Para o PSUV de Chávez, o fato de conquistar 20 dos 23 governos em disputa reafirma sua consistente maioria no âmbito nacional, o que não deixa de ser uma sólida base para o inicio da nova e delicada etapa que se abre na Venezuela. Qual nova etapa? A do desafio de manter a revolução bolivariana sem seu principal líder. Porque, a esta altura, está praticamente descartado que Hugo Chávez se recupere da cirurgia que fez em Cuba a tempo de assumir, no dia 10 de janeiro, seu quarto mandato presidencial. O artigo é de Eric Nepomuceno.
Eric Nepomuceno
Nas eleições regionais do domingo, 16 de dezembro, o Partido Socialista Unido da Venezuela, o PSUV do presidente Hugo Chávez, varreu o país: ganhou em 20 dos 23 estados. Entre os conquistados estão cinco que eram governados pela oposição. E, desses cinco, pelo menos dois têm sabor especial: Zulia, maior produtor de petróleo, e Carabobo, o terceiro mais populoso do país.
Já a oposição manteve o governo de Miranda, e essa foi uma vitória de importância capital: o vencedor, Henrique Capriles, o mesmo que foi amplamente derrotado por Hugo Chávez na recente disputa pela presidência, venceu Elias Jaua, que até outubro era o vice-presidente da República.
O resultado das eleições regionais é, de certa forma, bom para os dois lados. Para a oposição, porque manteve Capriles em evidência, reforçado por haver derrotado alguém muito chegado a Chávez. Depois de ter conseguido unir todos os oposicionistas ao redor de seu nome e obter uma votação significativa (cerca de 46%) em outubro, perder o governo de Miranda congelaria sua carreira. Com a vitória se confirma como principal nome oposicionista numa eventual nova eleição presidencial.
Para o PSUV de Chávez, o fato de conquistar 20 dos 23 governos em disputa reafirma sua consistente maioria no âmbito nacional, o que não deixa de ser uma sólida base para o inicio da nova e delicada etapa que se abre na Venezuela.
Qual nova etapa? A do desafio de manter a revolução bolivariana sem seu principal líder. Porque, a esta altura, está praticamente descartado que Hugo Chávez se recupere da cirurgia que fez em Cuba a tempo de assumir, no dia 10 de janeiro, seu quarto mandato presidencial. Só os especialmente otimistas ou os olimpicamente ingênuos acreditam nessa possibilidade.
Não foi à toa, e muito menos um gesto histriônico, o pedido de Chávez para que o povo bolivariano apoie Nicolás Maduro, nomeado seu sucessor.
É muito alta a possibilidade de que dentro de menos de dois meses os venezuelanos sejam novamente convocados às urnas para escolher seu presidente. Correm rumores de que se estaria procurando uma alternativa, como prorrogar o prazo para Chávez assumir. Ainda assim, convém se preparar para novas eleições.
Chávez, apesar de seu voluntarismo surpreendente e de sua ousadia muitas vezes desconcertante, é um político habilidoso e experiente. E, em momentos críticos, soube mostrar-se realista. Foi assim agora, quando exibiu friamente a realidade: são grandes a possibilidades de que ele não se recupere, ou não possa mais exercer plenamente a condução do processo político que inaugurou há treze anos. Um processo político tenso, que mudou a face do país e o cotidiano de milhões de venezuelanos e que certamente exige uma capacidade física que ele já não tem nem terá.
Admitiu com todas as letras que o que está em risco elevado é sua própria vida. Se voltar, não terá as condições de antes – mesmo considerando-se esse ‘antes’ como o último ano e meio, de extremos sacrifícios pessoais causados pelo câncer. Será um Chávez extremamente debilitado fisicamente: afinal, foram quatro operações prolongadas e complexas em pouco mais de dezoito meses.
O comandante da revolução bolivariana sabe disso, e deixou claro que a Venezuela começa a viver uma etapa de transição. Voltando ou não, o cenário será outro. Seu estado de saúde passou a ser um obstáculo quase intransponível para a condução do país.
Assim, de certa forma ele se despediu do poder. E essa despedida inaugura um período de profundas incertezas não só na Venezuela, mas em toda a América Latina.
