Encontro reuniu em São Paulo alguns dos maiores especialistas brasileiros em mercado do trabalho, ligados à Unicamp, UFRJ e UFRRJ. Eles defenderam que país deve mudar a política econômica, focada no combate à inflação, e adotar políticas direcionadas à geração de novas vagas. China é exemplo.
SÃO PAULO – Se o Brasil quiser gerar postos de trabalho para seus oito milhões de desempregados, terá de mudar sua política econômica, desde 1994 focada quase que exclusivamente no combate à inflação, e adotar políticas direcionadas para a geração de novas vagas. Os exemplos a seguir são países como a China e a Índia, onde o receituário neoliberal do Consenso de Washington não foi adotado ipsis literis, e o Estado não abdicou de sua função planejadora na economia. Com os fluxos de capitais controlados e o câmbio desvalorizado, esses países crescem há anos a taxas superiores às brasileiras, gerando milhões de novas vagas para sua população.
Além de elevar seu crescimento econômico, o Brasil só poderá ser um país com trabalho para todos se for criativo e adotar políticas que indiretamente também favoreçam o nível de emprego. Entre elas, evitar a entrada precoce de jovens no mercado de trabalho, investindo em educação, e ampliar os benefícios para que os aposentados não tenham de voltar a trabalhar para complementar sua renda; ampliar o emprego público ao nível de alguns países europeus, pois o Brasil, ao contrário do difundido lugar comum, não possui um funcionalismo inchado; e, por fim, usar políticas alfandegárias permitidas pela Organização Mundial do Comércio para proteger setores de sua economia.
Essas foram as principais propostas discutidas por alguns dos maiores especialistas brasileiros em mercado de trabalho que participaram da segunda edição da série “Debates Carta Maior”, realizada segunda-feira (7) à noite, em São Paulo, e que teve como tema a geração de emprego e renda. O encontro, promovido com apoio da Revista do Brasil e patrocinado pela Petrobrás, reuniu idéias que não são seguidas pelas equipes econômicas escolhidas desde 1994 pelos governos de FHC e Lula. Rotuladas como heterodoxas por alguns e esquerdistas por outros, costumam ser demonizadas entre os economistas vinculados ao mercado financeiro. Mas nas fileiras das universidades brasileiras, essas propostas permanecem vivas, reforçando a contra-corrente ao pensamento hegemônico.
Secretário do Trabalho e Emprego na gestão de Marta Suplicy (PT) em São Paulo, o economista da Unicamp Marcio Pochmann põe em números o estrago que anos de estagnação econômica e ajuste neoliberal fizeram no mercado de trabalho brasileiro. Segundo ele, em 1989 o país possuía 1,8 milhões de desempregados e estava entre as treze nações com maior contingente fora do mercado. Hoje, aquele mesmo dado saltou para 8 milhões e o Brasil já é está entre as três nações com maior contingente de desempregados. O descompasso fica ainda mais claro quando se registra que o país tem 3,5% da População Economicamente Ativa do planeta, mas 6% dos trabalhadores sem emprego.
Para Pochmann, sem alterar o rumo da política econômica, o Brasil não sairá do buraco onde caiu. “Não vamos resolver o problema do emprego com políticas específicas do Ministério do Trabalho. A geração de vagas envolve políticas de todo tipo, como creditícias e cambiais, cujas metas devem ser o emprego. Mas desde 1994 nossa meta é a inflação, quando ela deveria ser apenas uma condicionalidade”, explicou. Conforme os dados do professor Anselmo dos Santos, também da Unicamp, a insistência nessa meta gerou algum crescimento nos últimos dois anos, mas o fosso social permanece se aprofundando. Entre 2002 e 2006, segundo seus dados, a proporção dos 10% mais pobres de São Paulo viu sua renda média cair de R$ 250 para R$ 226.
China como exemplo
Um país que cresce a taxas elevadas nos últimos anos, com base num capitalismo organizado pelo Estado, gerando milhões de novos postos de trabalho para a população. O caso chinês foi analisado pelo professor Carlos Alonso, da Unicamp, como um exemplo de política econômica a ser seguido pelo Brasil. Segundo ele, as experiências de crescimento sustentável – e esse é o caso da China – sempre se deram no bojo de um amplo projeto nacional. Essa é a história do pós-guerra na Europa, quando um Estado intervencionista implantou uma política de pleno emprego, e são essas as experiência atuais de sucesso, localizadas na Ásia.
“A China tem quatro grandes bancos estatais com crédito barato, faz o controle do câmbio e dos movimentos de capitais. Esse controle estatal é fundamental para que haja altas taxas de crescimento. Na Índia também o controle do crédito é estatal, assim como do câmbio e dos capitais”, afirmou Alonso. Para o economista, esses são os pressupostos que explicam a pujança das economias desses dois países emergentes, enquanto no Brasil o debate econômico fica localizado na casa decimal das reduções da taxa Selic.
