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A direita brasileira e o sadomasoquismo

O que está em jogo é, depois da derrota histórica do socialismo ao final do século XX, a possibilidade ou não de reconstrução de uma alternativa que reponha na agenda política a questão da soberania democrática e popular. Esta é a questão hoje colocada nos cinco continentes.

Flávio Aguiar

Estava eu posto em sossego, das festas colhendo o doce fruito, tendendo a voltar às lides apenas para o ano, quando dois excelentes artigos vieram arrancar-me do merecido repouso.

Refiro-me a “Uma proposta de reflexão para o PT”, do amigo e governador Tarso Genro, e “Pacto adversativo x Pacto progressista”, do também amigo e editor, Saul Leblon.

Ainda que de modos diversos, tocam ambos na mesma tecla de entrada: como pode a direita brasileira desqualificar a atual experiência democrática das administrações populares que se sucedem, notadamente no plano federal, as de Lula e Dilma?

Também deve-se incluir aí tentativas internacionais. Primeiro foi a da The Economist, numa iniciativa digna dos tempos império-coloniais, pedindo a cabeça do ministro Guido Mantega. Mais recentemente o Financial Times entrou na dança, montando uma ridícula farsa dialogada em que se misturam alusões toscas e grosseiras à presidenta Dilma Roussef, ao ministro Mantega, com outras a Putin e aos BRICS, a Cristina Kirchner, apenas para manifestar a indigestão que as administrações progressistas da América Latina provocam na sua linha editorial sempre alinhada com os princípios da ortodoxia neo-liberal.

Durante muito tempo a mídia ortodoxa internacional exerceu um “ruído obsequioso” em relação ao Brasil, visto como uma terra exótica de empreendimentos governamentais exóticos que “davam certo” no desconcerto universal da hegemonia neo-liberal.

Um acontecimento mudou essa situação: a vitória de François Hollande na França, destruindo a “aliança Merkozy” e introduzindo – ainda que de modo tímido – uma cunha adversa na hegemonia orotodoxa no reino da Zona do Euro. A partir daí – de modo conjugado com a diminuição ostensiva dos lucros (e dos bônus, prebendas e sinecuras) do investimento financeiro-especulativo no Brasil, este tornou-se uma influência perigosa, que necessariamente deve ser desarticulada para impedir que se espraie acima do Mediterrâneo. Ainda mais depois da exitosa passagem de ambos, Lula e Dilma, por Berlim (o primeiro) e Paris (ambos), articulando um seminário anti-ortodoxia com o próprio Hollande – que também deve ser desarticulado, ou nem chegar a se articular.

É nesse movimento internacional que se situam as iniciativas da nossa direita caseira, tendo sempre em vista a neutralização de qualquer exercício de soberania popular em nossa terra – iniciativa em que desde sempre se harmonizaram conservadorismo político e midiático, sobretudo desde que a Revolução de 30 e acontecimentos em torno introduziram no cenário político institucional esse “elemento” duvidoso e arriscado, o chamado “povo brasileiro”, às vezes, simplesmente “o povão”, outras vezes de modo mais preciso “os trabalhadores”.

Num ensaio brilhante, publicado em 1945, logo ao fim da Segunda Guerra (‘As raízes psicológicas do nazismo’), Anatol Rosenfeld caracteriza o universo espiritual nazista: um misto de sadomasoquismo. De modo masoquista, o típico nazista se situava como “inferior” dentro de uma hierarquia estabelecida, tendo ao topo o Führer, ou simplesmente uma “Ordem Superior”, à qual este mesmo estaria submetido: no caso, era uma visão fanática de uma superioridade racial associada a uma missão civilizatória no estabelecimento de uma sociedade de eleitos. Auto-eleitos, sublinhemos. Daí, de modo sádico, o nazista típico se voltava para oprimir – negando toda a forma de humanidade – os que vê como inferiores nesta hierarquia que é, ao mesmo tempo, social, cultural, antropológica, espiritual, até religiosa.

Mutatis mutandis, pois não estamos falando de nazistas, a estrutura espiritual da(s) direita(s) hoje é análoga. A atividade política é algo por natureza reservado a uma casta superior, os “entendidos”, aqueles que carregam consigo não mais uma superioridade racial, pois esse assunto tornou-se proibitivo, mas uma superioridade civilizatória. No caso europeu, por exemplo, isso se manifesta em relação aos “extemporâneos” muçulmanos, norte-africanos, ou até mesmo, por parte dos que se identificam com um “norte saudável e austero”, em relação aos que estes “auto-eleitos” identificam como os “sulistas ineficientes e perdulários”.

