Povos da floresta plantam árvores para encerrar encontro
Brasília – Cerca de cinco mil pessoas participaram do 2º Encontro dos Povos das Florestas, encerrado hoje (23) em Brasília, com o plantio de mudas de árvores do cerrado no Jardim Zoológico. Por causa do período da seca, apenas 15 mudas foram plantadas, mas a previsão dos organizadores é plantar mais 200 árvores após a chegada das chuvas na capital federal.
A atividade foi acompanhada por representantes de etnias indígenas que participaram do evento, como Sabá Haji Manchineré, cujo povo habita a região de fronteira entre o Acre e o Peru. Sabá elogiou a inicativa e disse que espera voltar ao local daqui a dez anos para ver como ficaram as árvores plantadas hoje.
Além de representantes de 80 etnias indígenas, o encontro reuniu ribeirinhos, pescadores, quebradeiras de coco e representantes do governo federal e estaduais, da iniciativa privada e de movimentos sociais ligados aos biomas da Amazônia, do Cerrado, da Mata Atlântica, da Caatinga, do Pantanal e do Pampa.
O encontro marcou a retomada da Aliança dos Povos da Floresta, formada pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), pelo Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), e pelo Grupo de Trabalho Amazônico (GTA).
Desde a última terça-feira (18), os participantes discutiram questões como aquecimento global, conhecimento tradicional, comércio justo, biodiversidade, redução da pobreza e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Na sexta-feira (21), divulgaram a Declaração dos Povos da Floresta, em que reafirmam o papel estratégico que desempenham na proteção das florestas, dos recursos naturais e da biodiversidade.
No documento, os representantes dos povos da floresta pedem um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para eles, “o modelo de desenvolvimento e civilizatório em curso no nosso país, caracterizado por grandes obras de infra-estrutura”, ainda é “predatório e ameaçador ao nosso patrimônio natural e cultural”.
Por isso, pedem a definição de metas e estratégias em busca de soluções para as questões climáticas, por exemplo. Na declaração, também defendem a necessidade de um modelo alternativo de desenvolvimento “ambientalmente sustentável e socialmente”.
Uma das reivindicações é que os povos indígenas e comunidades tradicionais sejam “remunerados dignamente pelos serviços ambientais prestados ao Brasil e ao mundo por nossas regiões preservadas diante um cenário de mudanças climáticas”.
Outro ponto defendido pelos participantes é a que a educação ambiental passe a ser oferecida no ensino formal, médio e superior.
Por Juliana Andrade e Leandro Martins – Da Radiobrás.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciabrasil.gov.br.
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Entidades querem maior participação nas políticas ambientais
Populações tradicionais reivindicam sua importância fundamental na luta contra o desmatamento, o aquecimento global e a perda da biodiversidade. Adoção de mecanismos de incentivo aos povos da floresta é debatida por Lula e pelos ministros Marina Silva e Patrus Ananias.
BRASÍLIA – Sem a efetiva participação dos povos da floresta, o governo brasileiro não conseguirá desenvolver de forma satisfatória políticas de enfrentamento aos problemas ambientais mais urgentes, como o aquecimento global e a perda da biodiversidade. Essa constatação foi feita por diversas lideranças de organizações representativas das comunidades indígenas, de seringueiros, de extrativistas e de ribeirinhos presentes ao 2º Encontro Nacional dos Povos da Floresta, que acontecerá até domingo (23) no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília.
Diante do recado, os representantes do governo que passaram pelo encontro nos últimos quatro dias, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros Marina Silva (Meio Ambiente) e Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), afirmaram o desejo de envolver os povos da floresta na elaboração e execução das políticas públicas ambientais. Foram também debatidas propostas de criação de políticas de serviços ambientais e de desenvolvimento sustentável para as populações tradicionais, além da promessa de que os povos da floresta terão participação concreta na implementação do Programa Nacional de Enfrentamento das Mudanças Climáticas que está sendo elaborado pelo governo.
