Quem dá o exemplo é Dilma Rousseff, a candidata eleita Presidente do Brasil. Em seu discurso de domingo à noite, logo após a publicação dos resultados, disse textualmente: “ Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles.” Estas palavras têm mais força do que todas as injúrias e difamações que a candidata recebeu durante a campanha. Tornam ainda mais expressiva sua vitória. O artigo é de Dom Demétrio Valentini.
A hora é de magnanimidade. O momento é de respeitar, relevar, e perdoar. Todos convidados para a grandeza de ânimo.
Publicados os resultados das eleições, urge festejar a democracia. Por mais frágil que tenha se mostrado durante a campanha, ela acabou se fortalecendo com esta eleição. Podemos fortificá-la mais ainda, se soubermos levar adiante as muitas lições que esta campanha nos deixa.
Quem dá o exemplo é Dilma Rousseff, a candidata eleita Presidente do Brasil. Em seu discurso de domingo à noite, logo após a publicação dos resultados, disse textualmente: “ Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles.”
Estas palavras têm mais força do que todas as injúrias e difamações que a candidata recebeu durante a campanha. Tornam ainda mais expressiva sua vitória.
A nobre atitude do perdão, precisa vir acompanhada da lúcida constatação dos fatos, e dos desafios que eles nos apresentam.
Na verdade, a candidata Dilma Rousseff precisou enfrentar uma avalanche enorme de obstáculos, desencadeados sobretudo pela carga de preconceitos, cuja virulência surpreendeu, e mostrou quanto a sociedade brasileira ainda está impregnada de resíduos tóxicos da ditadura militar.
O fato de uma candidata ter sido vítima da truculência do regime ditatorial, em vez de servir de oportunidade para lavar a honra de todos os que foram presos arbitrariamente pela ditadura, acabou dando o pretexto para muitos se acharem no direito de vestirem a carapuça de torturadores, e descarregarem sobre a candidata o ódio destilado nos porões do regime militar.
Esta pesada constatação nos coloca um grande desafio. Muitos assim pensam e fazem sem terem culpa das motivações equivocadas que movem seus preconceitos. Não sabem o que foi a ditadura militar. A anistia foi pactuada. Mas de novo se comprova que ela não pode prescindir da memória histórica, que precisa ser cultivada e trabalhada, para que toda a sociedade, conscientemente, erradique no seu nascedouro as sementes da ditadura, que foram plantadas com eficácia pelo regime militar. Caso contrário, elas continuam germinando, e produzindo seus frutos maléficos. A Escola precisa ensinar a verdadeira história da ditadura militar.
Este trabalho só pode ser feito com sucesso, se vier acompanhado da garantia do perdão e da superação de todo e qualquer tipo de vingança. De novo, as circunstâncias apelam para a grandeza de ânimo, que não significa timidez ou subserviência.
O exercício da cidadania, em tempos de campanha eleitoral, precisa levar em conta as circunstâncias de cada um. O que se pede de todos é o voto. Mas existe largo espaço de atuação, visando fornecer critérios para o discernimento dos eleitores.
Atendendo ao apelo de minha consciência, também procurei dar minha pequena contribuição. Agradeço as milhares de manifestações, públicas ou particulares, que expressaram sua concordância com as ponderações que fui fazendo cada semana, ao longo da campanha. Agradeço também aos que sensatamente ponderaram suas divergências, às quais procurei responder com respeito e atenção.
Por outro lado, recebi também algumas furiosas contestações, e alguns ataques de caráter pessoal, carregados de ódio, e revestidos da presunção de seus autores de se julgarem os justiceiros da ira divina, para condenarem ao inferno todos os seus desafetos.
Pela exorbitância de suas acusações, devo avisá-los que mereceram destino menos solene que o inferno. De modo que ainda podem contar com meu perdão.
Além do mais, não me preocupo com julgamentos humanos. Como Davi, também prefiro mil vezes cair nas mãos de Deus, do que ser julgado pela justiça humana.
Mas o resultado dessas eleições nos convida a tirar muitas outras lições, que, estas sim, nos motivam a deixar de lado condenações ou represálias, e contribuir com tudo o que estiver ao nosso alcance para levar em frente a nobre tarefa de construirmos juntos um Brasil justo e solidário.
Por Dom Demétrio Valentini, que é bispo diocesano de Jales.
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Desafio para Dilma: reduzir as aviltantes desigualdades
Tendo adotado o regime republicano desde o final do século XIX, o país continuou por várias décadas pautando seu desenvolvimento pelo modelo das capitanias hereditárias, outorgado ao país pelo colonizador português no século XVI. Este modelo marcou a estrutura administrativa do Brasil e seu processo de crescimento sócio-econômico. Lamentavelmente suas sequelas persistem até os dias de hoje. Temos conglomerados urbanos constituídos de ilhas de prosperidade cercadas de populações que vegetam abaixo do nível da pobreza.
