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Por 11:56 Notícias

Com fracasso da economia e da terceira via, ‘mercado’ quer ouvir Lula sobre o futuro

O mundo empresarial e financeiro e seus porta-vozes na imprensa tradicional e na política não conseguiram “domar” Bolsonaro como imaginavam. Depois de operar para tirar o PT do governo com o golpe de 2016, pagaram para ver no que daria – tirando Lula da eleição – e deu no ex-capitão. A população sente no bolso e na mesa o fracasso da economia, que começou com o governo golpista de Michel Temer e só piorou. Além disso, o Brasil virou vergonha global. Mesmo antes da pandemia e da guerra na Ucrânia, o país estava sem rumo. Por tudo isso, o dito “mercado” já sabe que, sob as regras do jogo democrático, a volta de Lula ao governo é iminente, como indicam as pesquisas.

A rejeição ao nome de Jair Bolsonaro não abre espaço, até o momento, para que tire pontos do líder. Lula, por sua vez, tem a menor rejeição entre os candidatos que se apresentaram. E os que desistiram, como João Doria (PSDB) e Sergio Moro (União), nada afetaram a disputa.

Lula vinha oscilado entre 45% e 52% dos votos válidos (descontados brancos e nulos), conforme a metodologia. Mas no Datafolha desta quinta (26), chegou a 48%. Desse modo, a hipótese de que a eleição se resolva no primeiro turno, em 2 de outubro, é respeitável. Ou seja, em vez de brigar com os fatos e com a democracia, é melhor o mercado ouvir o que Lula pensa e negociar uma boa transição para uma nova era.

Dialogar e negociar, aliás, é especialidade do ex-presidente, como dizem seus interlocutores. Porém, Lula não tem se exposto a encontros com empresários que em grande medida responsabiliza pelo golpe que trouxe o caos. Assim, pessoas ligadas à construção do seu programa de governo são frequentemente designadas para ir reuniões com o capital.

Sem posto Ipiranga

O mercado financeiro e o meio empresarial não têm razão alguma para temer um eventual novo governo Lula. A afirmação é do deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), interlocutor da pré-campanha do ex-presidente Lula em diversos eventos com o mercado. “Temos reafirmado aos atores do PIB brasileiro e mundial quem é o Lula. Um estadista que nunca tomará decisões sem dialogar e ouvir a sociedade. Ele não é um Bolsonaro e não precisa de um ‘posto Ipiranga’, mas não descansará, enquanto houver fome, desemprego, inflação e desrespeito à democracia”, diz Padilha à RBA.

Questionado se vai a esses eventos por ser visto como possível ministro, Padilha refuta. “Agora não se discute ministério. Porque primeiro é preciso ganhar a eleição, e estamos longe disso. Mas não temos síndrome de Bolsoguedes”, ironiza, referindo-se ao fato de na eleição anterior Bolsonaro ter antecipado o nome de seu atual ministro por não entender de economia. “Lula fala por si, ele hoje é a própria Carta aos Brasileiros, é o fio de sua credibilidade”, diz.

O parlamentar lembra que foi ministro das Relações Institucionais do governo Lula e coordenou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). O fórum criado pelos governos petistas reunia representantes do mundo empresarial, dos trabalhadores, dos movimentos sociais, da cultura, da ciência e da academia. Entre os objetivos, ideias de políticas públicas. “Portanto, o diálogo foi nossa marca e tenho meu nome associado a essa prática. Minha presença nessas reuniões serve para relatar as experiências bem-sucedidas de nossos governos. E também para enfatizar que num novo governo, o diálogo continuará como nossa marca.”

Diferentes visões

De acordo com Alexandre Padilha, o mundo empresarial não tem pensamento uniforme. “Ou seja, são atores que tensionam por todos os lados”, diz. Padilha avalia que há, sim, empresários que só pensam no lucro como se não houvesse amanhã. Para estes, não importam estragos ambientais, miséria ou ataques às instituições.“Mas já se nota que muitos estão preocupados com as questões todas. Então, estão interessados em construir o diálogo, em saber o que pode vir pela frente e qual será a regra do jogo”, relata. E a regra do jogo para Lula, como define o deputado, é construir um projeto de Estado moderno, com responsabilidade fiscal, social e ambiental.

“Desse modo, tenho mostrado nossa preocupação com a retomada de investimentos públicos que atraiam investimentos privados. É preciso olhar a questão fiscal, sim. Mas o mercado tem em Lula um exemplo de rigor fiscal que soube combinar responsabilidade com crescimento da economia e da renda do trabalho”, afirma Padilha. “Preocupação com estabilidade e controle da inflação, mas sem esquecer que sem políticas de habitação, educação, saúde e combate à desigualdade não se constrói um país justo e soberano”, defende o ex-ministro.

Em alguns desses eventos, como num fórum paralelo à reunião do FMI e Banco Mundial em Washington, em abril, Padilha teve a companhia do economista Guilherme Mello, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mello integra a equipe da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, que trabalha em projetos de retomada de desenvolvimento para o Brasil.

Neoliberalismo fracassado

“O ultraliberalismo e a austeridade sem consequências se revelaram um modelo arcaico e fracassado. As grandes economias do mundo estão preocupadas com ampliação de investimentos públicos que atraiam recursos privados. Com redução das desigualdades. E, sobretudo, com a construção de um novo modelo de produção que tenha a sustentabilidade como norte. E não como algo simbólico para maquiar imagens. Isso não é possível sem a mediação e a coordenação do Estado”, afirma Mello.

E reforça: governos dos Estados Unidos à China, passando por Alemanha, Coreia, Japão, entre outros, estão investindo pesado em transição ecológica e social. Portanto, segundo o economista, não prospera mais o falso dilema ou Estado, ou mercado.“O capitalismo precisa produzir, encontrar novas formas de energia, novos padrões de consumo, criar empregos e reduzir desigualdades. E o Estado não precisa ser um ente intervencionista, mas tampouco pode liberar geral. Precisa atuar dentro de suas responsabilidades.”

“E o que temos dito é isso: Lula sabe fazer, e já mostrou isso (2003-2010). Mas também sabe que não vai fazer igual, porque o mundo mudou. Entretanto está convicto, ainda, de que tem um conceito sólido e moderno guiando esse projeto para reconstruir o Brasil. Nas economias do século 21 não há espaço para os erros do passado”, afirma o professor da Unicamp.

Foto: Wilson Dias/Ag. Brasil

Fonte: RBA

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