Um aspecto merece atenção: a transição venezuelana está acontecendo muito antes do que se podia prever. Apesar de sua saúde debilitada, Chávez não demonstrava um estado tão grave como o que admitiu ao comunicar que iria se operar novamente e que por isso nomeava um sucessor. Sob muitos aspectos, é possível concluir que nem ele mesmo soubesse da sua verdadeira situação.
Diante desse quadro, as eleições do domingo 16 de dezembro foram um teste positivo para o processo político conduzido por Chávez até aqui. Conquistar 20 de 23 estados foi um passo importante. Miranda ficou onde estava, ou seja, com a oposição. Somados, o eleitorado de Zuila e Carabobo, agora em mãos chavistas, mais que dobra o do estado governado por Henrique Capriles. Além disso, em 12 desses 20 estados foram eleitos militares seguidores do comandante da revolução bolivariana.
Nicolas Maduro, se não sai muito fortalecido das eleições regionais – afinal, ele mal teve uma semana como presidente interino –, ao menos passou a pisar um terreno mais sólido para a disputa eleitoral que, a menos que ocorra um milagre, terá pela frente. Também no cenário externo ele conta com um apoio que tem reflexos nítidos entre os chavistas, principalmente nas Forças Armadas: é um interlocutor privilegiado dos cubanos. Raúl Castro manifestou ao presidente venezuelano, em mais de uma ocasião, sua simpatia pelo chanceler chavista. Isso talvez sirva para acalmar, no seu devido momento, os setores militares que preferiam ter um de seus pares nomeado sucessor de Chávez.
Já as muito diferentes e às vezes antagônicas correntes que integram o movimento bolivariano são mais difíceis de permanecer aglutinadas sem a figura centralizadora de Chávez. Seu sucessor, considerado negociador hábil, terá pela frente, em todo caso, um argumento importante e indiscutível: o país é, definitivamente, outro. A maioria da população foi beneficiada ao longo dos últimos 13 anos, e não aceitará facilmente pôr em risco suas conquistas, quer diante de uma oposição conservadora, quer diante de divisões internas dentro do próprio processo político atual.
Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21423
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Hugo Chávez: e Cuba?
A presença da Venezuela e sua revolução bolivariana é de importância imensa para Cuba, que passa por uma etapa de transformações significativas em sua economia, com reflexos óbvios em seu cotidiano. Nicolás Maduro, indicado por Chávez para sucedê-lo, conta com a confiança de Fidel e Raúl Castro. Aliás, esse foi um dos pontos que pesaram a seu favor no momento da escolha para a difícil tarefa de suceder o condutor do processo bolivariano na Venezuela. O artigo é de Eric Nepomuceno.
Eric Nepomuceno
A cada dia que passa aportam em Cuba cem mil barris de petróleo venezuelano. Chegam a preços favorecidos. Se fosse recorrer ao mercado, o estado cubano não teria como pagar esses cem mil barris vitais. Ou até que teria, mas boa parte dos parcos recursos país sucumbiria. É disso que se trata.
Como se fosse pouco, a Venezuela é uma das mais generosas fontes de ingressos para Cuba. Faz décadas que a ilha obtém divisas em quantidades essenciais com a venda de serviços profissionais ao exterior.
Esse é, aliás, o segmento que mais recursos propicia a Cuba: no ano passado, foram seis bilhões de dólares, o triplo do turismo (dois bilhões) e cinco vezes mais que as exportações de níquel (um bilhão e duzentos milhões).
Em todo o mundo, o país que mais gera recursos pagando por serviços profissionais a Cuba é a Venezuela. Existem pelo menos 40 mil profissionais cubanos, todos altamente especializados, trabalhando no país presidido por Hugo Chávez.
São, em sua maioria, médicos. Mas também há assistentes sociais, engenheiros, psicólogos e profissionais de várias outras áreas trabalhando principalmente nas chamadas missões sociais, gigantescos mutirões dedicados a construir e equipar bairros populares, destinados à população carente. Somente em 2012 funcionaram 47 projetos conjuntos entre os dois países, que vão de educação a esporte, de agricultura a saúde. Isso, para não mencionar empresas binacionais e uma vasta gama de assessoria em gestão, segurança pública e instrução militar que Cuba presta aos venezuelanos.
