Valor – Maria Christina Carvalho, De São Paulo
A redução da inadimplência, os ganhos da tesouraria com a recuperação da carteira de títulos e o crescimento da receita de serviços, seguros, previdência e capitalização explicaram o aumento de 14% do lucro líquido do Bradesco no ano passado. O lucro passou de R$ 2,023 bilhões em 2002 para R$ 2,306 bilhões em 2003.
Foi um lucro líquido recorde para o banco, disse o presidente Márcio Cypriano, que comemorou a expansão no varejo propiciada pelas aquisições do exercício das operações brasileiras do espanhol Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA) e do Banco Zogbi.
No quarto trimestre, o lucro líquido deu um salto de 26,8% para R$ 715 milhões. Mas, o maior lucro de um banco brasileiro continua sendo o de R$ 2,736 bilhões, registrado pelo Banespa em 2002, que corre o risco de ser superado neste ano pelo Itaú, com R$ 2,298 bilhões acumulados até setembro.
As ações preferenciais do Bradesco subiram 2,85% para R$ 14,80 o lote de mil, ontem, dia em que a Bovespa caiu 0,3%. O analista Paul Tucker, da Merrill Lynch, notou a contribuição significativo para o resultado do quarto trimestre da venda da participação do banco na Latasa, com impacto bruto de R$ 195 milhões, neutralizado em parte pela amortização de R$ 1,035 bilhão de ágios pagos em aquisições, dos quais R$ 799 milhões antes do previsto.
O patrimônio do Bradesco cresceu mais do que o lucro, 24,9%, para R$ 13,547 bilhões, de modo que a rentabilidade ficou em 17%, menos do que os 18,7% de 2002. O patrimônio foi reforçado com a emissão de US$ 500 milhões em dívida subordinada, em outubro, e o ganho de R$ 479 milhões com a marcação a mercado de títulos disponíveis para a venda.
Para este ano, Cypriano espera um retorno semelhante, na faixa de 17% a 18%, embora projete uma expansão bem maior do crédito. O aumento das operações, explicou, será em parte neutralizado pela redução dos juros e dependerá da evolução da economia.
A taxa básica (Selic) deve terminar o ano em 13,5%, em comparação com 16,5% agora, segundo o departamento de pesquisas do banco, que projeta uma expansão do PIB de 3,8%.
O Bradesco pretende, neste ano, aumentar de 22% a 25% o crédito, bem mais do que os 7% registrados em 2003, que levaram a carteira de R$ 50,8 bilhões para R$ 54,336 bilhões. O banco esperava aumentar a carteira ao redor de 10% no ano passado, mas o fraco desempenho econômico inibiu a demanda, explicou Cypriano. “O crédito em consignação foi uma decepção”, afirmou. E o microcrédito, também foi tímido (ver matéria abaixo).
De toda forma, a carteira de crédito do Bradesco cresceu mais do que a média de 3,8% dos bancos privados e avançou especialmente nas operações com grandes empresas e financiamento ao consumo. A fatia de crédito para grandes empresas passou de 41,7% para 45,3% da carteira; a das pequenas e médias empresas diminuiu de 31,5% para 25,9%; e a das pessoas físicas subiu de 26,8% para 28,8%.
A carteira de financiamento ao consumo, salientou Cypriano, fechou dezembro em R$ 12,5 bilhões, com crescimento de R$ 2,5 bilhões ao longo do ano, sem contar com as operações do Zogbi, aquisição feita no final do ano que pode ser aprovada pelo Banco Central (BC) nesta semana. Só o financiamento de automóveis cresceu R$ 1,4 bilhão no ano para R$ 7,4 bilhões.
As outras linhas importantes são o crédito pessoal, com R$ 2,8 bilhões; leasing, R$ 1,5 bilhão; cartão de crédito e aquisição de bens, com R$ 400 milhões cada um. A incorporação do Banco Zogbi vai reforçar a ação do Bradesco especialmente no financiamento de bens do ramo mole (vestuário). O banco tem 34 filiais em São Paulo e um sistema com capacidade para quadruplicar as operações, disse Cypriano.
Com a queda dos juros, as receitas obtidas com as operações de crédito encolheram 21,83%, de R$ 15,727 bilhões em 2002 para R$ 12,294 bilhões. Mas, a qualidade da carteira melhorou. Os créditos com atraso até 60 dias (classificações AA a C, nas regras do Banco Central) representavam 91,2% da carteira no final do ano passado em comparação com 90,9% um ano antes.
A melhoria permitiu a redução de 13% nas despesas com provisões de crédito, de R$ 2,819 bilhões para R$ 2,45 bilhões. O saldo das provisões de crédito, porém, cresceu R$ 394 milhões no ano para R$ 4,059 bilhões, com um excedente de R$ 859 milhões, informou o vice-presidente de relações com investidores, José Luiz Acar Pedro.
Outras fontes de ganhos foram as receitas de serviços, seguros, previdência e capitalização, alimentadas pelo aumento de 1,5 milhão para 14,5 milhões da carteira de clientes. Neste ano, pretende agregar mais 1,5 milhão a 2 milhões de clientes. A receita de serviços saltou 22,76% para R$ 4,557 bilhões; e a de seguros, 23,29% a R$ 12,495 bilhões.
A apreciação do real, disse o diretor vice-presidente Milton Vargas, causou uma perda de R$ 487 milhões, coberta pela provisão de R$ 500 milhões feita em 2002. Segundo Tucker, o Bradesco finalmente reduziu a posição comprada em dólar para menos de R$ 200 milhões. O banco está revendo para baixo a taxa de câmbio esperada para o final do ano, de R$ 3,12.
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