familiar. As escolas profissionalizantes vão criando mão de obra qualificada. Tudo isso no grande marco de um necessário e ambicioso Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Qual é a estratégia da oposição e de certa imprensa? Elas não podem se contrapor diretamente a essas medidas, mas, pelo visto, não parecem ter outras alternativas concretas a propor. Então tratam, os Lacerdas e Jânios de hoje, somados a certos psois, de desviar a atenção para fatos de menor importância, que os realmente menores, os pequenos e pobres da população, e setores com sensibilidade social de outros estratos, praticamente não levarão em conta nas próximas eleições do ano que vem.

Por Luiz Alberto Gómez de Sousa, sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.

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