No caso brasileiro (latino-americano, de um modo geral), os arautos dessa apologia da desigualdade se situam (inclusive e sobretudo na mídia) como portadores de uma mensagem civilizatória vinda de uma “ordem superior”, qual seja, a atual ordem capitalista imposta pela financeirização da economia e da política, e como tais, negam qualquer possibilidade de exercício de soberania democrática por parte dos que estão “abaixo” desse círculo de “auto-eleitos”.

Como aponta Tarso Genro, uma das vias para se concretizar essa negação da soberania democrática é a “judicialização” da política; como aponta Leblon, outra via é a pura e simples negação da história. Abrir o caminho da participação no círculo do consumo para dezenas de milhões de brasileiros que dela estavam excluídos não tem o menor significado para esse tipo de pensamento que se cristaliza em torno da “auto-eleição”. Ou melhor, tem sim um significado: é insuportável, porque isso pode abrir-lhes o apetite para quererem mais, como diz Genro, citando Döblin, do que “pão e manteiga”.

Portanto, para esse tipo de pensamento, é necessário destruir essa experiência de soberania democrática, destruí-la institucionalmente, pela negação da política ao seu alcance, e destruí-la na memória, negando seu valor histórico ou até mesmo a sua existência, ou afirmando-a como um “anti-valor”: coisa de “demagogia”, de “compra das consciências através de favores”. Se bem olhada, outra não foi a argumentação de Mitt Romney para justificar sua derrota em novembro.

Como Leblon e Genro, situo-me entre aqueles que olham também – com alguma apreensão – para o lodo esquerdo do tabuleiro, onde me situo.

Haverá entre nós suficiente amplitude de espírito para entender o que está em jogo? Claro, existe uma dimensão imediata que está presente de modo imperativo: no Brasil, a eleição de 2014. Mas não é só isto. O que está em jogo é, depois da derrota histórica do socialismo ao final do século XX, a possibilidade ou não de reconstrução de uma alternativa que reponha na agenda política a questão da soberania democrática e popular. Esta é a questão hoje colocada nos cinco continentes.

Com a palavra, no caso do Brasil, o governo. Mas não só: com a palavra, também, todos nós.

Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

Artigo colhido no sítio http://cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5915

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A hora do PT: um ano novo digno desse nome

Os fatos caminham à frente das idéias. Mas é preciso ajudá-los com a materialidade destas para que a história possa girar a sua roda e sancionar os novos sujeitos, que por sua vez vão protagonizar fatos fundadores do período seguinte. Assim sucessivamente.

O nascimento de um partido – um verdadeiro partido — representa de certa forma a fusão desses diferentes momentos. É ao mesmo tempo um fato, uma ideia e um sujeito.

Mas até quando?

A pergunta reverbera o divisor vivido hoje pelo PT. Em que medida o partido ainda persiste como portador do tríplice mandato da história?

Mais que isso: quais forças e que lideranças serão capazes de conduzir a renovação desse mandato no horizonte dos desafios marmorizados na crise da ordem neoliberal?

Fundado em fevereiro de 1980, o PT completa 33 anos em 2013.

Quase um terço de sua existência se deu no comando da Nação. Isso propiciou aos quadros dirigentes um acervo único de experiência nas condições difíceis da política brasileira.

Com Dilma, o PT completa o terceiro mandato presidencial.Não se pode dizer mais, como se dizia em 2002, que esse partido não sabe governar o capitalismo brasileiro.

O aprendizado teve um preço; marcou o rosto e a alma petista. Ademais da experiência ímpar, ele gerou, também, um escopo de responsabilidades e compromissos cujo peso tende a frear o ímpeto renovador da legenda.

A frase ‘o interesse dos gabinetes passa a predominar sobre as inquietações das bases’ serve indistintamente a legendas progressistas que ascenderam ao poder.

Tampouco é estranha ao PT.

O quanto influenciará no enfretamento da pauta agendada para 2013 e 2014 é a interrogação que paira não apenas sobre o destino do partido.

Não se trata de questão particular aos petistas. Ela fala à democracia e ao destino do desenvolvimento na próxima década. Nesse sentido fala à presente e futura geração de brasileiros.

O PT enfrentará de agora em diante uma situação singular.

