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Presidenta Dilma diz que Brasil quer fortalecer e ampliar relações com a Venezuela

Luana Lourenço e Renata Giraldi
Repórteres da Agência Brasil

Brasília – A presidenta Dilma Rousseff disse hoje (9) que o governo brasileiro pretende manter e ampliar as relações com a Venezuela, durante a primeira visita do novo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, ao Brasil. Maduro foi eleito em abril, após um conturbado processo eleitoral iniciado com a morte do ex-presidente Hugo Chávez, em março.

Após quase duas horas de reunião, Dilma disse que os dois governos decidiram fortalecer projetos bilaterais já existentes em áreas como produção de alimentos, energia elétrica, petróleo e desenvolvimento social. Os dois também discutiram novas possibilidades de parcerias nas áreas de abastecimento, segurança alimentar e garantia de suprimento energético.

“Manterei o nível elevado de relacionamento com Maduro, a exemplo do que mantive durante os anos que convivi com o ex-presidente Hugo Chávez”, disse a presidenta durante declaração à imprensa após o encontro. Dilma e Maduro tiveram uma reunião privada e em seguida um encontro ampliado com ministros e autoridades dos dois países

Apesar da crise financeira internacional, segundo Dilma, o Brasil e a Venezuela conseguiram ampliar o comércio bilateral, que atingiu o recorde de US$ 6 bilhões em 2012. Dilma disse que o Brasil está disposto a analisar o aumento das importações de uréia e coque de petróleo (um substituto do carvão) venezuelanos para reduzir a vantagem brasileira na balança comercial entre os dois países. “Reiteramos disposição em buscar mais equilíbrio nesse intercâmbio”, sinalizou.

Ao tratar das relações multilaterais, Dilma disse que o Mercosul viverá “um momento histórico” a partir do segundo semestre deste ano, quando a Venezuela vai assumir pela primeira vez a presidência pro tempore do bloco. O comando do país à frente do Mercosul vai permitir, segundo Dilma, “um segundo ciclo de expansão do comércio e das cadeias produtivas, beneficiando especialmente o Norte e o Nordeste do Brasil e o Sul da Venezuela”. A presidenta disse que o bloco será fortalecido “sem espírito de confrontação” nem ingerência externa. “Vamos fazer da vontade de união entre nossos países um exemplo para toda a região”.

Dilma aproveitou o discurso para agradecer o apoio da Venezuela à candidatura do embaixador brasileiro Roberto Azevêdo à direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), eleito no começo da semana.

O Brasil é a última etapa da viagem de Maduro pelos países do Mercosul – Uruguai e Argentina. Ele não foi ao Paraguai, que está suspenso do bloco há 11 meses, mas defendeu o fim da punição. A visita é para incrementar as relações multilaterais e agradecer o apoio à sua eleição, em abril.

Edição: Fernando Fraga

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Notícia colhida no sítio http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-05-09/dilma-diz-que-brasil-quer-fortalecer-e-ampliar-relacoes-com-venezuela

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Maduro tem trunfos para ir além de Chávez

Diferentemente do que sugerem muitos analistas, o governo Maduro não terá que promover ajuste fiscal recessivo, simplesmente porque suas finanças públicas são, de modo geral, saudáveis. Mas isso não significa que não existam problemas a solucionar no curto prazo. Por Victor Leonardo de Araujo

Victor Leonardo de Araujo*

A morte de Hugo Chávez e a eleição de Nicolás Maduro para a presidência da Venezuela trouxeram à agenda do debate latino-americano alguns aspectos da sua economia, particularmente os avanços conquistados, os entraves existentes e os desafios que são colocados ao novo governo. Sem a pretensão de esgotar o assunto, é conveniente fazer alguns breves comentários sobre a situação econômica venezuelana para que o leitor tenha uma idéia mais precisa sobre os desafios que estão postos.

É sabido que a economia venezuelana é pouco diversificada e ainda dependente da produção e da exportação do petróleo. A diversificação de sua economia certamente constitui o maior desafio para o governo Maduro. Entretanto, é importante que se diga que este esforço já está em curso. Em 2012 o petróleo respondia por pouco mais de 10% do PIB venezuelano, segundo o seu banco central. De fato, trata-se de uma concentração grande em um único produto, o que em parte caracteriza dependência, mas já foi pior: eram 19% em 2000. Em pouco mais de uma década, a Venezuela vivenciou um movimento de diversificação sem precedentes, especialmente se considerarmos as enormes dificuldades do biênio 2002-2003 (tentativa de golpe e greve dos petroleiros), o cenário de alta sem precedentes da cotação dos preços do petróleo nos mercados internacionais, e a crise financeira internacional iniciada em 2008. A diversificação, no entanto, não foi no sentido de elevar a participação da indústria no PIB, mas de elevar a participação de outros segmentos, como os de comunicações, que no mesmo período passaram de 2,6% para 6,6% do PIB; os serviços comunitários (de 4,5% para 6% do PIB) e os serviços ofertados pelo governo central (10,6% para 12,2%). Diferentemente de outras economias latino-americanas, que no passado utilizavam os recursos gerados pelo setor primário para financiar o processo de industrialização sem preocupação com a redução da desigualdade, o governo venezuelano optou por utilizar os recursos do petróleo para promover os avanços sociais. Qualquer crítica à estratégia posta em marcha pelo governo venezuelano deve levar em consideração que os requisitos técnicos necessários à promoção da industrialização no século XXI são muito diferentes do que os de 50 anos atrás, quando diversas economias latino-americanas promoveram suas “substituições de importações”.