Nos próximos cinco a seis anos os olhos do Planeta estarão voltados para o Brasil – potência regional em ascensão na América do Sul – em virtude do país ser a sede da Copa Mundial de futebol em 2014, sob o patrocínio da FIFA, e dos Jogos Olímpicos Mundiais a serem realizados em 2016.
Tendo adotado o regime republicano desde o final do século XIX, o país continuou por várias décadas pautando seu desenvolvimento pelo modelo das capitanias hereditárias, outorgado ao país pelo colonizador português no século XVI. Este modelo marcou a estrutura administrativa do Brasil e seu processo de crescimento sócio-econômico. Lamentavelmente suas sequelas persistem até os dias de hoje.
Em decorrência dos quatro séculos do regime colonial, seguido pelo regime imperial, a República instalada em 1889 continuou a se pautar até 1930 pelo sistema fundiário do latifúndio, sob o controle total das oligarquias rurais. O Brasil republicano em sua trajetória até os nossos dias teve sua opção democrática, entrecortada algumas vezes por intervenções de cunho autoritário e ditatorial.
A partir de 1950 o país experimentou um processo acelerado de desenvolvimento urbano, alimentado por maciças migrações no sentido rural – urbano, bem como no sentido inter-regional. Essas migrações proporcionaram o surgimento de magalópoles e cidades de grande porte, caracterizadas por suas estruturas caóticas. Esses conglomerados urbanos são constituídos de ilhas de prosperidade cercadas de populações que vegetam abaixo do nível da pobreza; desta maneira abrigam grandes bolsões de miséria que evidenciam e acirram cada vez mais as desigualdades sócio-econômicas e territoriais, que desfiguram de norte a sul e de leste a oeste a fisionomia da nação.
Ao ser eleita para chefiar o Poder Executivo da República no último dia 31, Dilma Rousseff comprometeu-se a dar continuidade e mesmo ampliar e aprofundar as políticas de seu antecessor, voltadas para a redução das aviltantes desigualdades acima explicitadas. Reconhecendo a impossibilidade de abolir o fisiologismo profundamente enraizado na política brasileira, sob pena de não assegurar a governabilidade administrativa do mandato para o qual foi eleita, Dilma afirma que o critério técnico (espera-se que também o científico) deverá ser igualmente considerado nas orientações políticas que pautarão suas decisões. Para atingir esse objetivo será necessário assegurar um conjunto concertado de políticas.
Em primeiro lugar é indispensável garantir que o país continue crescendo a uma taxa (igual ou superior a 7% ao ano) condizente com sua extensão territorial, com o crescimento de sua população que se aproxima da marca dos 200 milhões e com suas potencialidades e exigências sócio-econômicas.
Em segundo lugar é de suma relevância adotar uma política educacional capaz de preparar as futuras gerações para o mercado formal de trabalho, além de erradicar o analfabetismo, qualificar jovens e adultos profissionalmente para inseri-los neste mercado, bem como promover os ajustes consentâneos na legislação trabalhista.
Em terceiro lugar é preciso promover modificações substanciais na política de urbanização, desestimulando a migração para as megalópoles e grandes cidades e dotando ao mesmo tempo as cidades de porte médio e as pequenas cidades da infra-estrutura econômica e social, capaz de ensejar a seus residentes as condições de vida e o conforto proporcionados pelos avanços da civilização contemporânea e pelo progresso alcançado pelos meios de comunicação. Em um país com a extensão territorial do Brasil – sem desertos e sem atividades vulcânicas; sem acentuado relevo montanhoso; dotado de baixíssima densidade demográfica na maior parte de seu espaço físico; sem extensas áreas permanentemente congeladas – não faz sentido incentivar a custos altíssimos e exorbitantes a geração de megalópoles incapazes de proporcionar ao conjunto de sua população a indispensável e almejada qualidade de vida.
Em quarto lugar impõe-se a necessidade de dar continuidade às políticas emergenciais visando proporcionar às camadas da população ainda não integradas ao mercado de trabalho as condições mínimas de subsistência, associando-as ao mesmo tempo aos programas educacionais direcionados à sua integração efetiva neste mercado formal.
Em quinto lugar é igualmente indispensável empreender a reforma da Previdência com o objetivo de universalizar o contingente de seus contribuintes para preparar a tendência de envelhecimento da população brasileira nas próximas quatro a cinco décadas.
Esse conjunto articulado e harmonizado de políticas a ser encarado como políticas de Estado e não apenas de partidos políticos constitui a chave de que o Brasil precisa para sarar e cicatrizar a chaga das aviltantes desigualdades que hoje deformam sua fisionomia de nação soberana.
E o meio ambiente? Este é um desafio imperativo que exige abordagem específica.
Por Raimundo Caramuru Barros.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.