“O Brasil pode ser um líder na busca de soluções para enfrentar o aquecimento global. Nós estamos fazendo a nossa parte e queremos ajudar o governo a construir essa alternativa”, afirma Jecinaldo Sateré-Mawé, que é presidente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Jecinaldo propõe que os povos da floresta recebam incentivos econômicos pelos serviços ambientais prestados à sociedade: “Temos a oportunidade de criar mecanismos de investimento em um modelo de desenvolvimento sustentável e justo. Para isso, o governo brasileiro precisa trabalhar para incluir nossas florestas em pé e nossos esforços para evitar o desmatamento nos mecanismos de financiamento do mercado de carbono, sobretudo no âmbito da Convenção do Clima das Nações Unidas”.
Secretário-geral do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), rede que congrega 623 organizações, Adílson Vieira defende que os esforços para combater o desmatamento e proteger a biodiversidade passem a integrar as políticas dos governos federal e estaduais para os povos da floresta: “Não vai adiantar criar Unidades de Conservação e Terras Indígenas se a vida for inviabilizada nessas áreas. A criação de um programa de pagamento pelos serviços ambientais deve ser uma política pública prioritária no governo federal e em todos os estados”, diz.
Outra proposta levantada durante o encontro foi a criação de um “PAC Socioambiental”, que teria o objetivo de ajustar as medidas de crescimento econômico do país a uma agenda que garanta a sustentabilidade dos povos tradicionais espalhados pelos diversos biomas brasileiros, como a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Mata Atlântica, a Caatinga e os Pampas: “O PAC, em sua forma atual, não leva em conta a sobrevivência dos povos da floresta. Existem, por exemplo, problemas com alguns projetos de infra-estrutura e com a soja avançando na Amazônia. Não somos contra o PAC, mas é preciso que ele seja mais bem discutido e aprimorado”, afirma o presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), Manoel Cunha.
Promessas de Lula e Marina
Diante de tantas reivindicações num mesmo sentido, Lula garantiu às lideranças presentes que os povos da floresta terão seu espaço nas políticas formuladas pelo governo e falou de seu empenho “pela adoção de uma política nacional de desenvolvimento sustentável para as populações tradicionais”. O presidente disse ainda que seu governo já adota políticas inspiradas nos movimentos sociais da floresta: “O empate, hoje, é uma política de governo”, disse, referindo-se ao método de luta criado por Chico Mendes e que consistia em ficar parado ao lado das árvores para impedir a ação dos tratores e moto-serras.
Marina Silva afirmou que o Programa Nacional de Enfrentamento das Mudanças Climáticas leva em conta “todos os biomas do Brasil e todos os povos de nossas florestas”. A ministra ressaltou a importância de algumas “políticas de transição” defendidas pelo governo brasileiro, como a proposta de criação de um mecanismo multilateral de incentivos positivos aos países que evitarem o desmatamento florestal: “As entidades representativas dos povos da floresta devem dar sustentação política às mudanças que estão sendo sugeridas pelo governo brasileiro”, disse.
Bolsa-Verde
Durante o 2º Encontro Nacional dos Povos da Floresta, o secretário de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Egon Krakhecke, afirmou que o governo estuda a criação “de uma política, de um plano e de um fundo nacional de serviços ambientais”. As discussões nesse sentido entre o MMA, e os ministérios do Desenvolvimento Social e do Desenvolvimento Agrário, segundo o secretário, já foram iniciadas: “O pagamento por serviços ambientais vai ser, por excelência, o mecanismo para a inclusão dos pequenos produtores”, disse.
Durante a mesa de debate que discutia propostas de redução da pobreza entre os povos da floresta, Krakhecke sugeriu ao ministro Patrus Ananias uma parceria que possibilitasse a criação de uma “bolsa-verde nos mesmos moldes do Bolsa-Família”. Esse serviço atenderia às populações menos favorecidas com uma remuneração pelos serviços ambientais prestados em termos de preservação da floresta e da biodiversidade. O ministro prometeu estudar a proposta.
Por Maurício Thuswohl – Carta Maior.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.
