A Campanha Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro chega a terceira semana com negociações sobre o emprego do trabalhador bancário. Nos dias 13 e 14 (quinta e sexta-feira), a categoria estará lutando por garantias no emprego, garantias contra a dispensa imotivada, contra a terceirização e por um horário de atendimento que seja adequado à comunidade, desonerando a carga de trabalho do bancário.
Nos últimos seis anos, os ativos dos bancos aumentaram em mais de 500%. Por outro lado, nesse mesmo período, os trabalhadores bancários receberam um aumento de apenas 51%, à custa de metas abusivas, assédio moral e violência organizacional, práticas cada vez mais comuns nas unidades bancárias. Em outras palavras, se o trabalhador bancário não atinge determinada meta, é perseguido no local de trabalho com ameaças reais de demissão.
A Contraf-CUT, FETEC-CUT-PR e seus sindicatos filiados não aceitam essa situação e exigem garantia no emprego, com a ratificação da Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho e reajuste salarial condizente com os lucros exorbitantes dos banqueiros.
A Convenção 158 prevê motivos que não podem ser usados como causa para demissão justificada. Entre elas, a filiação ao sindicato ou participação em atividades sindicais fora das horas de trabalho, ou com o consentimento do empregador durante a jornada laboral; ser candidato ou representante dos trabalhadores, ou ter atuado nesta área; apresentar queixa, ou participar de um procedimento contra o empregador por supostas violações de direito, ou ainda recorrer perante autoridades administrativas competentes; a raça, a cor, estado civil, responsabilidades familiares, gravidez, religião, opiniões públicas, ascendência nacional ou origem social; ausência ao trabalho durante a licença-maternidade; ausência corporal por motivo de doença ou lesão devidamente atestada por profissional médico.
A Convenção estabelece ainda, que não se pode dar causa para demissão por motivos relacionados a seu desempenho ou comportamento, sem antes dar oportunidade de se defender das acusações. No entanto, algumas categorias de trabalhadores podem ficar sem a proteção da Convenção 158, como trabalhadores temporários, com contrato por tarefa determinada ou que estejam em período de experiência.
Além das expectativas econômicas
Para o trabalhador bancário Márcio Kieller (Itaú), diretor do Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região, o debate sobre o emprego do trabalhador bancário vai além das expectativas econômicas. “A demanda nos serviços bancários é cada vez mais alta, porém, os banqueiros querem lucrar cada vez mais com um gasto cada vez menor. A categoria não pode e não vai aceitar essa posição”, afirmou.
Para Kieller, os bancos mantêm uma política predatória em relação ao trabalhador bancário através da chamada “remuneração variável”. Sob a justificativa de que quanto maior o esforço, maior o ganho do trabalhador, muitos acabam adoecendo, não conseguem cumprir as metas estipuladas e acabam sendo simplesmente “descartados” do mercado de trabalho. “Não há a preocupação com o ser humano”, alertou.
A remuneração variável e a imposição de metas abusivas para os trabalhadores bancários vêm se constituindo práticas comuns, sobretudo nos bancos privados. “Esta competição contra si mesmo faz do bancário um fantoche nas mãos dos bancos”, conforme avalia o trabalhador bancário Armando Dibax (Unibanco), Secretário de Organização da FETEC-CUT-PR e um dos mais combativos contra a remuneração variável. “No Unibanco, por exemplo, os recursos da RV são distribuídos conforme tabela, mas também há diferenças de avaliação entre os bancários, influenciando diretamente na remuneração,” explicou.
Bradesco e Itaú também não fogem à regra. O índice de lucratividade apresentado pelos dois bancos no último semestre é um reflexo do empenho e da dedicação dos trabalhadores na busca pelas metas. “São bancos gigantes, campeoníssimos no quesito lucratividade, que investem horrores em merchandising, faturaram juntos mais de R$ 10 bilhões no último semestre somente em receita de prestação de serviços, mas que não premiam os seus trabalhadores com benefícios à altura de seus lucros”, afirmou Elias Hennemann Jordão, trabalhador bancário no Bradesco e Secretário de Administração e Finanças da FETEC-CUT-PR. Os benefícios mais “palpáveis” são a isenção de tarifas bancárias e, no caso do Itaú, a bolsa educação, uma das mais recentes conquistas do movimento sindical bancário.
Contra a terceirização
Outro tema que vem sendo exaustivamente debatido pelo movimento sindical é a terceirização e seus efeitos. Os bons resultados da economia brasileira vêm ocasionando uma visível retomada no crescimento do emprego bancário. Porém, esta recuperação é menos significativa que em outros setores da economia e se comparada à evolução dos lucros e ao crescimento do próprio setor ela é ainda menor. Para aumentar ainda os seus lucros, os bancos estão contratando trabalhadores terceirizados, oriundos de outras atividades profissionais.
Para o trabalhador bancário Roberto Von der Osten (Itaú), diretor da FETEC-CUT-PR e membro do Comando Nacional da Campanha Salarial dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, o fenômeno é generalizado, isto é, está presente tanto nos bancos públicos quanto nos bancos privados. “Cada vez que o banco retira um bancário e coloca um terceirizado, paga um piso menor e ainda impõe uma jornada de oito horas de trabalho”, afirmou, lembrando que o principal efeito da terceirização é a precarização da qualidade dos serviços bancários. “Diminui o número de empregos, diminui a qualidade da mão-de-obra e, em contrapartida, a demanda dos serviços bancários é cada vez maior”, explicou.
A Terceirização nos bancos não está presente apenas no atendimento, mas também nos serviços de retaguarda, tesouraria, compensação bancária, entre outros que anteriormente eram executados por trabalhadores do setor.
O movimento sindical bancário entende que parte dos altos lucros auferidos pelos bancos precisam ser repassados à sociedade através de investimentos nas áreas mais críticas para a melhoria no atendimento. Isso inclui aspectos como segurança, redução das taxas e qualificação da mão-de-obra nas agencias bancárias, fator que não é levado em conta no momento em que ocorre a terceirização. “Isso rebaixa a qualidade do emprego e quem acaba ‘pagando o pato’ é a categoria que se sente desmotivada, desprestigada e desvalorizada”, finalizou Von der Osten.
Por Edson Junior
FETEC-CUT-PR
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