Professor de economia da PUC de São Paulo, Ladislau Dowbor cita outro exemplo asiático de sucesso para justificar sua defesa por mudanças na política econômica brasileira. Assim como a China, a Coréia do Sul também tem um sistema de crédito controlado “com um lado voltado para setores de ponta e outro para as áreas mais atrasadas do país”. Segundo Dowbor, os coreanos conseguiram dividir a riqueza, forçando a divisão de grandes propriedades e só permitindo a instalação de multinacionais desde que elas exportassem.
Campo é opção
Apesar de a maioria da população brasileira viver nas cidades, o professor Sérgio Leite, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), defende que o campo pode contribuir muito com a geração de novas vagas. Não o agronegócio exportador, simbolizado pela sojicultura, que emprega pouco, mas a agricultura familiar e projetos de assentamento rural. “No caso dos assentamentos, cujo custo de implantação de uma família está entre 30 e 40 mil reais na média nacional, pesquisas mostram a capacidade de cada família gerar 3 novos postos de trabalho. O custo é baixo perto de outras áreas da economia. O Pronaf, iniciado no inicio dos anos 90 e que avançou mais recentemente, com setecentos a mil reais, que é uma operação de crédito, garante manutenção de 5 postos de trabalho em média, enquanto no Norte e Nordeste isso chega a 6 ou 7”, apontou.
Para o professor Cláudio Salm, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o campo pode colaborar, sim, com uma política de geração de empregos, desde que os projetos de agricultura familiar sejam vinculados à agroindústria emergente. Num dos poucos momentos de divergência durante o debate, Salm disse que a expansão da soja diretamente não cria emprego, mas o saldo não pode ser analisado apenas setorialmente. “O capitalismo é destruição e geração de empregos. O próprio David Ricardo, há 200 anos, defendia que a economia deveria ser aberta e se especializar, mas desde que o país se mantivesse dinâmico, senão seria um país de serviçais. Restaria apenas os empregos servis, o emprego doméstico. Se nada mudar, é nisso que a sociedade brasileira vai se tornar”, previu Cláudio Salm.
Por Marcel Gomes.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.
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Por Mhais• 9 de agosto de 2006• 10:13• Sem categoria
Brasil deve mudar política econômica para absorver 8 milhões de desempregados
Encontro reuniu em São Paulo alguns dos maiores especialistas brasileiros em mercado do trabalho, ligados à Unicamp, UFRJ e UFRRJ. Eles defenderam que país deve mudar a política econômica, focada no combate à inflação, e adotar políticas direcionadas à geração de novas vagas. China é exemplo.
SÃO PAULO – Se o Brasil quiser gerar postos de trabalho para seus oito milhões de desempregados, terá de mudar sua política econômica, desde 1994 focada quase que exclusivamente no combate à inflação, e adotar políticas direcionadas para a geração de novas vagas. Os exemplos a seguir são países como a China e a Índia, onde o receituário neoliberal do Consenso de Washington não foi adotado ipsis literis, e o Estado não abdicou de sua função planejadora na economia. Com os fluxos de capitais controlados e o câmbio desvalorizado, esses países crescem há anos a taxas superiores às brasileiras, gerando milhões de novas vagas para sua população.
Além de elevar seu crescimento econômico, o Brasil só poderá ser um país com trabalho para todos se for criativo e adotar políticas que indiretamente também favoreçam o nível de emprego. Entre elas, evitar a entrada precoce de jovens no mercado de trabalho, investindo em educação, e ampliar os benefícios para que os aposentados não tenham de voltar a trabalhar para complementar sua renda; ampliar o emprego público ao nível de alguns países europeus, pois o Brasil, ao contrário do difundido lugar comum, não possui um funcionalismo inchado; e, por fim, usar políticas alfandegárias permitidas pela Organização Mundial do Comércio para proteger setores de sua economia.
Essas foram as principais propostas discutidas por alguns dos maiores especialistas brasileiros em mercado de trabalho que participaram da segunda edição da série “Debates Carta Maior”, realizada segunda-feira (7) à noite, em São Paulo, e que teve como tema a geração de emprego e renda. O encontro, promovido com apoio da Revista do Brasil e patrocinado pela Petrobrás, reuniu idéias que não são seguidas pelas equipes econômicas escolhidas desde 1994 pelos governos de FHC e Lula. Rotuladas como heterodoxas por alguns e esquerdistas por outros, costumam ser demonizadas entre os economistas vinculados ao mercado financeiro. Mas nas fileiras das universidades brasileiras, essas propostas permanecem vivas, reforçando a contra-corrente ao pensamento hegemônico.