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A Amazônia dos povos da floresta
Dirigente do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) e membro do Conselho Internacional do FSM, Adilson Vieira faz um raio X da realidade vivida pelas populações tradicionais da Amazônia nos últimos 20 anos e a importância da realização do FSM 2009 para os povos da floresta.
BRASÍLIA – Aquecimento global, desmatamento, grandes obras de
infraestrutura são temas que têm colocado a Amazônia na pauta
nacional e internacional, nos últimos tempos. Mas talvez o olhar dos moradores desta região, os indígenas, seringueiros, ribeirinhos, extrativistas e demais povos tradicionais – ou povos da floresta, como se
auto-denominam – ainda não tenha recebido a devida importância por
parte da sociedade brasileira e internacional.
Mas isto deve mudar. Vinte anos após a criação da Aliança dos Povos da
Floresta, articulação que unificou no Acre indígenas e seringueiros a
partir do movimento de luta pelos direitos das comunidades
tradicionais liderada por Chico Mendes, estes atores se reuniram esta
semana em Brasília no II Encontro Nacional dos Povos da Floresta, que
agora expandiu o debate e a luta pelos direitos destas populações e
incluiu moradores de outros biomas do país para dar visibilidade
nacional a seus posicionamentos.
Por outro lado, em maio deste ano, Belém do Pará foi escolhida a sede
do próximo Fórum Social Mundial (FSM), que ocorrerá em dezembro de
2009. Sobre estes dois processos, Adilson Vieira, secretário geral do
Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), membro do Conselho Internacional
do FSM e um dos coordenadores das três edições do Fórum Social
Panamazônico (ocorridas em 2002, 2003 e 2004) falou à Carta Maior.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Carta Maior – Desde o primeiro Encontro Nacional dos Povos da
Floresta, ocorrido ha 20 anos ainda sob o impacto do assassinato de
Chico Mendes, e que criou a histórica Aliança dos Povos da Floresta, o
que mudou para as comunidades tradicionais da Amazônia?
Adilson Vieira- Muita coisa mudou. Nestes últimos 20 anos, o grande
avanço foi a conquista de espaço político dos povos da floresta na
sociedade brasileira. É bom sempre lembrar que há 20 anos estes povos
eram vistos como parte do folclore brasileiro. Seringueiro, índio,
castanheiro, eram figuras folclóricas. Desde o primeiro encontro dos
Povos da Floresta essas figuras folclóricas se tornaram atores
sociais. Você tem hoje uma série de reservas extrativistas,
conquistamos unidades de conservação, terras indígenas, que advém de
uma luta, de um posicionamento no espaço político brasileiro. Essa foi
a maior conquista que tivemos.
CM – Apesar do reconhecimento e do atendimento de muitas
reivindicações dos movimentos sociais da Amazônia, no momento há muito
descontentamento com alguns projetos infraestruturais do governo na
região. Como a Articulação dos Povos da Floresta está avaliando esta
questão?
AV – É justamente por isso que estamos realizando este
segundo encontro. No primeiro também tínhamos estes problemas, grandes estradas planejadas, ação de grandes madeireiras, principalmente as asiáticas, barragens, como a usina de Tucuruí, mas na época a gente era bastante invisível. Hoje temos uma outra discussão sobre as grandes
obras na Amazônia. Algumas destas obras, nós não somos contra. Outras,
nós somos. A [rodovia] BR-163 [que liga Santarém a Cuiabá], nós somos
a favor desde que haja governança e investimentos, nós não somos
contra o crescimento do Brasil. Mas queremos participar deste
crescimento. Por exemplo, nós somos contra as hidrelétricas do
Madeira, embora entendamos que o Brasil precise de energia. Mas ao
invés de construir grandes hidrelétricas, há que se pensar que é
preciso colocar primeiro comunidades da floresta, que parecem estar no
século 18 e não têm energia, no século 21, mas através de uma série de
alternativas energéticas, energia que você pode estar gerando
localmente. Temos um monte de crianças que não recebem vacinação
porque na comunidade não tem energia pra conservar. Essas questões
básicas ainda precisam ser resolvidos. Pode ser interessante ter um
Programa de Aceleração do Crescimento no Brasil, mas nós queremos ser
parte deste crescimento. Não basta pensar só em grandes obras para o
crescimento econômico dos grandes centros, e nós continuarmos na nossa
miséria. Queremos colocar uma divisória: BR163 somos a favor, da forma
como vem sendo construída com a participação de toda a sociedade.
