SÃO PAULO – A cada ano, o Dia Internacional da Mulher é um momento para contabilizar o progresso e os desafios a serem enfrentados em relação à permanente desigualdade de gênero que existe no mundo. Neste dia, a imprensa escreve sobre a presença feminina no mercado de trabalho, nos postos de direção, na política. Fala do papel da educação para romper preconceitos, enaltece a luta de mulheres que realizam triplas jornadas em seu cotidiano e denuncia a violência física da qual ainda são vítimas, dentro de suas próprias casas. Mas o que faz a imprensa no restante do ano? Como os veículos de comunicação contribuem para a igualdade de gênero ou para o reforço de preconceitos?
Para responder a essa questão, desde 1995, a cada cinco anos, a WACC (World Association for Christian Communication), uma organização internacional que promove a comunicação como fator de transformação social, realiza um projeto global de monitoramento da mídia, onde mapeia a representação de mulheres e homens na imprensa do mundo inteiro. É o maior estudo sobre gênero no noticiário já realizado. O último levantamento aconteceu no ano passado, quando, durante um dia, em 76 países, cerca de 13 mil notícias publicadas em jornais e veiculadas na televisão e no rádio foram analisadas. Nelas, 25.671 fontes foram ouvidas ou citadas, por 14.273 jornalistas ou apresentadores.
Pela primeira vez, reportagens brasileiras entraram no estudo, numa parceria com a Universidade Metodista de São Paulo e a Rede Mulher de Educação. Neste ano, também cresceu a participação de países do Leste Europeu e da antiga União Soviética. Os resultados, apresentados recentemente em Londres, são impressionantes, e revelam um mundo onde a mulher é praticamente invisível. “A prática da representação feminina identificada pelo relatório em todo o mundo leva a uma aniquilação simbólica das mulheres pela exclusão de suas vidas e a “trivialização” de suas experiências”, disse a professora de comunicação da Universidade de Tel Aviv, Dafna Lemish, durante o evento na Inglaterra.
O estudo mostrou que, mesmo constituindo 52% da população mundial, as mulheres aparecem em apenas 21% das notícias. Ou seja, para cada mulher que aparece no noticiário, cinco homens são retratados. No rádio, este percentual é ainda menor: 17%. Em dez anos, apesar de toda a revolução no mundo das telecomunicações, este total evoluiu muito pouco, aumentando somente em três pontos. Quando é feita uma análise qualitativa da presença de mulheres como fontes em reportagens, o estudo mostra que a opinião feminina é retratada em somente 14% dos artigos sobre política e em 20% sobre economia, os dois temas que dominam a agenda dos países. Mesmo em Ruanda, o país que tem a maior proporção de mulheres no mundo político (49%), elas aparecem em apenas 13% das notícias sobre o tema. Até em histórias que afetam profundamente as mulheres, como a questão da violência doméstica, globalmente é a voz do homem que prevalece, em 64% dos casos.
A voz feminina também é preterida quando se trata de ouvir a opinião de especialistas. 83% deles são homens. As mulheres, ao contrário, aparecem para relatar experiências pessoais (31% dos casos), como exemplos da opinião popular (33%) ou quando são celebridades (42%). E são duas vezes mais retratadas como vítimas do que os homens, mesmo em casos que afetam da mesma forma os dois gêneros, como acidentes e conflitos armados.
REFORÇO DE ESTEREÓTIPOS
Apesar da emancipação feminina e do brutal crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho, as mulheres continuam sendo identificadas pela imprensa como esposas, mães ou filhas. Mesmo quando aparecem desempenhando algum papel profissional, como especialistas de alguma área, as mulheres não escapam da relação com o contexto familiar.
“Então, enquanto os homens são valorizados como indivíduos autônomos, o status da mulher deriva originalmente de sua relação com outras pessoas. É dessas relações, muito mais do que de sua individualidade, que a mulher obtém sua autoridade”, afirma o relatório internacional.
Outro dado interessante é o que revela que as mulheres dificilmente são o foco central de uma matéria. Apenas 10% das notícias mundiais – apensar de em países como Estados Unidos e Canadá chegarem a 20% – as colocam como o centro do acontecimento a ser destacado. A proporção varia de acordo com a pauta. Mulheres são centrais em 17% das notícias consideradas “leves”, e em apenas 3% das notícias sobre economia.
Segundo os autores do relatório da WACC, quando age desta forma a mídia distorce a realidade, “inflacionando” a importância de determinados grupos e marginalizando outros. A prática jornalística faz isso de diferentes formas, desde o ângulo escolhido para abordar uma história até as questões e a linguagem usadas numa entrevista. Tudo isso contribui para mensagens subliminares passadas nas notícias.
