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Palavra de tucano

Quatro de novembro de 1994. O então candidato ao governo de São Paulo, Mário Covas, envia carta aos funcionários do Banespa com o compromisso de não privatizar o banco e, mais, dizia a missiva: “Meu compromisso é o de resgatar a grandeza e a tradição do BANESPA, bem como a dignidade de seus funcionários…”. A carta, com assinatura do próprio tucano, foi enviada para os então cerca de 36 mil trabalhadores do banco.
Mário Covas se elegeu governador e, em 29 de dezembro daquele ano, o governo de seu companheiro de plumas, Fernando Henrique Cardoso, decretou intervenção federal e deu início à privatização do banco.
Começava a longa luta dos funcionários para manter o maior banco público estadual do país.
Resposta rápida – Imediatamente após o anúncio da intervenção, o Sindicato dos Bancários de São Paulo e a Afubesp (Associação dos Funcionários do Banespa) mobilizaram os trabalhadores para dar uma resposta ao ataque governamental. Apenas quatro dias depois do anúncio da intervenção, em 2 de janeiro, ambas entidades realizaram um encontro nacional reunindo lideranças de todo o país (apesar de o banco ser paulista, possuía agências e representação sindical em diversos estados).
Segundo Eduardo Rondino, à época presidente da Afubesp, além da agilidade em organizar a resistência, o encontro teve o mérito de identificar que a luta pelo Banespa não se daria somente nos marcos trabalhistas. “Não era uma questão apenas da relação capital X trabalho, estava em jogo o projeto de desenvolvimento do Estado”. Por isso, continua Rondino, “decidimos envolver toda a sociedade nessa discussão e apresentar nossa proposta de banco público”.
O diagnóstico dos banespianos estava correto. De um lado, setores da esquerda democrática lutavam para manter o banco como propulsor de políticas sociais públicas, visto ser, então, o maior financiador dos pequenos agricultores no Estado. O próprio Covas, em sua demagógica carta, afirmava isso: “nem seria preciso recordar seu importante papel no desenvolvimento de nosso Estado, onde contribuiu decisivamente para o financiamento da agricultura, de estradas, metrô, salas de aula e, principalmente, na viabilização do saneamento básico em centenas de municípios”.
Acreditando ou não no que escreveu, o fato foi que Covas aceitou passivamente a decisão de Fernando Henrique, que queria (como conseguiu) vender o máximo possível do patrimônio público para fazer caixa para amortização da dívida pública – que, apesar das privatizações, saltou de R$ 108,8 bilhões (21,6% do PIB – Produto Interno Bruto), em 1994, para R$ 654,3 bi, (42,7% do PIB), ao final de 2002.
Apoio da sociedade – A partir da compreensão de que era necessário envolver a sociedade no debate sobre as privatizações, capitaneada pela tentativa de venda do Banespa, a Afubesp e o Sindicato iniciaram intensas articulações com prefeituras, câmaras municipais, pequenos agricultores e empresários. “Ampliamos o leque ideológico, conversamos com todo mundo, da esquerda à extrema direita, porque sabíamos que a venda do banco acarretaria grandes prejuízos para muitos municípios, diversos dos quais tinham no Banespa sua única agência bancária”, explica Rondino.
Seis anos de resistência – Ao longo do processo de intervenção e preparação para a venda, centenas de câmaras municipais de todo o país aprovaram moções exigindo a permanência do Banespa sob controle do Estado. Foram realizadas diversas audiências na Assembléia Legislativa e atos em frente ao palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual.
Em uma dessas manifestações, mais de 500 prefeitos de todo o país compareceram à sede do governo para uma audiência com Mário Covas. O governador atendeu os prefeitos e sindicalistas e disse não poder fazer nada contra a venda do banco, apesar de ter se comprometido publicamente em defendê-lo. Na saída da audiência, o governador e o banespiano Wagner Pinheiro (atualmente presidente da Petros, fundo de pensão dos petroleiros) travaram acalorado bate boca. Ao ser questionado, Covas colocou a mão no rosto de Wagner, o empurrou e proferiu um palavrão.
No início de 1995, economistas e lideranças tucanas diziam que a venda do banco era questão de meses, mas a mobilização dos trabalhadores garantiu seis anos de resistência: o banco foi vendido para o grupo espanhol Santander em 20 de novembro de 2000, por R$ 7,05 bilhões.
Desmanche pós-privataria – Dos 36 mil funcionários, o Santander Banespa conta com pouco mais de 20 mil atualmente, 12 mil dos quais contratados após a privatização. Ou seja, dos antigos funcionários de carreira do banco que “sempre foi motivo de orgulho para a família paulista” (ainda nas palavras de Covas), restaram aproximadamente apenas 8 mil.
O valor pelo qual o banco foi arrematado também gerou muitos questionamentos. Estudo realizado pelo economista Ricardo Carneiro, professor da Unicamp, apresentado na Câmara dos Deputados em 7 de dezembro de 2000, demonstrou que os critérios utilizados pelo Banco Fator (instituição que avaliou o patrimônio do banco) acarretaram uma diferença de, pelo menos, R$ 5 bilhões no preço mínimo de venda. Imóveis, como o histórico edifício da sede central do banco, um esplendoroso espigão construído nos anos 50, inspirado no Empire States (onde King Kong subiu com a bela Naomi Watts entre as mãos), sequer entrou na avaliação do patrimônio.
O Grupo Santander demitiu, fechou agências e recuperou com folga o valor investido na compra; apenas em 2005 o banco registrou o lucro líquido de R$ 1,744 bilhão. E qual foi a contrapartida social? Nenhuma. Em setembro deste ano, o Banco Central registrou 469 queixas contra serviços prestados por instituições financeiras: o Santander Banespa é o primeiro colocado em reclamações, seguido pelo ABN Real e o Unibanco.
Palavra de tucano – A exemplo de Mário Covas, o atual candidato tucano à presidência, Geraldo Alckmin, alardeia aos quatro cantos que não irá privatizar a Petrobrás, a CEF e o Banco do Brasil, entre outras empresas do povo brasileiro, e se comprometeu a assinar um documento antiprivatização para atrair o PDT, mesma ladainha proferida pouco antes de entregar a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP) aos norte-americanos e de buscar privatizar a linha 4 do Metrô. Na outra ponta, o guru dos emplumados, FHC, diz publicamente que não vê problema nenhum em vender a Petrobrás.
Alguém acredita, seriamente, que se Alckmin fosse eleito ele cumpriria essa promessa?