Usinas do Madeira somos contra. Da forma como estão concebendo as
hidrelétricas para nós não serve.
CM – Atualmente, o aquecimento global é um dos temas mais
urgentes do debate global sobre o futuro do planeta, e está provado
que o desmatamento é responsável por cerca de 70% da contribuição
brasileira para o problema. Neste contexto, o controle do desmatamento
da Amazônia é um grande desafio para o governo e a sociedade
brasileira. Como as comunidades da floresta tem tratado o tema?
AV – Os povos da floresta que menos contribuem para o
aquecimento global são os que mais sofrem com o problema. Vimos isto
na seca que atingiu a Amazônia em 2005. Os indígenas, os ribeirinhos,
que em toda sua vida não contribuíram com uma tonelada de CO2 para o
aquecimento global, ficaram isolados, sem água, sem poder se
transportar. Estas pessoas são as vítimas deste modelo de consumo
adotado pela cidade. Essa é uma equação que tem que mudar. Queremos
discutir uma política nacional de proteção das florestas. O Brasil
precisa caminhar para uma taxa de desmatamento muito menor, apesar da
redução que tem ocorrido. Queremos que se caminhe para o desmatamento zero mesmo. Mas também temos que discutir com o povo da cidade uma mudança em seu padrão de consumo. Não dá para nós, da floresta, fazermos a nossa parte, reduzindo o desmatamento, e na cidade o pessoal continuar com seus carrões. A cidade brasileira também tem que
fazer a sua parte.
CM – A preservação ambiental tem sido tratada cada vez mais
como um serviço essencial para o planeta. Como vê o debate sobre a
compensação financeira por este serviço?
AV – Esta é uma proposta dos movimentos sociais da
Amazônia. Há seis anos, por exemplo, propusemos a criação de um
programa chamado Pró-ambiente. São incentivos econômicos por serviços
ambientais. Assim como os usineiros recebem incentivos para produzir
álcool, uma série de indústrias poluidoras recebem subsídios, nós
também queremos ser subsidiados, porque a nossa produção é
sustentável. Nós precisamos ser compensados de alguma forma pelo
serviço que a gente presta. Pode ser em forma de rebate nos créditos
ou mesmo em forma de pagamento de serviço ambiental. Não é possível
que nós, que protegemos tanto, que as vezes passamos por dificuldades
para proteger o meio ambiente, não recebemos nada por isso. Essa é uma
discussão que a sociedade tem que enfrentar. Se você quer usar o seu
carrão a diesel que produz um monte de emissões, mas quer que a gente
diminua o nosso desmatamento, é preciso algum tipo de compensação. Nós
precisamos de algum tipo de compensação pelo serviço que prestamos.
CM – A urgência do debate ambiental e da visibilização das
questões discutidas pelas populações tradicionais da Amazônia foram
elementos importantes na decisão de propor que o próximo Fórum Social
Mundial (FSM), que ocorrerá em janeiro de 2009, seja em Belém do Pará?
AV – A questão ambiental é algo que ninguém mais ignora.
Mas realizar o FSM na Amazônia será colocar a maior floresta tropical
do planeta ainda preservada, uma região multiétnica e multicultural,
no debate mundial. Os povos da Amazônia têm muito a contribuir com as
lutas dos movimentos sociais do mundo. A gente pode mostrar, por
exemplo, a nossa experiência de gestão de territórios por comunidades
tradicionais, como as Reservas Extrativistas (Resex) e os Projetos de
Desenvolvimento Sustentável (PDSs), experiências totalmente
amazônicas que já estão sendo exportadas para outras regiões.
CM – Depois da última edição do FSM, em Nairobi, Quênia, em
janeiro deste ano, alguns participantes avaliaram que é preciso
rediscutir os rumos do Fórum em função de um suposto esfriamento do
processo. Como avalia a questão e como acha que o FSM na Amazônia pode fortalecer o movimento altermundista?