“A mídia de todos os tipos, inclusive a internet, está o tempo todo nos construindo como sujeitos sociais. Da mesma forma que reflete a sociedade, contribui para reforçar estereótipos. É uma via de mão dupla. Por isso a imprensa sempre foi muito importante para aumentar ou não as discriminações, sejam elas raciais, de gênero, religiosas. Quando chama um grupo de terrorista, está passando para o imaginário popular a idéia daquele grupo como grupo terrorista. O mesmo acontece com os estereótipos de gênero”, analisa Vera Vieira, coordenadora executiva da Rede Mulher, que representou o Brasil no levantamento.
E o estudo mostrou que há duas vezes mais reportagens que reforçam estereótipos de gênero do que matérias que os desafiam. Ao mesmo tempo, a própria (des)igualdade de gênero não é considerada digna de ser notícia. 96% das matérias do mundo inteiro não ressaltam este tema, sendo que as demais estão concentradas em áreas como direitos humanos, relações familiares ou ativismo feminista – assuntos que geralmente recebem pouco destaque dentro do conjunto de artigos de um veículo. Mesmo nesses casos, a imensa maioria dessas matérias é escrita por jornalistas mulheres.
POR TRÁS DA NOTÍCIA
Parte deste quadro de ausência da visão feminina na imprensa é resultado do fato de que as notícias ainda são relatadas e apresentadas principalmente por homens. A única exceção é a apresentação televisiva, onde as mulheres representam 57%. Na reportagem, no entanto, as mulheres só são maioria na cobertura de assuntos sobre pobreza e bem-estar social e nas previsões meteorológicas. Em outros meios, elas são minoria, e o desequilíbrio fica mais evidente em jornais, onde apenas 28% dos artigos são escritos por repórteres femininas. Mesmo neste caso, a tendência é a das mulheres cobrirem temas sociais, como educação e saúde. Apenas 32% das notícias sobre política e governo são relatadas por jornalistas mulheres.
De 1995 pra cá, este percentual tem aumentado. Cresceu de 28 para 37%, mas ainda apresenta desafios. Na televisão, por exemplo, as mulheres desaparecem conforme ficam mais velhas. Na profissão, a aparência jovem em muitos casos é mais valorizada do que a experiência. Até a idade de 34 anos, as mulheres são maioria na TV tanto no posto de apresentadoras como de repórteres. Depois dos 50 anos, somente 17% dos repórteres mulheres, e 7% dos apresentadores.
“Com tão poucas mulheres sobretudo nas reportagens que dominam a pauta do noticiário, o conteúdo reportado pela imprensa segue refletindo as prioridades e perspectivas masculina”, dizem os pesquisadores. “Como a imprensa é a principal fonte de informações, de idéias e opiniões das pessoas em todo o mundo, interessa profundamente quem e o que é selecionado para aparecer nas coberturas. Da mesma forma, interessa o que é deixado de fora”, afirmam.
A importância do monitoramento da mídia como uma ferramenta de transformação foi oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas em 1995, na Plataforma de Ação da Conferência de Beijing, que considerou urgente que organizações da sociedade civil e associações de profissionais de mídia encorajassem o estabelecimento de observatórios de mídia e desenvolvessem consultorias para garantir que as questões femininas fossem corretamente refletidas nos meios de comunicação.
“A mulher é vítima de preconceitos de gênero há milênios, numa construção que sempre a colocou em situação de subordinação em relação ao homem. Isso traz sérias conseqüências para o sociedade. Há cada 15 segundos, uma mulher é espancada. Há um número maior de mulheres do que de homens nas universidades, e quando essas mulheres assumem um posto no mercado de trabalho, ganham 30% a menos do que homens. As mulheres negras, menos ainda. Essa discriminação, portanto, tem conseqüências reais, que estão nas estatísticas”, afirma Vera.
“Não é uma questão de saber quem vai ficar com a maior fatia do bolo, mas de modificar a receita do bolo. Daí a importância da mídia estar atenta e desempenhar um papel na via contrária. Em ver de reforçar, combater preconceitos. Seu papel não é só de refletir a sociedade, mas é também educativo, central na construção de um outro mundo. Quando a Globo apresenta mulheres repórteres e âncoras que atendem ao chamado “padrão global”, eu não me vejo retratada ali. A mulher negra se vê? A gorda, a idosa? Então eu não me vejo enquanto sujeito nessa sociedade. Dá pra ser diferente. Mudar a receita do bolo é algo que vai beneficiar mulheres e homens”, acredita a coordenadora da Rede Mulher.
Na opinião da WACC, o caminho pra essa transformação passa por trabalhos que vão desde o desenvolvimento de políticas públicas de comunicação até o treinamento de jornalistas. É preciso criatividade e compromisso, do contrário a maioria das notícias continuará a ser, na melhor das hipóteses, cega a essas questões. Na pior, cúmplice deste cenário.
“É um trabalho difícil, de formiguinha, mas que tem que começar a ser feito. Um trabalho de desconstrução de uma cultura milenar não se faz do dia pra noite. É algo que está enraizado”, avalia Vera. Certamente, um desafio que precisa ser lembrado e encarado não apenas em um único dia do ano.
Para saber mais sobre o relatório, visite a página www.whomakesthenews.org.
Por Bia Barbosa – NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.
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