Como o padrão de desenvolvimento brasileiro é historicamente marcado pela desigualdade e pela exclusão, a recente onda de ampliação do consumo aparece como uma novidade que salta aos olhos. Entretanto, em que pese o papel fundamental das políticas públicas desde 2003, essa transformação não é exclusividade brasileira.
William Nozaki
A expansão do consumo de bens duráveis tem sido um fenômeno internacional. Alguns fatores explicam esse avanço: 1. nas últimas décadas, a dinâmica da acumulação, irradiada a partir dos EUA, tem se concentrado na esfera financeira fazendo do crédito e do endividamento elementos fundamentais para a elevação do poder aquisitivo. 2. a concorrência promovida pela grande exportação de manufaturados chineses tem provocado uma queda global nos preços relativos dessas mercadorias; 3. o avanço tecnológico acelerado também produz um impacto sobre os preços, pois, na medida em que produtos mais avançados chegam ao mercado há uma tendência de barateamento dos produtos congêneres, similares e genéricos.
No caso do Brasil, como se sabe, tais tendências têm sido complementadas e dinamizadas pela ampliação do mercado formal de trabalho, pelo crescimento do crédito doméstico e pela melhora na distribuição de renda. A inclusão de um contingente significativo da população nos mercados de trabalho e de consumo tem se expressado naquilo que parte dos analistas tem chamado, de maneira um tanto quanto equivocada, de “nova classe média”.
Como o padrão de desenvolvimento brasileiro é historicamente marcado pela desigualdade e pela exclusão, a recente onda de ampliação do consumo aparece como uma novidade que salta aos olhos. Entretanto, em que pese o papel fundamental das políticas econômicas e sociais inclusivas implementadas desde 2003, essa transformação não pode ser encarada apenas como uma exclusividade brasileira, pois ela também se observa em outros países emergentes e mesmo nos EUA.
Uma pesquisa recente realizada pelo Credit Suisse, revelou que o perfil de consumo dos países emergentes está sofrendo mudanças e começa a se ampliar. Cada vez mais, esses países apresentam padrões de consumo que se aproximam dos países desenvolvidos, ou seja: com ampliação de gastos em compras de produtos que não são considerados “essenciais”. Enquanto Indonésia, Índia e Egito apresentam um consumo cada vez menos focado em “bens essenciais”, Brasil, China e Rússia apresentam expansão acelerada de consumo discricionário, já a Arábia Saudita bate recordes no consumo de bens de luxo.
No caso dos EUA, a crise financeira provocou alterações nos padrões de consumo. O descompasso entre o endividamento e o nível de compra provocou um freio relativo no consumismo desregrado. Mas a relação entre o consumo pessoal e o PIB ainda permanece na média elevada de 70%. E, ainda que a quantidade de mercadorias compradas seja menor, o valor dos gastos com compras permanece elevado, isso porque os americanos têm privilegiado a compra de marcas consideradas “seguras”, que tem preço comparativamente maior.
Eletrodomésticos (com destaque para a chamada “linha branca”), eletroeletrônicos (com ênfase nos televisores e aparelhos celulares), aparelhos de informática em geral e automóveis são bens de consumo cuja venda tem se expandido e cujo preço tem sofrido reduções em âmbito global, vale destacar que esse “barateamento” supera a própria elevação inflacionária. De acordo com dados da Economist Intelligence Unit, entre 2011 e 2012 o preço internacional dos eletrodomésticos sofreu queda de 2,4%, já o valor dos automóveis foi reduzido em 2,9%, enquanto equipamentos de TV, som e informática sofreram redução de 11,3%, o preço dos aparelhos celulares registra a maior baixa, 11,9%. Em média, o conjunto dos bens duráveis sofreu redução internacional de preço da ordem de 1.6%.
Vale destacar, a redução no preço dos bens de consumo durável vem acompanhada da elevação no valor dos serviços, que sofreram aumento de 9% no mesmo período. Isso tem ocorrido, provavelmente, porque a nova fronteira de expansão empresarial tem se deslocado de lugar. Um bom exemplo disso pode ser encontrado na indústria de celulares, setor em que o valor do aparelho decresce na mesma proporção em que cresce o preço dos pacotes de serviço que esse mesmo aparelho pode agregar. Ou seja, o lucro das empresas concentra-se menos no aparelho em si e mais nos serviços que com ele são comercializados. O mesmo vale para a indústria de programas, aplicativos e softwares em geral. Nesse sentido, os direitos de propriedade intelectual, copyrights, e as diversas formas de circulação da informação precisam ser observados com grande atenção, pois se trata de uma fronteira importante de valorização do capital.
Desnecessário dizer, há muito tempo o consumo já deixou de cumprir apenas suas funções tradicionais, de satisfação das necessidades materiais e simbólicas e de reprodução e diferenciação social, no capitalismo contemporâneo o consumo é uma forma de sociabilidade, ou seja: é um modo de relação do indivíduo consigo próprio e do indivíduo com a sociedade.