AV – Não acho que houve esfriamento do processo FSM. Cada
região do mundo contribuiu para o seu crescimento, Porto Alegre [em
2001, 2002, 2003 e 2005], a Índia [2005], etc, e a Amazônia será uma
outra experiência. O Fórum de Nairobi foi muito importante para dar
peso a algumas lutas na África que ainda estavam invisíveis. Então eu
acredito que o Fórum na Amazônia terá este sentido, nós vamos
contribuir com o movimento altermundista como as outras sedes.
CM – Temos quase um ano e meio até o FSM 2009. Como se dará o
processo de mobilização na região amazônica até lá?
AV – Há um processo sendo construído, estamos montando
vários comitês e grupos de trabalho temático. Queremos fazer um Fórum
bem amplo e plural, queremos trabalhar as atividades dos movimentos da
Amazônia como se fossem um pré-Fórum, como este segundo Encontro dos
Povos da Floresta. O certo é que estamos negociando com os movimentos
que todos os eventos sejam preparatórios para 2009. No dia 26 de
janeiro de 2008 ? dia global de mobilização do FSM no ano que vem ?
haverá atividades em Manaus, Belém e em outras cidades da bacia
amazônica, não só no Brasil, para nos prepararmos para Belém em 2009.
CM – Nas edições do FSM até aqui houve uma certa dificuldade
das populações da Amazônia em participar, não? Uma alternativa a isso
foram as três edições do Fórum Social Panamazônico, ocorridas em
Belém, Manaus e Ciudad Guaiana, na Venezuela. Pretendem utilizar essa
experiência na construção do FSM 2009, principalmente para viabilizar
a participação dos amazônidas?
AV – Vamos tentar seguir no FSM a metodologia construída
pelo Fórum Social Panamazônico, como organizar caravanas de ônibus e
pelos rios para trazer os participantes. Queremos uma metodologia bem
participativa, de forma que os povos que não tinham como ir a Porto
Alegre, por uma questão financeira mesmo, que a gente aproveite para
trazer todos os grupos indígenas e demais povos tradicionais de forma
bem massiva. Não um, mas cem Tikuna, não dois, mas duzentos Yanomami. A edição de 2009 vai ser a oportunidade para muitas de nossas
lideranças participarem de um Fórum Social Mundial.
Por Verena Glass.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.
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Desde Chico Mendes, alguns avanços e muito a conquistar
Centenas de indígenas, seringueiros, extrativistas e demais representantes de comunidades tradicionais estão reunidos esta semana em Brasília para relançar a Aliança dos Povos da Floresta, entidade idealizada há duas décadas por Chico Mendes.
BRASÍLIA – Dezenove anos após o assassinato de Chico Mendes, o maior projeto político idealizado pelo ícone ambientalista volta a ganhar força. Reunidos desde terça-feira (18) em Brasília, centenas de indígenas, seringueiros, extrativistas e demais representantes de comunidades tradicionais participam do 2° Encontro Nacional dos Povos da Floresta. O encontro celebra a retomada da Aliança dos Povos da Floresta, entidade criada por Chico e composta por três importantes organizações do movimento socioambiental da Amazônia: o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a rede Grupo de Trabalho Amazônico (GTA).
O primeiro encontro foi realizado em 1989, em Rio Branco, no Acre, alguns meses após a morte de Chico Mendes, que participou ativamente da organização do evento, mas não viveu o suficiente para ver os debates acontecerem. Desde então, a Aliança dos Povos da Floresta permaneceu adormecida, apesar das três organizações fundadoras continuarem existindo, crescendo e se inter-relacionando.
Nessas quase duas décadas, houve avanços, como frisou Jecinaldo Sateré-Mawé, presidente da Coiab: “Há 20 anos, os indígenas e demais povos tradicionais eram vistos no Brasil apenas como parte do folclore nacional. Desde então, graças às diversas lutas travadas pelas nossas organizações sociais, nós deixamos de ser folclore e passamos a ser atores sociais organizados”. Esse fortalecimento, diz Jecinaldo, permitiu que os povos da floresta influenciassem na adoção de políticas púbicas como a demarcação de Terras Indígenas e a criação das Reservas Extrativistas (Resex), entre outras, além de garantir a inclusão, na Constituição Federal, de parágrafos que garantem os direitos dos indígenas e afirmam a diversidade cultural do Brasil.