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Palavra de tucano

Quatro de novembro de 1994. O então candidato ao governo de São Paulo, Mário Covas, envia carta aos funcionários do Banespa com o compromisso de não privatizar o banco e, mais, dizia a missiva: “Meu compromisso é o de resgatar a grandeza e a tradição do BANESPA, bem como a dignidade de seus funcionários…”. A carta, com assinatura do próprio tucano, foi enviada para os então cerca de 36 mil trabalhadores do banco.

Mário Covas se elegeu governador e, em 29 de dezembro daquele ano, o governo de seu companheiro de plumas, Fernando Henrique Cardoso, decretou intervenção federal e deu início à privatização do banco.

Começava a longa luta dos funcionários para manter o maior banco público estadual do país.

Resposta rápida – Imediatamente após o anúncio da intervenção, o Sindicato dos Bancários de São Paulo e a Afubesp (Associação dos Funcionários do Banespa) mobilizaram os trabalhadores para dar uma resposta ao ataque governamental. Apenas quatro dias depois do anúncio da intervenção, em 2 de janeiro, ambas entidades realizaram um encontro nacional reunindo lideranças de todo o país (apesar de o banco ser paulista, possuía agências e representação sindical em diversos estados).

Segundo Eduardo Rondino, à época presidente da Afubesp, além da agilidade em organizar a resistência, o encontro teve o mérito de identificar que a luta pelo Banespa não se daria somente nos marcos trabalhistas. “Não era uma questão apenas da relação capital X trabalho, estava em jogo o projeto de desenvolvimento do Estado”. Por isso, continua Rondino, “decidimos envolver toda a sociedade nessa discussão e apresentar nossa proposta de banco público”.

O diagnóstico dos banespianos estava correto. De um lado, setores da esquerda democrática lutavam para manter o banco como propulsor de políticas sociais públicas, visto ser, então, o maior financiador dos pequenos agricultores no Estado. O próprio Covas, em sua demagógica carta, afirmava isso: “nem seria preciso recordar seu importante papel no desenvolvimento de nosso Estado, onde contribuiu decisivamente para o financiamento da agricultura, de estradas, metrô, salas de aula e, principalmente, na viabilização do saneamento básico em centenas de municípios”.