Por essas e por outras, a presença da Venezuela e sua revolução bolivariana é de importância imensa para Cuba, que passa por uma etapa de transformações significativas em sua economia, com reflexos óbvios em seu cotidiano.
Para trás ficaram os tempos de agrura provocados pelo fim abrupto da antiga União Soviética, quando da noite para o dia a ilha perdeu 85% de seu comércio exterior e a economia entrou em colapso. Depois de terem alcançado um estágio de relativa bonança ao longo dos anos 80, de forma igualitária e estável, os cubanos viram como em apenas três anos – entre 1990 e 1993 – o PIB do país despencou quase 40%.
A vida cotidiana virou um tormento, com apagões diários que em alguns bairros de Havana duravam até 16 horas, e o país praticamente ficou sem transporte. Um tempo de sacrifício e resistência árdua, marcado para sempre na memória de gerações.
O cenário, hoje, é certamente diferente. Ao longo dos últimos seis anos foram implantadas reformas que estão significando um forte estímulo à produção, enquanto a economia cresce a taxas sólidas. Mas ainda assim há problemas sérios.
A ilha continua dependendo da importação de alimentos, e a demanda, que afeta a tudo que é tipo de produtos e serviços, é muito superior à oferta nacional. Há um evidente hiato nessa etapa de transição, e todos em Cuba – tanto no governo como nas ruas – têm plena consciência de que esse processo será lento. Tentar apressá-lo seria pôr tudo em risco.
Pois bem: nesse quadro, uma eventual interrupção da cooperação venezuelana teria consequências funestas em Cuba. Não seria, é verdade, como o colapso da primeira metade dos anos 90. Mas ainda assim, o peso da falta seria tremendo, e se faria sentir de maneira contundente.
Os cubanos sabem disso. Os venezuelanos sabem disso. Os opositores dos dois governos não apenas sabem, como já traçam projeções do que acontecerá caso a cooperação seja suspensa, e não parecem exatamente preocupados com as consequências. Que, aliás, seriam sentidas fortemente nos dois países.
Na Venezuela, porque, entre outras coisas, a saúde pública entraria em pane, e essa é uma das conquistas mais valorizadas pelos milhões de venezuelanos beneficiados pelo governo. Em Cuba, pelo corte abrupto do petróleo e de todo o resto.
Nicolás Maduro, indicado por Chávez para sucedê-lo, conta com a confiança de Fidel e Raúl Castro. Aliás, esse foi um dos pontos que pesaram a seu favor no momento da escolha para a difícil, muito difícil tarefa de suceder o condutor do processo bolivariano na Venezuela.
Na eventualidade de uma nova eleição, caso Hugo Chávez não possa assumir seu quarto mandato consecutivo, Maduro é o candidato favorito. Ele certamente manterá os acordos entre seu país e Cuba. Será, porém, um desafio a mais: a oposição terá mais força, e seu principal dirigente, Henrique Capriles, o mesmo que Chávez derrotou com folga em outubro passado, já deixou mais do que claro que se opõe terminantemente à ideia de continuar beneficiando a ilha.
Não há dúvida que, aconteça o que acontecer com Chávez, e isso vale inclusive para a possibilidade de um afastamento definitivo, as linhas básicas e centrais da revolução bolivariana serão preservadas. Mesmo sem ele, o chavismo continuará determinando o processo político venezuelano por muitos anos. Mas alguns de seus aspectos – e a forte ajuda que o país presta principalmente a Cuba, mas também a outros governos da região – com certeza passarão a ser alvo preferencial da oposição. Impedidos de acabar os programas sociais que beneficiam milhões de venezuelanos (a reação popular seria de dimensões impensáveis), os que se opõem a Chávez e seu governo irão buscar brechas para despejar sua artilharia.
A solidariedade internacional será um dos ímãs para seus ataques. Todos sabem disso – a começar, claro, pelos cubanos. E, com razão, estão preocupados.
Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21438