Contemporâneo de Chico Mendes nas lutas em Xapuri, no Acre, o vice-presidente do CNS, Júlio Barbosa, saudou “cada um dos companheiros que ajudou a criar a Aliança nos anos oitenta” e citou alguns nomes que já fazem parte da história do movimento, como Aílton Krenak, Dona Raimunda, Pedro Ramos e Raimundão, velho companheiro de Chico nos empates realizados para impedir as máquinas de colocar abaixo as árvores da floresta. Dona Raimunda e Krenak estavam na platéia e foram ovacionados pelos presentes.
Após afirmar que este segundo encontro é também “um momento de celebrar as conquistas que obtivemos nesses 20 anos”, Barbosa citou como exemplo do avanço nas lutas das populações tradicionais as figuras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva: “A prova de nosso avanço é que uma de nossas companheiras nos empates, que tinha aquele como único instrumento de luta, é hoje ministra do Meio Ambiente. Outro companheiro, que na época nos ajudava apenas com seu apoio político, hoje é presidente da República”, disse.
“Ainda somos vulneráveis”
Não foram somente as lembranças das conquistas obtidas nos últimos anos, no entanto, que pautaram as intervenções de saudação ao 2° Encontro dos Povos da Floresta. As dificuldades ainda existentes e o longo caminho que ainda resta a ser trilhado na busca pela cidadania plena para as populações tradicionais também foram citados pelos oradores: “É preciso envolver os povos da floresta de uma maneira mais efetiva nas discussões sobre temas como o desmatamento das florestas, a preservação da biodiversidade e o combate ao aquecimento global”, disse Adílson Vieira, secretário-geral do GTA, que também defende a criação de mecanismos de incentivo econômico aos povos da floresta para que estes evitem o desmatamento e suas conseqüências.
“Para que os povos da floresta conquistem a cidadania plena, ainda falta o governo concluir os processos fundiários em nossas terras”, afirmou Jecinaldo Sateré-Mawé. Durante a cerimônia de abertura do encontro, diante de Lula e Marina, Jecinaldo fez outras cobranças ao governo federal: “É preciso paralisar as grandes obras de infra-estrutura que ameaçam nossas comunidades e fragilizam o desenvolvimento sustentável da Amazônia”, disse o presidente da Coiab.
Jecinaldo aposta que a retomada das ações conjuntas sob a égide da Aliança dos Povos da Floresta vai dar nova dinâmica ao movimento: “Os povos da floresta no Brasil estão unidos, mas nós ainda estamos entre os mais vulneráveis atores sociais de nosso país. Somente com a participação dos povos da floresta, o Brasil conseguirá se tornar um país culturalmente diverso, socialmente justo e ambientalmente equilibrado”, disse.
Poesia e Milton Nascimento
Além de Lula e Marina, estiveram presentes na cerimônia de abertura do 2º Encontro dos Povos da Floresta os ministros Gilberto Gil (Cultura), Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) e Luiz Dulci (Secretaria-Geral da Presidência), além do governador do Amazonas, Eduardo Braga. Também participarão do evento, que termina no domingo (23), os governadores do Pará, Ana Júlia Carepa, do Acre, Binho Marques, e do Amapá, Valdez Góes.
A cerimônia foi realizada no Teatro Nacional, e contou com um público de mais de mil pessoas, que assistiu entusiasmado a uma apresentação de música da floresta com a cantora indígena Cláudia Ticuna e a declamação, feita pelo próprio, de um poema de Pedro Tierra em homenagem a Chico Mendes. A noite terminou com um show do cantor Milton Nascimento, acompanhado por sua banda e pela Orquestra Sinfônica de Brasília.
Por Maurício Thuswohl – Carta Maior.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.