É sob este cenário de tentativa de diversificação que a Venezuela registrou taxa média de crescimento anual do PIB de 4,8%, contra 2,9% da América Latina. O período já engloba o biênio de 2008-9, que coincide com a crise econômica financeira internacional que provocou redução abrupta do preço do petróleo e retração econômica dos principais mercados consumidores do petróleo venezuelano. O senso comum atribui este ciclo de crescimento ao cenário internacional, especialmente à expansão dos preços do petróleo. A desagregação do crescimento do PIB venezuelano, contudo, revela que foi a demanda doméstica quem respondeu pela maior parte deste resultado: entre 2005 e 2010 (último dado do PIB desagregado disponibilizado pela Cepal, Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), os gastos privados cresceram 8,2% ao ano; os gastos do governo cresceram 6,3% a.a., e o investimento cresceu 11,3%; já as exportações registraram queda de 5,9% a.a., em parte contrabalançadas pela queda das importações de ordem de 11% a.a.

A principal forma em que se manifesta a dependência do petróleo é no setor externo. Segundo a Cepal, 97% da pauta exportadora venezuelana é composta por produtos primários, sendo o petróleo o principal deles. As oscilações dos preços internacionais deste produto impactam o saldo comercial venezuelano. Contudo, trata-se de uma commodity de alta elasticidade-renda da demanda, o que coloca a Venezuela em uma condição diferenciada quando comparada aos seus pares latino-americanos: o país é estruturalmente superavitário em transações correntes, e por isso não depende dos fluxos internacionais de capitais nas formas de empréstimos, investimentos diretos e em portfólio. A Venezuela não vive sob a ameaça constante de uma crise cambial, e por isso não está submetida às chantagens impostas pelo mercado financeiro, que impõe a todos os seus vizinhos a difícil escolha entre políticas monetária e fiscal ditas austeras versus escassez de divisas e toda a sorte de dificuldades econômicas que isto lhes impõe.

O fato de não estar submetida às imposições do mercado não significa que a Venezuela conduza suas políticas domésticas com irresponsabilidade. Segundo os dados da Cepal, entre 2002 e 2007 a Venezuela registrou superávit primário fiscal, alguns bastante elevados, como nos anos de 2005 e 2006 (4,5% do PIB). Em 2009 passou a registrar déficit primário de ordem de 3,7% do PIB, em decorrência da queda da arrecadação oriunda da recessão ocasionada pela crise financeira internacional. Contudo, o déficit tem caído e alcançou 1,3% do PIB em 2012. A boa saúde fiscal de que goza o país não impediu que os gastos públicos sociais atingissem 12,5% no biênio 2005-6 (último dado disponibilizado pela Cepal). Não é preciso dizer que os indicadores sociais alcançados pela Venezuela avançaram significativamente durante os últimos 15 anos. Em 1997, 48% dos venezuelanos viviam abaixo da linha de pobreza; em 2006 eram 30%. Na América Latina, a proporção caiu de 43% para 36% no mesmo período – ou seja, a pobreza caiu mais na Venezuela que na média latino-americana.

Diferentemente do que sugerem muitos analistas, o governo Maduro não terá que promover ajuste fiscal recessivo, simplesmente porque suas finanças públicas são, de modo geral, saudáveis.

Isso não significa que não existam problemas a solucionar no curto prazo. A inflação é um deles. Os índices de preços venezuelanos são muito correlacionados com a taxa de câmbio. O país ainda importa uma parcela bastante grande dos alimentos que consome, de modo que os aumentos dos preços internacionais dos alimentos tendem a ser repassados aos consumidores. Os meses em que ocorrem desvalorização cambial tendem a reforçar esta tendência. O problema, em última instância, remete ao desafio maior: seguir promovendo a diversificação da estrutura produtiva, agora em outra direção: a produção de alimentos e de manufaturados. Isso tudo, é claro, sem deixar de promover os avanços na área social.

*É professor de Economia da Universidade Federal Fluminense

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22032

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