Secretário do Trabalho e Emprego na gestão de Marta Suplicy (PT) em São Paulo, o economista da Unicamp Marcio Pochmann põe em números o estrago que anos de estagnação econômica e ajuste neoliberal fizeram no mercado de trabalho brasileiro. Segundo ele, em 1989 o país possuía 1,8 milhões de desempregados e estava entre as treze nações com maior contingente fora do mercado. Hoje, aquele mesmo dado saltou para 8 milhões e o Brasil já é está entre as três nações com maior contingente de desempregados. O descompasso fica ainda mais claro quando se registra que o país tem 3,5% da População Economicamente Ativa do planeta, mas 6% dos trabalhadores sem emprego.
Para Pochmann, sem alterar o rumo da política econômica, o Brasil não sairá do buraco onde caiu. “Não vamos resolver o problema do emprego com políticas específicas do Ministério do Trabalho. A geração de vagas envolve políticas de todo tipo, como creditícias e cambiais, cujas metas devem ser o emprego. Mas desde 1994 nossa meta é a inflação, quando ela deveria ser apenas uma condicionalidade”, explicou. Conforme os dados do professor Anselmo dos Santos, também da Unicamp, a insistência nessa meta gerou algum crescimento nos últimos dois anos, mas o fosso social permanece se aprofundando. Entre 2002 e 2006, segundo seus dados, a proporção dos 10% mais pobres de São Paulo viu sua renda média cair de R$ 250 para R$ 226.
China como exemplo
Um país que cresce a taxas elevadas nos últimos anos, com base num capitalismo organizado pelo Estado, gerando milhões de novos postos de trabalho para a população. O caso chinês foi analisado pelo professor Carlos Alonso, da Unicamp, como um exemplo de política econômica a ser seguido pelo Brasil. Segundo ele, as experiências de crescimento sustentável – e esse é o caso da China – sempre se deram no bojo de um amplo projeto nacional. Essa é a história do pós-guerra na Europa, quando um Estado intervencionista implantou uma política de pleno emprego, e são essas as experiência atuais de sucesso, localizadas na Ásia.
“A China tem quatro grandes bancos estatais com crédito barato, faz o controle do câmbio e dos movimentos de capitais. Esse controle estatal é fundamental para que haja altas taxas de crescimento. Na Índia também o controle do crédito é estatal, assim como do câmbio e dos capitais”, afirmou Alonso. Para o economista, esses são os pressupostos que explicam a pujança das economias desses dois países emergentes, enquanto no Brasil o debate econômico fica localizado na casa decimal das reduções da taxa Selic.
Professor de economia da PUC de São Paulo, Ladislau Dowbor cita outro exemplo asiático de sucesso para justificar sua defesa por mudanças na política econômica brasileira. Assim como a China, a Coréia do Sul também tem um sistema de crédito controlado “com um lado voltado para setores de ponta e outro para as áreas mais atrasadas do país”. Segundo Dowbor, os coreanos conseguiram dividir a riqueza, forçando a divisão de grandes propriedades e só permitindo a instalação de multinacionais desde que elas exportassem.
Campo é opção
Apesar de a maioria da população brasileira viver nas cidades, o professor Sérgio Leite, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), defende que o campo pode contribuir muito com a geração de novas vagas. Não o agronegócio exportador, simbolizado pela sojicultura, que emprega pouco, mas a agricultura familiar e projetos de assentamento rural. “No caso dos assentamentos, cujo custo de implantação de uma família está entre 30 e 40 mil reais na média nacional, pesquisas mostram a capacidade de cada família gerar 3 novos postos de trabalho. O custo é baixo perto de outras áreas da economia. O Pronaf, iniciado no inicio dos anos 90 e que avançou mais recentemente, com setecentos a mil reais, que é uma operação de crédito, garante manutenção de 5 postos de trabalho em média, enquanto no Norte e Nordeste isso chega a 6 ou 7”, apontou.
Para o professor Cláudio Salm, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o campo pode colaborar, sim, com uma política de geração de empregos, desde que os projetos de agricultura familiar sejam vinculados à agroindústria emergente. Num dos poucos momentos de divergência durante o debate, Salm disse que a expansão da soja diretamente não cria emprego, mas o saldo não pode ser analisado apenas setorialmente. “O capitalismo é destruição e geração de empregos. O próprio David Ricardo, há 200 anos, defendia que a economia deveria ser aberta e se especializar, mas desde que o país se mantivesse dinâmico, senão seria um país de serviçais. Restaria apenas os empregos servis, o emprego doméstico. Se nada mudar, é nisso que a sociedade brasileira vai se tornar”, previu Cláudio Salm.
Por Marcel Gomes.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.
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