Movimentos em campanha por mudanças
Em 17 capitais, organizações populares, que definiram apoio a Lula, realizaram mobilizações para discutir um projeto de transformação social
Em campanha para a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, integrantes dos principais movimentos sociais, articulados na Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), realizaram manifestações em 17 das capitais brasileiras, nos dez últimos dias antes do segundo turno da votação, marcado para 29 de outubro. As organizações marcaram presença em ruas, terminais de ônibus, portas de fábricas no entorno das cidades. Naquelas onde a disputa entre Lula e Geraldo Alckmin, do PSDB, está acirrada, a mobilização foi maior.
O alvo das ações é são os locais onde haja concentração de trabalhadores, explica José Batista, da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), organização que participa da CMS, assim como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), Marcha Mundial das Mulheres, entre outras. Para ele, o objetivo da campanha é ir além das habituais panfletagens e, diz, criar um debate político sobre o modelo de desenvolvimento do país. “Queremos atingir as pessoas que podem vir a se organizar. Nosso esforço pretende fazer a disputa de idéias, fortalecendo um projeto de mudanças sociais”, explica.
Em cada Estado, a CMS articula-se de um modo diferente. Antes do início do segundo turno, não houve campanha, apesar de organizações da Coordenação apoiarem o candidato petista. Com o crescimento de Alckmin, que chegou ao segundo turno apesar de ser dada como certa a vitória de Lula na primeira etapa da votação, os movimentos fizeram um consenso para enfrentar o modelo representado pelo tucano.
Na avaliação de Batista, a ação dos movimentos não pretende “apenas eleger o Lula, mas fazer uma avaliação crítica do novo governo, em nome de um projeto político maior”. O coordenador conta que, desde 2005, há um esforço da CMS para apresentar propostas de mudança diretamente ao governo, inclusive na área econômica. Estas foram reunidas no documento Projeto Brasil.
Momento oportuno
Para Dirceu Fumagalli, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o papel da entidade neste momento é articular-se com pastorais e movimentos, por meio de encontros e fóruns, sobretudo o Fórum de Reforma Agrária. “Para contribuir na análise da conjuntura, o que pode ajudar no desenvolvimento de estratégias”, diz.
O representante da entidade eclesial considera que Lula, ao receber o apoio dos movimentos sociais, passa a ter uma obrigação com os movimentos. Algo que certamente não ocorreria se as organizações não estivessem realizando as manifestações de apoio. Para ele, os movimentos estão tendo um papel fundamental no crescimento de Lula nas pesquisas, cuja reeleição, se depender de seus resultados nas pesquisas eleitorais, está garantida.
Fumagalli entende que a posição dos movimentos é de estar na rua conversando, “a partir de questões importantes e não se sentir acanhados, pois, se alguém errou, não foi a militância”.
Relato das ruas
Da fábrica para o calçadão do Centro. Em Curitiba (PR), é este o roteiro desenhado pelos movimentos sociais para participar da campanha. As ações começam com visitas a montadoras estrangeiras, na cidade industrial, aproveitando a entrada no trabalho logo de madrugada. Incluem ainda terminais, prédios públicos, trocas de turno em bancos. A pura panfletagem é substituída pela tentativa de um debate com os passantes.
Roni Anderson Barbosa, presidente da CUT do Paraná, diz que o objetivo de discutir as eleições com a classe trabalhadora, prioritariamente. “A campanha está sendo feita da fábrica para o Centro, buscando dar firmeza para o eleitor”, diz. Ele comemora as pesquisas que apontam que Lula ultrapassou Alckmin no Estado, onde o tucano teve a maioria dos votos no primeiro turno.
Em 19 de outubro, as entidades organizaram uma caminhada pelo calçadão da rua 15, na chamada maré vermelha, quando todos saíram vestidos com a cor do PT. Ao mesmo tempo, em Brasília (DF), os movimentos entregaram um conjunto de propostas organizadas em 13 pontos ao ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias. De imediato, as lideranças pediram uma audiência com Lula após as eleições. E para a frente o compromisso com um projeto popular.
Na maré vermelha, na capital paranaense, estavam presentes organizações como a Pastoral Operária, cuja participação foi estimulada por uma carta escrita por Frei Betto sobre as razões para votar em Lula, publicada na edição 189 do Brasil de Fato, relata a coordenadora regional da organização Cármina Azevedo. No texto, intitulado “Carta aberta aos eleitores cristãos”, o frade dominicano escreve: “Lula ainda nos deve muito do que prometeu ao longo de suas campanhas presidenciais, como a reforma agrária. Porém, o Brasil e a América Latina serão melhores com ele do que sem ele. Se você está convencido disso, trate de convencer também outros eleitores”.
Não dá para negar, entretanto, uma apatia visível tanto na militância como nos passantes nas ruas. Na avaliação de José Batista, quebrar isso é o principal desafio dos movimentos sociais. Em 21 de outubro, em comício realizado por Lula em Curitiba, três quadras completas foram tomadas de pessoas para ouvi-lo. Apesar dos anseios dos movimentos sociais, não falou sobre projeto de transformação em pontos como a política econômica. Em uma exclamação espontânea, uma das pessoas, presente no comício, resume a posição dos movimentos: “No começo do próximo mandato, se o Lula não se aliar ao povo, está perdido”.
Fórum de Reforma Agrária – Constituído em 1995, o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo tem o objetivo de contribuir para a articulação das ações desenvolvidas pelas várias organizações que apóiam a realização da reforma agrária no Brasil. De caráter amplo e pluripartidário, ficou a cargo da CPT secretariar o Fórum, ajudando a mantê-lo vivo e atuante.
Por Pedro Carrano Neto – Curitiba (PR).
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.brasildefato.com.br.
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