Seu peso específico na sociedade nunca foi tão relevante. A disjuntiva é única na história nacional: se esse partido progressista souber avançar à contrapelo da estagnação inerente à passagem pelo poder, mudará o horizonte brasileiro; se tropeçar ou se acanhar, seu fracasso será também em grande medida o fracasso da Nação.

A calcificação tem sido a regra geral da passagem da esquerda pelo poder de Estado. Mas a história não é fatalidade. E a sorte do PT dispõe de contrapesos poderosos.

De alguma forma a trajetória do partido e a das forças progressistas reordenadas ao seu redor foi condicionada nessa última década por dois impulsos.

Um primeiro, de predominância defensiva, pode ser arbitrariamente delimitado entre a chegada ao governo, em 2002, até a reeleição, em 2006. O segundo, de transição, respondeu ao colapso da ordem neoliberala partir de 2008 e assim perdura até os nossos dias.

Colapso cambial e cerco conservador marcaram o primeiro ciclo, de natureza quase reflexa, encerrado na reeleição de 2006, em meio às denúncias do chamado mensalão.

Inicia-se, então, e de novo com a ressalva da demarcação rudimentar, a travessia de uma agenda econômica defensiva para um registro de maior margem de manobra ideológica, ofertado ao partido pela desordem neoliberal capitalista.

A condenação sem provas de algumas de suas mais expressivas lideranças na Ação Penal 470, num grotesco episódio do Direito que maculou o Judiciário e anexou o STF ao ativismo midiático conservador, adiciona um complicador e uma ruptura a esse percurso,a partir de 2013.

Em que medida o partido saberá andar no trilho duplo, capaz de encadear a reação ao arbítrio ao impulso renovador requerido da agenda? Em que medida será capaz de fundir os dois imperativos, sem se perder na batalha do dia anterior, mas tampouco sacrificar e desguarnecer sua estrutura de quadros que ainda lhe são imprescindíveis?

Trata-se de um teste de auto-superação da máquina e dos dirigentes petistas. Um teste único na história da esquerda brasileira. Vale a pena vivenciá-lo de forma engajada.

Está longe de ser um teste que possa ser travado no âmbito exclusivo dos acertos de conta internos.

Seu êxito requer um aggiornamento da vida democrática do partido, desde a base, até a reativação da caldeira intelectual, capaz – juntos – de sacudir a modorra percolada dos gabinetes.

A questão é saber quem conseguirá catalisar essas transformações para dar um rosto novo ao PT.

O fato de que essa liderança não esteja pronta pode ser dramático: temos agendas sem um núcleo capaz de se assumir como seu porta-voz.

Mas também pode ser auspicioso:abre-se um espaço de renovação programática e militante que deve materializar-se na equação dos novos espaços de poder e de disputa ideológica que desafiam o partido.

Decorre daí a questão que nos leva de volta ao começo da conversa: em que medida o PT reúne energias e inquietações para voltar a ser, ao mesmo tempo, um fato, uma ideia e um sujeito do próximo ciclo do desenvolvimento brasileiro?

Se os desafios são imensos – imersos no vale tudo desesperado do dispositivo midiático conservador – os trunfos de partida não são menores.

A consciência do divisor histórico sacode a modorra partidária em múltiplas frentes. O novo desponta em distintas dimensões.

O novo é Márcio Pochmann na direção da Fundação Perseu Abramo, que tem garra e talento para fazer desse tink thank petista, finalmente, um centro de reflexão da agenda da esquerda brasileira no século 21.

O novo é a caravana da cidadania de Lula, que deve percorrer e galvanizar o país – e afrontar o conservadorismo – a partir de fevereiro próximo.

O novo é a mídia alternativa ser reconhecida de uma vez por todas – como já faz a direção atual do PT, sob o comando de Rui Falcão – como parceira indispensável da transição para o desenvolvimento que o país urge e pode construir, em meio ao colapso neoliberal e a sabotagem conservadora.

O novo é Fernando Haddad em SP ecoando o desassombro de administrações progressistas em todo o Brasil.

O novo é fazer da maior metrópole brasileira um laboratório de renovação de políticas e práticas públicas de abrangência e ousadia equivalentes ao tamanho do anseio brasileiro por democracia e justiça social.

O novo recobre de sentido histórico a virada mecânica do calendário.

Que 2013 seja um Ano Novo digno desse nome.

Postado por Saul Leblon.

Artigo colhido no sítio http://cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1165

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