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As responsabilidades da esquerda

A crise atual do capitalismo, além de confirmar, de maneira inequívoca, o caráter antissocial desse tipo de sociedade, coloca desafios que a esquerda não se tem mostrado à altura de enfrentar. Quando, na Europa – o berço da esquerda, como a conhecemos até agora –, a crise não tem levado ao fortalecimento da esquerda – revolucionária, radical ou até mesmo reformista –, mas o da extrema-direita, temos a dimensão da incapacidade da esquerda de se erigir como alternativa de massas ao capitalismo em crise.

Em alguns países, a esquerda predominante – socialdemocrata, que já havia aderido a modalidades do neoliberalismo – aplica políticas de austeridade e é derrotada – como são os casos da Espanha e de Portugal –, correntes radicais da esquerda não avançam, enfim, todas são derrotadas. Mesmo quando chegam a avançar – como agora na Espanha ou na Grécia –, não têm força suficiente para se erigir como alternativa, ou porque sozinhas não têm maioria ou porque não conseguem organizar um bloco de forças que possa se tornar hegemônico – também pela ojeriza a alianças políticas.

Mesmo na América Latina, a esquerda ter sido de novo derrotada no México, um país despedaçado entre décadas de governos neoliberais, violência do narcotráfico, corrupção, é uma derrota de proporções. Mas nem por isso se vê um balanço autocrítico da esquerda. Quando o país começa a enfrentar, tristemente, outros seis anos de governos de direita, em que o retorno do PRI sucede ao fracasso de dois mandatos do PAN, ao invés de alternativas de esquerda, o tom das manifestações é ainda o da denúncia dos governos da direita, sem a correspondente análise de por que a esquerda não conseguiu, nesses anos todos, se erigir como força hegemônica – mais além das reiteradas e justas denúncias das fraudes eleitorais.

Da mesma forma, o alerta dos resultados eleitorais apertados na Venezuela tem que ser respondido com a denúncia dos planos da direita – não se pode esperar outra coisa de uma direita que já tentou um golpe e é apoiada abertamente por Washington. Mas também tem de ser acompanhada do balanço da perda de apoio do governo, dos erros que levaram a isso e das formas de retificar e avançar.

Às vezes a esquerda – especialmente seus setores mais radicais, partidários e intelectuais – não tomam as derrotas da esquerda como suas derrotas. A culpa é do “reformismo”, da “traição” de outras forças, das manobras da direita etc., etc. Mas por que as radicais não crescem, não aparecem como alternativas?

Em parte, porque se limitam às criticas, às denúncias, em parte porque muitas vezes recaem no receituário liberal, de concentrar suas denúncias nos temas da corrupção – atitude típica no México e no Brasil –, ao invés de centrar as denúncias e a construção de alternativas na luta contra o neoliberalismo e pela sua superação.

Quem analisa o cenário mundial, com a prolongada e profunda crise do capitalismo – especialmente no seu centro, mas em tantos outros países, de que o México é um exemplo latino-americano –, poderia esperar um fortalecimento da esquerda – radical ou moderada. É uma grave derrota da esquerda perder uma oportunidade como essa crise mundial do capitalismo para aparecer como alternativa – antineoliberal ou anticapitalista.

Nesse cenário se deve valorizar ainda mais os passos dados por governos latino-americanos para superar os neoliberais, com modalidades mais moderadas ou mais radicais, mas suficientes para que esses países não tenham entrado em recessão e tenham continuado a avançar no combate à desigualdade, à miséria e à pobreza, mesmo em meio à crise internacional e seus reflexos em cada país.

Por Emir Sader

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=1239

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A direita latino-americana

A direita latino-americana atual é o agregado de vários segmentos. Um primeiro, é a direita tradicional, que contém os jornais e revistas ligados à oligarquia, que estiveram ligados ao velho modelo primário exportador, apoiaram as ditaduras militares.

Se valeram da reinterpretação do liberalismo por aqui, favoráveis ao livre comércio e contra qualquer protecionismo. São saudosistas, escrevem editorias rançosos, expressam ódio de classe aberto aos sindicatos, aos partidos de esquerda, a Cuba, Venezuela, Bolívia.