Acreditando ou não no que escreveu, o fato foi que Covas aceitou passivamente a decisão de Fernando Henrique, que queria (como conseguiu) vender o máximo possível do patrimônio público para fazer caixa para amortização da dívida pública – que, apesar das privatizações, saltou de R$ 108,8 bilhões (21,6% do PIB – Produto Interno Bruto), em 1994, para R$ 654,3 bi, (42,7% do PIB), ao final de 2002.

Apoio da sociedade – A partir da compreensão de que era necessário envolver a sociedade no debate sobre as privatizações, capitaneada pela tentativa de venda do Banespa, a Afubesp e o Sindicato iniciaram intensas articulações com prefeituras, câmaras municipais, pequenos agricultores e empresários. “Ampliamos o leque ideológico, conversamos com todo mundo, da esquerda à extrema direita, porque sabíamos que a venda do banco acarretaria grandes prejuízos para muitos municípios, diversos dos quais tinham no Banespa sua única agência bancária”, explica Rondino.

Seis anos de resistência – Ao longo do processo de intervenção e preparação para a venda, centenas de câmaras municipais de todo o país aprovaram moções exigindo a permanência do Banespa sob controle do Estado. Foram realizadas diversas audiências na Assembléia Legislativa e atos em frente ao palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual.

Em uma dessas manifestações, mais de 500 prefeitos de todo o país compareceram à sede do governo para uma audiência com Mário Covas. O governador atendeu os prefeitos e sindicalistas e disse não poder fazer nada contra a venda do banco, apesar de ter se comprometido publicamente em defendê-lo. Na saída da audiência, o governador e o banespiano Wagner Pinheiro (atualmente presidente da Petros, fundo de pensão dos petroleiros) travaram acalorado bate boca. Ao ser questionado, Covas colocou a mão no rosto de Wagner, o empurrou e proferiu um palavrão.

No início de 1995, economistas e lideranças tucanas diziam que a venda do banco era questão de meses, mas a mobilização dos trabalhadores garantiu seis anos de resistência: o banco foi vendido para o grupo espanhol Santander em 20 de novembro de 2000, por R$ 7,05 bilhões.

Desmanche pós-privataria – Dos 36 mil funcionários, o Santander Banespa conta com pouco mais de 20 mil atualmente, 12 mil dos quais contratados após a privatização. Ou seja, dos antigos funcionários de carreira do banco que “sempre foi motivo de orgulho para a família paulista” (ainda nas palavras de Covas), restaram aproximadamente apenas 8 mil.

O valor pelo qual o banco foi arrematado também gerou muitos questionamentos. Estudo realizado pelo economista Ricardo Carneiro, professor da Unicamp, apresentado na Câmara dos Deputados em 7 de dezembro de 2000, demonstrou que os critérios utilizados pelo Banco Fator (instituição que avaliou o patrimônio do banco) acarretaram uma diferença de, pelo menos, R$ 5 bilhões no preço mínimo de venda. Imóveis, como o histórico edifício da sede central do banco, um esplendoroso espigão construído nos anos 50, inspirado no Empire States (onde King Kong subiu com a bela Naomi Watts entre as mãos), sequer entrou na avaliação do patrimônio.

O Grupo Santander demitiu, fechou agências e recuperou com folga o valor investido na compra; apenas em 2005 o banco registrou o lucro líquido de R$ 1,744 bilhão. E qual foi a contrapartida social? Nenhuma. Em setembro deste ano, o Banco Central registrou 469 queixas contra serviços prestados por instituições financeiras: o Santander Banespa é o primeiro colocado em reclamações, seguido pelo ABN Real e o Unibanco.

Palavra de tucano – A exemplo de Mário Covas, o atual candidato tucano à presidência, Geraldo Alckmin, alardeia aos quatro cantos que não irá privatizar a Petrobrás, a CEF e o Banco do Brasil, entre outras empresas do povo brasileiro, e se comprometeu a assinar um documento antiprivatização para atrair o PDT, mesma ladainha proferida pouco antes de entregar a Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP) aos norte-americanos e de buscar privatizar a linha 4 do Metrô. Na outra ponta, o guru dos emplumados, FHC, diz publicamente que não vê problema nenhum em vender a Petrobrás.

Alguém acredita, seriamente, que se Alckmin fosse eleito ele cumpriria essa promessa?

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