O consumo atua como suporte da individualidade, em um mundo abarrotado de mercadorias massificadas o direito de liberdade de escolha restringe-se à liberdade de escolher o que se pode comprar, nesse ambiente o indivíduo resume-se à combinação individual de mercadorias que ele carrega em si e consigo.
Essa diferenciação, por seu turno, expressa maiores ou menores habilidades na escalada da estrutura de classes. A ideologia da mobilidade social sugere que, no capitalismo, qualquer um pode ascender socialmente, note-se: não são “todos” que podem ascender, mas “qualquer um”, o fundamental é que todos acreditem que podem ser esse qualquer um, pois essa disposição alimenta de forma permanente o fôlego para o consumismo.
Por trás desse processo o que ocorre é uma silenciosa disputa de valores entre um padrão econômico que promove o avanço do consumo de modo a difundir conquistas civilizatórias e um modelo econômico que provoca a expansão do consumismo de maneira a enraizar o individualismo exacerbado e a competição desregrada, conduzindo ao hedonismo e à barbárie. É preciso estar alertar para essa linha tênue e perigosa que separa o consumo como forma de inclusão do consumismo como forma de perpetuação da desigualdade e da diferenciação.
(*) Doutorando e mestre em Desenvolvimento Econômico (IE/UNICAMP), bacharel em Ciências Sociais (FFLCH/USP).
Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/analiseMostrar.cfm?coluna_id=5972
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Comércio entre Brasil e África cresce 85% em seis anos
Mariana Branco
Repórter da Agência Brasil
Brasília – O comércio bilateral entre Brasil e África cresceu 85% em seis anos e atingiu US$ 26 bilhões em 2012. Já o comércio do continente sul-americano com os países africanos foi US$ 39 bilhões em 2011 e cresceu 75% entre 2006 e aquele ano, segundo dados mais recentes do Ministério das Relações Exteriores.
Segundo a embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis, subsecretária-geral de Política do Itamaraty, ainda há espaço para ampliar o intercâmbio comercial entre as duas regiões e esse será um dos temas discutidos na 3ª Cúpula América do Sul-África, que começa na quarta-feira (20) e vai até sexta (23) em Malabo, capital da Guiné Equatorial.
“O crescimento do comércio reflete uma tendência da última década entre os países do Sul. Cresceu também [o comércio] com os países árabes e a Ásia, com destaque para a China. O espaço para continuar crescendo é grande, pois a tendência é que o poder aquisitivo [dessas populações] se amplie. Deve aumentar a demanda por bens de consumo e bens de capital”, disse a embaixadora.
A Cúpula América do Sul-África, que reunirá 76 países – 64 africanos e 12 latino-americanos – tratará de parcerias econômicas em uma mesa redonda sobre infraestrutura, energia e transportes e em painéis sobre oportunidades de comércio e investimento e agricultura e inovação.
Participarão das discussões empresários, associações empresariais, autoridades e instituições internacionais voltadas para financiamento de projetos de desenvolvimento. Segundo a embaixadora foram convidados para participar da mesa redonda representantes de companhias aéreas. “A conectividade entre as regiões ainda é um desafio”, disse.
O evento que reúne líderes africanos e sul-americanos ocorre desde 2006 alternadamente entre os dois continentes. A segunda edição, em 2009, foi sediada em Isla Margarita, na Venezuela. A primeira em Abuja, na Nigéria. Este ano, o Sudão do Sul participará pela primeira vez do encontro. No fim da cúpula, os países participantes divulgarão uma declaração conjunta.
A cúpula também marcará a segunda visita da presidenta Dilma Rousseff à África desde o início do seu governo. A primeira foi em outubro de 2011, quando a presidenta visitou Moçambique, Angola e África do Sul. No último país, ela participou da Cúpula do Ibas, grupo formado por Índia, Brasil e África do Sul, principais democracias emergentes.
Dilma deve retornar à África mais duas vezes este ano. Em março, a presidenta irá às reuniões da Cúpula Brics (Brasil, Rússía, Índia, China e África do Sul), em Durban, na África do Sul. De acordo com a embaixadora Maria Edileuza Reis, em maio Dilma participará das comemorações dos 50 anos da União Africana, em Addis Abeba, capital da Etiópia.
De acordo com Maria Edileuza, a viagem da presidenta na próxima semana, além de mais duas programadas para o continente africano este ano, “reforça a prioridade que o Brasil dá à África em sua política exterior”. A presidenta manteve a viagem na agenda apesar de ter se acidentado e machucado o pé.
Segundo a embaixadora, juntos, os continentes sul-americano e africano reúnem um Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas de um país) de US$ 6 trilhões e uma população de 1,4 bilhão de pessoas.
Edição: Fábio Massalli
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Notícia colhida no sítio http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-02-15/comercio-entre-brasil-e-africa-cresce-85-em-seis-anos