Exaltam a mídia conservadora como bastiões da liberdade, ameaçados pelos “populismos” reinantes. Hoje manifestam melancolia e pessimismo sobre o estado atual do mundo e, em particular, da América Latina e de seus países em particular. Adoram os EUA de quem exigem sempre a dureza da época da “guerra fria”. Sua cantilena preferida é a do risco que a liberdade e a democracia correm.

O bloco neoliberal nos vários países no continente foi conduzido por outras forças, que incorporaram esse ramos oligárquico da direita. Foram forças originárias da social democracia e do nacionalismo – Ação Democrática na Venezuela, PRI no México, o peronismo dos anos 1990 na Argentina, o PSDB no Brasil, entre outros – os agentes do modelo neoliberal no continente.

Seguindo pelo caminho dos socialistas franceses e espanhóis, e dos trabalhistas ingleses, essas forças organizaram um novo bloco de direita ou simplesmente avançaram sós na condução de governos neoliberais.

Essas duas vertentes contaram com o monopólio oligárquico dos meios de comunicação, numa fase em que estes ocuparam o lugar central na construção dos consensos políticos e ideológicos.

Diante dos governos pós-neoliberais, a direita se viu fora do governo, com muitas dificuldades para retornar. Esses governos ocuparam um amplo espaço do campo politico, não deixando espaço para outro projeto com potencial hegemônico. O que fazer diante do inegável sucesso das politicas sociais desses governos?

Manter a concepção da direita de que os recursos utilizados nessas politicas são gastos, via de regra considerados “excessivos”, responsáveis pelos desequilíbrios das contas publicas, além de mal administrados – para o que se centra na denuncia de supostas irregularidades e/ou ineficiência na sua aplicação.

Diante das alianças que priorizam os processos de integração regional, a direita centra suas criticas na situação política e econômica dos países latino-americanos, tentando provar que a aliança com eles está permanentemente ameaçada.

Não podem manter – pelo menos desde o começo da crise econômica no centro do sistema – sua preferência pela aliança subordinada com os EUA, a Europa e o Japão. Tentam então desqualificar projetos como o Mercosul, Unasul, o Banco do Sul, a Celac, o Conselho Sul-americano de Defesa, sem grande efetividade.

Da mesma forma a direita ficou neutralizada na sua ojeriza ao Estado, especialmente desde o começo da atual crise econômica internacional, quando todos pediram ações estatais para minorar seus efeitos. Desviam então suas críticas ao Estado, concentrando em supostos casos de corrupção, que teriam o Estado como cenário, assim como supostas ineficiências dos programas governamentais, que seriam melhor administrados se estivessem centrados em empresas privadas e no mercado.

Com essas debilidades, a direita não consegue se recompor das derrotas que tiveram em países como a Venezuela, o Brasil, a Argentina, o Uruguai, a Bolívia e o Equador. Estes governos se elegeram e se reelegeram, encontrando-se em condições favoráveis para cumprir sua primeira década e avançar para a segunda.

Incapacitada de obter maiorias eleitorais, a direita centra sua ação nos grandes meios de comunicação, frente à debilidade confessa dos seus partidos, e busca articular novas modalidades golpistas, contando com a velha mídia e com o Judiciário – quando ainda o controla.

Os governos progressistas latino-americanos têm tudo para fortalecer-se diante de uma direita como essa. Basta que zelem, antes de tudo, pela eficácia na aplicação das suas políticas sociais, pelo seu fortalecimento, expansão e criatividade. Essa é sua base fundamental de apoio e legitimidade, que lhes dá as maiorias e a legitimidade que lhes permitem seguir triunfando.

E, ao mesmo tempo, avançar nas políticas de integração regional – em particular o novo Mercosul e o Banco do Sul –, que é o permite a esses países resistir em melhores condições aos influxos recessivos do centro do capitalismo e superar obstáculos internos para construir um modelo alternativo de política econômica.

Em terceiro lugar, fazer as reformas do Estado e do sistema político, para democratizar as instâncias de poder, incluindo o sistema eleitoral, o Judiciário e os meios de comunicação.

Por Emir Sader

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=1235

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